A Grain of Wheat Ministries

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ARREPENDIMENTO PARA A VIDA








ÍNDICE








PREFÁCIO




Nós lemos em Provérbios 1:7 que “O temor do Senhor é o princípio do conhecimento (...)” (VCR). Aqui, aprendemos que, para se começar a ter “conhecimento”, – que deve incluir conhecimento acerca da Pessoa de Deus – devemos ter algo essencial, chamado “o temor do Senhor”.

O que seria esse temor? É um respeito reverencioso a Deus. É a percepção de Seu ilimitado poder. É a consciência de que Sua pureza e santidade representam um padrão no qual devemos viver (1 Pe 1:16). É o conhecimento interior de que, algum dia, seremos julgados por Ele por causa de nossas ações, palavras e, até mesmo, nossos pensamentos. É algo que, se compreendido corretamente, causa em nós temor diante de Sua poderosa presença. É um sentimento que nos leva a buscá-Lo para limparmos nossas vidas e estarmos prontos para quando Ele voltar.

No entanto, grande parte da Igreja de nossos dias parece ignorar esse temor. Aqueles que temem a Sua palavra (Is 66:5) parecem ser uma minoria. O temor do Senhor, que deveria ser fundamental para tudo, é tratado como se estivesse fora de moda ou como se fosse algo somente para cristãos severos, rígidos, legalistas.

Essa falta de temor acaba resultando em muitos crentes envolvidos em pecado. Suas vidas não são puras nem santas. Elas não refletem o caráter de Cristo em sua vida diária. Muitos estão cometendo pecados sexuais. Outros são viciados em remédios ou drogas ilegais. Outros são desonestos, irados, irritados, não cumprem suas promessas e/ou pensam somente em si mesmos. Outras pessoas ainda fazem aborto escondidas, gastam horas absorvendo todo tipo de pornografia, odeiam seus irmãos, não perdoam aqueles que as têm ofendido e ainda declaram-se convertidas a Cristo.

Como pode a Igreja que Jesus quer receber para Si sem mácula nem ruga (Ef 5:27) transbordar de impureza, imundícia e pecado? Como aqueles que professam o nome do Senhor não se apartam da iniqüidade (2 Tm 2:19)? Além de não se apartarem, parece que muitos, inclusive os que usam o púlpito, estão fortalecendo esse tipo de comportamento mundano.

Entretanto, ainda há esperança. Os crentes, hoje, precisam orar urgentemente, pedindo a Deus que, por Sua misericórdia, nós, o Seu povo, possamos vir a conhecer o temor do Senhor. Está escrito: “(...) pelo temor do Senhor os homens evitam o mal” (Pv 16:6). Se, pela graça de Deus, experimentarmos esse santo temor, nossas vidas serão transformadas. Seremos levados a buscar Sua face. Seremos impelidos a clamar por Sua salvação e pela purificação total de nosso ser.

Como podemos ter mais temor do Senhor? Olhando para Ele. Aprendendo mais sobre quem Ele é. Vislumbrando Seu poder e Sua glória.

O temor do Senhor vem através de um verdadeiro entendimento de Sua palavra, recebendo mais revelação acerca de Seus propósitos e conhecendo mais perfeitamente a vontade Dele para Seu povo.

Este pequeno volume é uma tentativa de suprir essa necessidade. É uma pequena reflexão sobre o que este autor compreende ser um dos fundamentos perdidos do Evangelho. Oro para que Deus a use para falar à vida dos leitores e levá-los à um íntimo relacionamento com Ele que transformará suas vidas.


D.W.D.










“(...) e tanto o profeta como o sacerdote usam de falsidade. Curam superficialmente a ferida do meu povo, dizendo: Paz, paz; quando não há paz” (Jr 8:11).




“(...) quando passares pelo fogo, não te queimarás, nem a chama arderá em ti” (Is 43:2).










1.


ARREPENDIMENTO PARA A VIDA









O versículo citado mostra uma sucessão de eventos. Ele indica uma ação que resulta no recebimento de um benefício. A ação é chamada “arrependimento”. O benefício é descrito como “vida”.

Este processo foi experimentado por todos os participantes da igreja primitiva. O fato de que ele incluía tanto os judeus como os gentios é indicado pela palavra “também”. Era algo básico e essencial pelo qual eles passavam e o consideravam fundamental para serem crentes em Jesus.

Essa experiência provou para os crentes judeus e, posteriormente, aos gentios, que tinham se convertidos genuinamente. Para eles, o arrependimento e o recebimento dessa vida eram o centro da mensagem de Jesus.

Assim como nos dias do livro de Atos, hoje também é imperativo que cada crente compreenda esse processo e passe pelo mesmo. Todos nós precisamos passar por ele para que nossa fé seja genuína e seus benefícios sejam completamente compreendidos e experimentados.

Para recebermos a totalidade das bênçãos que são nossas em Cristo, é essencial que compreendamos com precisão o que está sendo dito no versículo citado no início. Com este propósito, passaremos um tempo investigando alguns de seus termos.


O QUE É ESSA VIDA?



Para começar, qual o significado exato da palavra “vida”? Todo habitante da terra já tem uma espécie de vida, do contrário, não estariam aqui. Então, que tipo de vida é essa que requer nosso arrependimento para que a tenhamos? Obviamente, é algo que pessoas naturais ainda não têm. É algo que ainda precisam receber.

Talvez alguns pensem que essa “vida” se refere à futura vida no Céu, mas não é este o caso. Outros podem imaginar que ela é uma extensão de sua vida humana, que não morrerão, mas permanecerão vivos para sempre. De qualquer maneira, não é este, também, o significado.

Outros ainda podem supor que este tipo de vida é uma melhoria de sua existência humana, como uma gasolina aditivada que pode dar a eles mais poder e mais quilometragem. Mais uma vez, esse não é o significado de “vida”. A vida mencionada nesse versículo é a preciosa vida de Deus!

Podemos estar certos disso devido ao uso de uma palavra especial para “vida” no texto original em grego. É essa palavra específica que nos dá a verdadeira compreensão. A palavra “vida” vem de um vocábulo grego peculiar: “ZOÊ”. Ele foi escolhido pelos autores do Novo Testamento para se referir à vida do próprio Deus. Então, entende-se que a vida que pretendemos receber é a vida de outra Pessoa – a vida do próprio Deus.

A língua portuguesa tem somente uma palavra para vida, mas o grego é muito mais rico. Há várias palavras para se referir a diferentes tipos de vida e distingui-los entre si. Todos os crentes deveriam estar cientes dessa distinção, porque isso influencia grandemente nossa compreensão do que certas passagens bíblicas significam.

Por exemplo, lemos, em João 10:10, que Jesus veio para nos dar vida. Porém, que tipo de vida deve ser essa? Se a palavra grega fosse BIOS, Jesus poderia ter vindo para melhorar nossa existência física, ajudando-nos a sermos mais saudáveis ou prósperos. Se a palavra fosse PSUCHÊ, (que também é traduzida como “alma”) poderíamos presumir que Ele veio para nos fazer felizes e equilibrados.

De qualquer forma, a palavra usada aqui não é BIOS, nem PSUCHÊ, e sim ZOÊ, que se refere à vida de Deus Pai, aquela que não foi criada por ninguém. Jesus veio para tornar a vida do Pai disponível para nós e em abundância!

Essa distinção é essencial para entendermos outras passagens das Escrituras, também.


VIDA ETERNA



Essa vida ZOÊ é descrita em outras partes do Novo Testamento como sendo eterna (1 Jo 1:2). A palavra “eterna” no grego é muito especial, porque quer dizer “aquilo que transcende as eras” (AIONION). Portanto, ela aponta para uma vida sem começo e sem fim. É um tipo especial de vida que não nasceu, nem pode morrer; que sempre existiu, existe agora e existirá para sempre.

Apenas Deus possui esse tipo de vida. A Bíblia diz que somente Deus tem “imortalidade” (1 Tm 6:16). Essa é a espécie de vida descrita aqui. Ao longo das eras, Deus tem sido o único ser imortal. Sua vida não apenas não morre ou envelhece, como também não pode ser morta por ninguém. É imortal e imutável. Está escrito: “(...) não era possível fosse Ele retido por ela [morte]” (At 2:24).

Agora temos boas novas. Elas são tão maravilhosas que é quase impossível de se crer nelas, ainda que sejam verdadeiras. Deus decidiu compartilhar Sua própria vida com os seres humanos. Ele tomou a decisão de tornar conhecida essa vida sem começo e sem fim aos meros mortais (Jo 3:16).

Quando eles recebem essa vida (ZOÊ), também se tornam seres imortais (2 Tm. 1:10); podem ter a vida eterna de Deus dentro de si. O que significa que jamais poderão morrer. Eles passaram “(...) da morte para a vida [a imortal]” (Jo 5:24).

Se tomarmos uns minutos e meditarmos nessa idéia, tudo isso parece quase inconcebível. A possibilidade de nós, simples seres humanos, recebermos a vida de um ser supremo em nosso interior é simplesmente inacreditável.

O que parece estar sendo oferecido a nós é a oportunidade de deixarmos a raça humana para fazermos parte de uma outra raça. Essa nova raça consiste em pessoas que receberam uma vida imortal, tão superior à vida humana, que vai além da compreensão natural. Aqueles que fazem parte dessa nova raça são chamados “filhos de Deus”; o que, na verdade, é uma nova espécie, uma nova variedade de ser, que a Bíblia chama de “nova criatura” (2 Co 5:17; Gl 6:15).

Homens e mulheres dificilmente sonhariam com isso. A ficção científica também nunca conseguiu imaginar algo parecido. No entanto, a verdade é que o Deus do universo abriu as portas para que qualquer um que consiga ouvir, entender e corresponder se transforme em algo sem precedentes no universo – algo inédito.

Eles podem receber, dentro si mesmos, a vida de um imensurável Ser superior. Podem permitir que essa vida os preencha por completo e, então, deixar com que ela se manifeste através deles em cada faceta de suas vidas.

Mesmo que alguns não tenham entendido ainda, esta é a verdadeira mensagem do evangelho de Jesus Cristo.


UM IMPEDIMENTO



Ainda existe um problema. Existe uma coisa que impede muitos homens e mulheres de receberem este dom inefável. Há uma barreira no processo de recebimento dessa nova vida. Existe algo que nos impede de receber essa vida e, mesmo quando já a recebemos, também nos inibe de sermos cada vez mais cheios dessa vida. Este problema chama-se pecado.

Deus é supremamente Santo. Ele não é só um pouco santo ou parcialmente santo. Ele é tão intensamente santo que, se uma pessoa pecadora, por alguma razão, adentrasse Sua presença, seria consumida. Agonizaria terrivelmente.

Sua santidade é tão pura, tão concentrada, tão extrema que qualquer coisa que não seja santa não pode permanecer em Sua presença. Um pecador jamais poderia ficar nem ao menos perto de Deus.

A vida de Deus é santa, reta por definição. Sua vida é espontaneamente santa, assim como a vida humana é naturalmente pecadora. Ele não precisa tentar não pecar. Não está tentando resistir à tentação. Ele não possui pecado pelo fato disso ser contrário à Sua natureza. Sua santidade é, simplesmente, quem e o que Ele é. É a Sua própria essência.

Fica claro, com isso, porque os pecadores gostam de ficar longe de Sua presença. Esta é a razão pela qual acham muitas desculpas para negar a existência de Deus. A consciência de uma pessoa não santa já sofre um impacto só de pensar que Deus possa ser real.

Para compreendermos melhor nosso Deus, poderíamos fazer uma analogia com o sol. O sol é, na verdade, uma contínua explosão nuclear. É tão intenso, que só podemos olhar para ele durante alguns segundos e, mesmo assim, com proteção nos olhos. Imagine, então, não apenas olhar, mas chegar perto do sol. Uma pessoa seria consumida pela sua impetuosa intensidade.

O universo consiste em bilhões de estrelas como essa. Talvez haja, na verdade, bilhões de galáxias, cada uma delas cheias dessas incontáveis estrelas. E cada uma dessas estrelas está brilhando, com uma inimaginável intensidade, como o sol. Contudo, nosso Deus, que criou tudo isso, ainda é bem mais grandioso! Ele é muito mais poderoso e a glória de Sua santa presença é ainda mais intensa.

Lemos, em Isaías 33:14, o que vai acontecer na intensa presença de Deus: “Os pecadores em Sião se assombram, o tremor se apodera dos ímpios; e eles perguntam: Quem dentre nós habitará com o fogo devorador? Quem dentre nós habitará com chamas eternas?”.

Essa passagem indica com clareza que a presença de Deus é intensamente poderosa e ardente como fogo. Confirmando isso, também está escrito: “Porque o nosso Deus é fogo consumidor” (Hb 12:29). A presença do Criador é um local onde pecador algum conseguirá sobreviver. Ela causa extrema agonia e destruição. Exatamente como o efeito do sol em nosso corpo natural, a intensa presença de Deus é demais para que um pecador a aguente.

Mais uma prova disso é a maneira como a Besta será destruída. Seu fim se dará simplesmente pelo surgimento de Jesus: “(...) o iníquo, a quem o Senhor Jesus matará com o sopro de sua boca e o destruirá pela manifestação de sua vinda” (2 Ts 2:8). É o intenso e glorioso brilho de Sua aparição que destruirá o “homem do pecado”.

Quando estivermos diante de Deus, a verdade – poderosa, pura e não diluída – tomará conta do ambiente. Todo nosso “refúgio da mentira” será varrido (Is 28:17). Todas as desculpas para justificar nosso comportamento, nossas palavras, pensamentos, atitudes e ações; tudo o que fazemos para culpar os outros pela nossa condição; toda imagem que fazemos a nosso respeito – de que somos melhores do que realmente somos – serão vistos com extrema clareza.

A extraordinária presença de Deus produzirá este efeito. Nada permanecerá em segredo ou às escondidas. Tudo o que temos dito, feito ou pensado se tornará evidente diante de todo o universo. A consciência de qualquer pecador estará na mais extrema agonia, sem chance de escapar. Está escrito que Ele: “(...) trará à plena luz as coisas ocultas das trevas” e “(...) manifestará os desígnios do coração” (1 Co 4:5). Tudo que for secreto será exposto. A luz da presença de Deus o fará.

Hoje, Deus oculta-Se a Si mesmo (Is 45:15). Ele não está revelando-Se a Si mesmo ao mundo com clareza. Não há dúvida de que Ele faz isso para nosso benefício. É para que não sejamos consumidos. Quando Deus Se revelar a Si mesmo, em toda Sua plenitude, todo aquele que for pecador será destruído.

Isso não acontece simplesmente porque Deus odeia essas pessoas, e sim porque é uma consequência natural de quando o pecado entra em contato com Sua santidade. A natureza da Sua pessoa é tão extrema que qualquer coisa que seja contrária a ela, simplesmente, não pode suportar a experiência. Isso é algo que não pode ser alterado. Deus não muda (Ml 3:6). Ele apenas é o que é.

Há um outro exemplo dessa verdade. Podemos olhar para o que acontecerá quando Jesus surgir em Sua glória no final dos tempos. Neste caso, descobrimos que, quando os céus se abrirem e Ele começar a descer, os incrédulos e pecadores vão subitamente inventar uma nova religião. Eles vão começar a orar.

Entretanto, em vez de orar a Deus, orarão aos rochedos e montes. Começarão a gritar para as montanhas e rochas, dizendo: “Caí sobre nós e escondei-nos da face daquele que se assenta no trono e da ira do Cordeiro” (Ap 6:16).

Naquele tempo, morrer com uma pedra enorme caindo sobre eles será mais preferível do que a agonia e tormento que a presença de Jesus criará em suas mentes.

Espero que tenha ficado bem claro para cada leitor que Deus não se mistura com pecado e vice-versa. Eles não podem coexistir. A presença de Deus destrói todo pecado.

Não é porque Deus tenha alguma atitude intolerante sobre a fraqueza da espécie humana. Não é porque Ele esteja bravo por “um pouco de pecado”. Não é porque Ele não seja compreensível ou não simpatize com nossas faltas e falhas. É simplesmente um fato, um resultado de quem Deus, nosso Criador, é. A intensa santidade, que define Sua natureza, junto ao Seu maravilhoso e ilimitado poder, simplesmente destruirá todo pecador.


O SURGIMENTO DE DEUS



Deus está planejando revelar Sua presença ao universo, um dia. Em algum momento, Ele não Se ocultará mais. Deus não quer existir de uma maneira encoberta para sempre. Sua vontade é revelar-Se em Sua grandeza a toda Criação.

Entretanto, Deus ama a raça humana que fez. Ele não quer extinguir a todos nós através de Sua revelação plena sem que tenhamos algum tipo de preparação que nos capacite a sobreviver a esse evento.

Isso, então, traz-nos de volta ao nosso pensamento original. O plano de Deus para que permaneçamos vivos e inteiros em Sua vinda é fazer uma troca de vida. Sua idéia é que recebamos Sua própria vida e, assim, nos tornaremos uma variedade de seres que Lhe darão as boas-vindas e se alegrarão com Seu surgimento – seres “à prova de fogo”.

Por isso, devemos nos tornar o mesmo tipo de ser que Ele é, receber Sua vida e natureza santas e mergulhar nelas, porque só esse tipo de ser não sofrerá impacto negativo algum quando Ele surgir. Esse ser não apenas sobreviverá na presença de Deus, como também prosperará nela.

Hoje, nosso pecado é o que nos separa de Deus. Também é nosso pecado que causará nossa futura dor e destruição quando estivermos em Sua presença imediata. Portanto, é necessário que nos tornemos livres de nosso pecado. Somente assim, seremos capazes de suportar a presença de Deus quando Ele surgir.


ARREPENDIMENTO



O primeiro passo da solução de Deus para o problema do nosso pecado é chamado “arrependimento”. Esse é o passo que nós devemos dar. Ainda que seja verdade que Deus nos ajuda neste procedimento tão necessário, esta é uma decisão que somente nós podemos tomar.

O arrependimento é uma parte essencial do processo de salvação. Na verdade, é tão crucial na obtenção da nova vida que sem ele não podemos ir a lugar algum. Sendo assim, não podemos deixar de gastar algum tempo e examinar esse processo cuidadosamente.

Quando João Batista veio, ele veio pregando uma coisa: arrependimento. João dizia: “Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus” (Mt 3:2).

Do mesmo modo, Jesus começou Seu ministério na terra proclamando a mesma mensagem. Está escrito: “Daí por diante, passou Jesus a pregar e a dizer: Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus” (Mt 4:17). Esse arrependimento é o primeiro passo essencial para conseguirmos receber a vida que Deus está nos oferecendo.

Há muitos que querem pular esse passo. Incitam pessoas a aceitarem a Jesus sem o arrependimento inicial, necessário para prosseguir adiante ou alcançar êxito. Parecem crer que simplesmente “aceitar” a Jesus e tudo que Ele fez por nós é o suficiente para que o pecador, um dia, “vá para o céu”. Acabam apresentando um caminho largo e fácil.

O fato, no entanto, é que Jesus não carece de “aceitação”. Ele não está ansiando por sua aceitação ou de quem quer que seja. Deus não está aguardando ansiosamente, com esperança de que alguém O aceite. Parece que alguns creem que, se eles tão somente O aceitarem, Ele Se esquecerá de toda Sua aversão ao pecado e à condição pecadora deles.

Ao contrario, nossa maior necessidade não é de aceitá-Lo, mas de que Ele nos aceite! Nós precisamos ser aceitos por Ele! E, para que Ele nos aceite, é necessário que tomemos um passo inicial: o arrependimento – um completo, profundo e sincero arrependimento.

Então, o que é o arrependimento? É quando percebemos muitas coisas pecaminosas que temos feito. Também começamos a ver o que somos. Na luz de Deus, tornamo-nos convictos de nossos atos e de nossa tendência natural de fazer uma grande variedade de coisas más que são contrárias à natureza de Deus.

Em seguida, confessamos, diante de Deus, o que temos feito, o que somos e, então, tomamos conhecimento de que somos dignos de morte. Sim, o arrependimento genuíno envolve a percepção de que, aos olhos de Deus, somos dignos de morte. O arrependimento verdadeiro significa que nós descobrimos que merecemos morrer por aquilo que temos pensado, dito, feito e, inclusive, pelo que somos. Esta é uma parte importante do processo de arrependimento.

Raciocine comigo por um momento. Se não somos dignos de morte, ou não achamos que somos, que razão haveria para que alguém morresse em nosso lugar? Se não somos culpados o bastante para merecermos a pena de morte, que necessidade haveria de alguém nos substituir nessa execução? Se nossa culpa não é suficiente para merecermos a morte, então por que precisaríamos que Jesus morresse em nosso lugar?

Portanto, é impossível uma pessoa receber um Salvador que ela não quer ou que não sente que precisa ter.

O batismo deveria ser um símbolo deste fato em si. Não é um simples mergulho ou um banho. É uma declaração para o universo de que nós compreendemos e aceitamos nossa necessidade de morrer. No verdadeiro batismo, reconhecemos nossos pecados e proclamamos que estamos unidos com Cristo em Sua morte, olhando para Sua ressurreição para nossa salvação. Estamos declarando publicamente que quem somos e o que fazemos é digno de morte e que cremos que Cristo nos mudará através da substituição de Sua vida pela nossa.

Qualquer “arrependimento” que não tenha sido profundo o suficiente para que a pessoa envolvida compreenda que ela merece morrer é falho. Esse tipo de “arrependimento” não levará ninguém muito longe em sua caminhada cristã.

Sem um verdadeiro, profundo e completo arrependimento, tais pessoas não terão como ser limpas por Deus e ter suas vidas substituídas pela Dele. Portanto, crescerão muito pouco na vida espiritual.

Por que, por exemplo, alguém iria querer ter sua vida arrancada e trocada por outra vida se ele ainda crê que sua vida é boa? Se, em sua própria concepção, sua vida o está servindo bem, não existe nenhuma necessidade lógica para ser trocada. Ninguém gostaria de ser dominado pela vida de outra Pessoa se ainda gosta da vida que possui e a aprova. Ela nunca iria desejar morrer para si mesma e ter a vida de Deus em seu lugar.

A respeito do julgamento de Deus sobre aqueles que pecam, está escrito: “Sem misericórdia morre pelo depoimento de duas ou três testemunhas quem tiver rejeitado a lei de Moisés” (Hb 10:28).

Foi Deus quem deu esta lei. E a pena da lei para o pecado é a morte. A morte foi aplicada para diferentes tipos de ofensa, mesmo aquelas consideradas insignificantes. Por exemplo, o Velho Testamento conta-nos a história de um homem apedrejado até a morte, segundo a direção do próprio Deus, por estar apanhando lenha no sábado (Nm 15:32-36).

Essa mesma penalidade foi passada para aqueles que cometessem adultério, usassem drogas, praticassem homossexualismo, consultassem espíritos, cometessem incesto, fizessem sexo com animais, blasfemassem, murmurassem, fossem filhos rebeldes, dentre muitas outras coisas como essas. Resumindo: assim como o pecado de Adão e Eva resultou em morte, toda e qualquer pessoa que peca revela que é digna de morte. “(...) a alma que pecar, essa morrerá” (Ez 18:4).

A morte física, que foi instituída pela lei do Velho Testamento, é apenas uma representação, ou uma sombra, do futuro. Como temos visto, a morte e destruição da alma pecaminosa serão um resultado inevitável da presença direta de Deus. Quando Ele surgir, a vida e a natureza pecaminosa serão queimadas.

A sentença de Deus sobre o pecado é a morte. Deus não pode coexistir com o pecado. “Porque o salário do pecado [todo e qualquer pecado] é a morte (...)” (Rm 6:23). Temos entendido claramente, desde o início deste capítulo, que a intensa presença de Deus julgará quem e o que nós somos.

Então, podemos compreender, com facilidade, que as pessoas cheias de pecado, ou mesmo com uma tendência natural para o pecado, terão Seu julgamento executado sobre elas. Esses indivíduos, pelo simples fato de aparecerem diante de um Deus santíssimo, sofrerão o julgamento pela Sua presença.

Portanto, nosso arrependimento – o conhecimento de nossos atos e da nossa condição e o reconhecimento de que merecemos morrer – é essencial para recebermos Sua nova vida e, consequentemente escaparmos de Seu julgamento. Nosso arrependimento abre o caminho para nos tornarmos mortos para nós mesmos e cheios de Sua vida.

Assim, preparamo-nos para o dia vindouro, quando Jesus surgirá em Sua intensa e ardente glória. Quando, verdadeiramente, nos arrependemos, abrimos nossos corações para Deus fazer Sua gloriosa obra de substituição em nós, transformando-nos à Sua própria imagem.

Se não vemos nosso pecado, é porque temos uma deficiência de luz. A única maneira pela qual podemos realmente nos arrepender é se Deus, em Sua misericórdia, fizer Sua luz brilhar dentro de nós. Quando Ele Se aproxima de nós, a luz de Sua presença expõe quem e o que somos. Quando nos falta essa luz e a convicção de pecado, é a prova de que não somos realmente íntimos de nosso Criador.

Contudo, quando, através do favor de Deus, conseguimos vê-Lo com mais clareza, também enxergamos nosso pecado. Isso, então, capacita-nos a nos arrepender.


TRISTEZA



O arrependimento é algo que fazemos quando, finalmente, vemos nosso pecado. Quando percebemos, à luz de Deus, o mal em nossos caminhos, começamos a sentir um pesar. Quando compreendemos o quanto temos ofendido aos outros; quando vemos o quanto temos entristecido a Deus; quando sabemos como nossas palavras e ações têm causado dor e sofrimento àqueles que estão a nossa volta, estamos prontos para nos arrepender.

O verdadeiro arrependimento envolve tristeza. Vejamos o que Paulo escreveu para os coríntios: “Agora, me alegro não porque fostes contristados, mas porque fostes contristados para arrependimento; pois fostes contristados segundo Deus, para que, de nossa parte, nenhum dano sofrêsseis. Porque a tristeza segundo Deus produz arrependimento para a salvação, que a ninguém traz pesar (...)” (2 Co 7:9,10).

O arrependimento ocorre quando temos um grande senso de culpa pelos pecados que cometemos e pela nossa condição pecaminosa. Tornamo-nos verdadeiramente convictos da gravidade de nossos pecados e de suas consequências.

No arrependimento genuíno, nos damos conta de nossa horrível condição. Quando verdadeiramente enxergamos a nós mesmos, vemos algo muito repugnante.

A experiência de Jó é um exemplo dessa verdade. Ele era, em sua própria opinião, um homem reto. De fato, de um ponto de vista superficial, ele estava fazendo tudo certo. Ajudava os pobres, socorria os desamparados. Não falava mal dos outros. Não mentia, não cometia fraude, não roubava, não tirava vantagem, nem se comprometia com outros sem cumprir o combinado. Com seu jeito de agir, em muitas situações, Jó era mais correto do que muitos que dizem ser cristãos, hoje.

Entretanto, no final de sua provação, Deus revelou-Se a Jó. A justiça genuína de Deus foi vista e, naquela brilhante e intensa luz, Jó viu que seu esforço era meramente humano e imperfeito. Ele disse: “Eu te conhecia só de ouvir, mas agora os meus olhos te vêem. Por isso me abomino e me arrependo no pó e na cinza” (Jó 42:5 e 6).

Por favor, note a reação de Jó. Quando viu a verdadeira santidade, abominou-se a si mesmo. Descobriu que o que ele era, ainda que em termos humanos fosse estimado, era podre, digno de repúdio. Ele odiou o que viu em si mesmo. Odiou a carne, a natureza caída e, até mesmo, o senso de justiça própria que tinha visto em si mesmo. O resultado foi arrependimento. Esta é a única reação aceita por Deus.

Quando Pedro estava pregando no dia de Pentecostes, seus ouvintes tiveram uma reação semelhante. Eles “compungiram-se em seu coração” (At 2:37). Pedro tinha-os acusado de participação no assassinato de Cristo. No versículo 23 do capítulo 2 do livro de Atos, falando acerca da morte de Jesus, ele proclama: “(...) vós o matastes, crucificando-o por mãos de iníquos”.

Com certeza, aqueles não eram os mesmos homens que O seguraram e pregaram os pregos. No entanto, foram convencidos pelo Espírito Santo de que eram exatamente o tipo de pessoa que faria aquilo. Eles consentiram em Sua morte. Através da pregação de Pedro, sentiram uma profunda culpa rasgando seus corações. O resultado direto dessa convicção de pecado foi o arrependimento (vs. 38).

Uma outra reação à revelação da pessoa de Deus é a auto-repugnância. Em Ezequiel, capítulo 20, versículo 43, encontramos algo sobre o que ocorrerá no futuro reino milenar de Cristo, quando Ele trará todos aqueles da nação de Israel de volta para sua terra. Lá, Ele Se revelará a eles. E qual será a reação deles? Eles perceberão seus pecados e sentirão nojo.

Está escrito: “Ali vos lembrareis dos vossos caminhos e de todos os vossos feitos com que vos contaminastes e tereis nojo de vós mesmos, por todas as vossas iniquidades que tendes cometido”. O verdadeiro arrependimento também envolve auto-repugnância.

Há muitos na Igreja, hoje, que estão difundindo o pensamento positivo. Eles pensam que você deve “amar-se a si mesmo”. Queridos irmãos e irmãs, deixe-me alertá-los da forma mais direta possível: este é um sério engano. Isso não os levará a lugar algum, espiritualmente.

Pode lhes dar a falsa idéia de “valor próprio”, no âmbito psicológico (que se trata apenas da alma do homem), mas não promoverá crescimento espiritual algum. Pode ajustar sua mente, humanamente falando, e, talvez, dar-lhes algum consolo emocional, mas não os transformará à imagem de Cristo.

Na verdade, de acordo com o evangelho de João, o amor-próprio resultará na perda de sua vida, ou “alma”. Lê-se: “Quem ama a sua vida perde-a; mas aquele que odeia a sua vida neste mundo preservá-la-á [tem esta vida trocada] para a vida eterna (Jo 12:25).

Por que será isso? Porque, quando aprovamos e amamos o que somos, não nos arrependemos. Não sentimos nojo nem nos detestamos. Não sentimos a necessidade de Alguém Superior viver dentro de nós, tomando o lugar de nossa vida natural.

Se for assim, quando Jesus surgir, não teremos sido completamente transformados. Naquele momento, Sua santidade intensa consumirá tudo que for natural, humano e pecaminoso. É impossível a vida pecaminosa permanecer em Sua presença.

Aqui, encontramos uma promessa infalível de Deus. Um fato do qual podemos ter certeza. Se amarmos quem e o que somos; se aprovarmos a nós mesmos; se pensarmos que somos bons; se não tivermos nojo e detestarmos a nós mesmos, perderemos nossa egocêntrica vida natural (PSUCHÊ) da pior maneira. Ela será perdida na vinda do Senhor. Será consumida por Sua intensa santidade. Contudo, se odiarmos nossa vida porque vemos o que ela realmente é à luz da face de Jesus, Ele trabalhará em nós para trocá-la por Sua própria vida eterna.

O verdadeiro arrependimento – algo que ocorre quando nos vemos à luz de Deus – gera tristeza e auto-repúdio, acompanhados de uma vontade de nos livrar daquilo que vemos. Significa que agora entendemos nossa necessidade de morrer e ter nossa vida substituída pela vida de Deus. Concordamos com o julgamento de Deus sobre nossa carne e nos abrimos para receber Sua grande salvação.


A LUZ DO MUNDO



Como temos visto, o verdadeiro arrependimento depende da revelação de Deus. Jesus é “a luz do mundo” (Jo 8:12). Quando nos aproximamos Dele, ou quando Ele Se aproxima de nós, Sua luz brilha em nós. Conforme essa luz se aproxima, começamos a nos enxergar com muito mais clareza.

Uma pessoa em um quarto totalmente escuro não vê nada. Esta é a nossa condição antes de conhecermos a Cristo. Quando porém, uma pequena luz começa a brilhar, a pessoa no quarto começa a enxergar ao seu redor. Quanto mais a luz brilha, mais tudo é visto com clareza.

Da mesma forma, quanto mais nos aproximamos de Jesus, mais forte Sua luz brilha e mais claramente enxergamos nosso pecado. Aliás, este é um excelente teste para sabermos se estamos nos transformando de verdade em pessoas mais íntimas de Jesus: se conseguimos ver melhor nosso pecado.

Quando era um jovem crente, imaginava que, depois de mais de 36 anos caminhando com o Senhor, estaria quase levitando, sentindo-me bem santo. Entretanto, minha experiência tem sido de, com o passar do tempo, ver cada vez mais o meu pecado. Tenho tido a constante e profunda oportunidade de me arrepender mais completamente e de deixar a nova vida de Deus crescer dentro de mim.

O arrependimento não é algo que acontece uma única vez. Não é algo que fazemos uma vez, no início de nossa caminhada cristã e depois acaba. Pelo contrário, no cristianismo verdadeiro, há sempre a profunda consciência de que precisamos de um Salvador. Vemos cada vez mais claramente o que somos, como homens naturais, e o quanto precisamos ter a nossa vida trocada pela Dele.

Quanto mais nos arrependemos, mais podemos ser transformados. Quanto mais compreendemos o quanto nossa velha vida é digna de morte, mais podemos ser transformados à Sua imagem. Um constante crescimento em arrependimento abre o caminho para que a vida de Deus nos preencha e substitua o que somos.

Agora, por que será que tem que ser assim? Porque, a menos que vejamos a necessidade de nossa vida velha morrer, Deus não fará – na verdade, não poderá fazer – Sua obra em nós. Ele, com certeza, não vai nos forçar a experimentar essa transformação. Ele não aplicará a morte de Jesus em áreas da nossa vida que não desejamos morrer.

Jesus nunca nos forçará a passar por essa transformação. Não estarmos dispostos a sermos crucificados é o que bloqueia Sua obra. Portanto, precisamos, primeiro, nos enxergar sob Sua luz e, depois, concordar com a sentença de Deus a nosso respeito. A partir daí, Ele vai operar em nosso interior para aplicar tanto a morte como a ressurreição de Jesus em nossa alma (PSUCHÊ).

Enquanto aprovamos o que somos, vamos querer reter o que temos. Enquanto pensamos que estamos bem, então não existe, em hipótese alguma, nenhuma necessidade de mudança. Certamente, não sentiremos nenhuma necessidade de haver uma sentença de morte sendo executada sobre nós.

Portanto, permaneceremos como somos: homens e mulheres naturais, sem transformação.

O verdadeiro progresso na vida espiritual – transformação genuína e eterna à imagem de Deus – só pode existir quando nos enxergamos sob a luz de Deus. Somente então, estaremos dispostos a “negar-nos a nós mesmos e tomar a nossa cruz.” Somente então, estaremos dispostos a perder nossa própria vida.







2.


O PROCESSO DE ARREPENDIMENTO





Existem algumas pessoas que começam sua caminhada cristã com uma onda de transformação gerada por uma poderosa revelação de Deus e, como consequência disso, de pecado. Desde o começo de sua experiência com Jesus, estão arrependidas de uma forma intensa. Seus pecados foram profundamente expostos e elas estão prontas, dispostas a experimentar a morte e a ressurreição de Cristo.

Esses crentes mergulharam na presença de um Deus santo e lá viram a si mesmos sob Sua luz. Esta revelação de seu “eu” e de seus pecados gerou neles um forte arrependimento, o que permite que o Espírito Santo faça Sua obra neles rapidamente e sem muita resistência. Essas pessoas progridem de uma maneira muito rápida em sua caminhada espiritual.

Praticamente todos os “avivamentos” poderosos conhecidos ao longo da história da Igreja são acompanhados por uma tremenda convicção de pecado. O resultado é um profundo arrependimento. Aquelas “visitações” de Deus trouxeram uma luz ardente que convenceu homens e mulheres de seus pecados – o erro em suas ações, palavras, etc. – e de seu pecado – a natureza de sua carne que produz tais pecados.

Aqueles que se converteram durante os tempos de visitação de Deus, quase sempre, tornaram-se tementes a Deus, pessoas santas cujo testemunho continuou forte até sua morte física.

A causa disso é a obra transformadora de Deus – a troca de Sua vida pela deles – que é grandemente facilitada em pessoas que têm um coração quebrantado, o que as leva a um arrependimento profundo.

No entanto, muitos (se não a maioria dos crentes, hoje) não são trazidos a Jesus dessa maneira. Eles não têm vindo a Ele com muita (se é que há alguma) convicção de pecado. Pelo contrário, são instigados a vir para Jesus por causa dos benefícios. Talvez estejam atrás de cura, bênçãos, soluções para problemas pessoais, prosperidade financeira ou qualquer coisa do tipo.

Muitas pessoas, em vez de buscarem ser livres do que são e fazem, procuram ajuda para continuarem vivendo como antes, só que sem tantos problemas. Estes convertidos terão pouco progresso espiritual.

Como um destaque, gostaria de afirmar, com a máxima clareza, que a maioria das experiências chamadas de “avivamento” em nossos dias não pode fazer nada para ajudar no processo de transformação. Cair no chão, latir como um cachorro, chacoalhar, rir ou qualquer outro fenômeno como esses, não transformam ninguém. Eles não convencem verdadeiramente do pecado e, portanto, não se arrependem.

Consequentemente, não passam de uma perda de tempo. Pior ainda, frequentemente, não passam de uma desilusão – uma experiência meramente emocional que muitos confundem com coisas espirituais. Tais experiências não fazem parte da obra do Espírito Santo de Deus.

Como vimos no início deste livro, para que sobrevivamos ao surgimento de Jesus Cristo em sua glória e poder, devemos ser transformados para sermos como Ele. Precisamos ser mudados daquilo que somos para o que Ele é. Devemos ter nossa vida trocada pela Dele.

A chave que abre o caminho para esta que é a mais necessária de todas as experiências é o arrependimento. Devemos ver o que somos e nos arrepender, clamando para sermos libertos de nós mesmos. Devemos estar dispostos a morrer para que nosso “eu” pecaminoso não viva mais e para que a vida de Jesus possa encher nosso ser por completo.

O arrependimento está diretamente relacionado à nossa transformação. Apenas pense assim: pouco arrependimento = pouca transformação; mais arrependimento = mais transformação; profundo e total arrependimento = transformação ilimitada à imagem de Cristo.

Nunca devemos pensar que reconhecermos nossos pecados e nos arrependermos deles seja algo negativo. É um ato que alarga a perspectiva de uma nova bênção espiritual em Jesus Cristo.


E SE NÃO COMEÇAMOS BEM?



Mesmo se não tivemos um começo adequado em nossa vida cristã – ou seja, se não tivemos uma profunda convicção de pecado e, portanto, temos tido um arrependimento superficial e insuficiente – ainda há esperança. Nunca é tarde. Hoje, podemos buscar a ajuda de Deus para conseguirmos chegar a um completo arrependimento. É Ele quem de fato faz nosso arrependimento acontecer. Lembrando que, no versículo com o qual começamos este livro, vemos que Deus concedeu aos gentios o arrependimento para a vida ZOÊ. As pessoas não chegam ao arrependimento por conta própria. Foi Deus quem preparou tudo para elas.

Aqueles que estão na escuridão não veem (e de fato não conseguem ver) sua real condição. Somente pela misericórdia de Deus, quando Ele nos ilumina, podemos ver o quão caídos estamos e o quanto precisamos de salvação. Quando começamos a vislumbrar Sua extrema santidade, passamos a compreender nossa pecaminosa imundície.

O arrependimento genuíno não é algo que nós mesmos podemos gerar. Não é o ato de examinar nosso passado ou presente, tentando fabricar algum tipo de tristeza. Não há nenhum valor no esforço pessoal de tentar de sentir culpa ou de tentar lembrar de cada pecadinho que possamos ter cometido no passado.

O verdadeiro arrependimento necessita da luz de Deus para funcionar. Somente Sua presença pode gerá-lo. Embora todos nós possamos facilmente resistir à convicção de pecado que Deus traz, não conseguimos produzi-la com nosso próprio esforço.

O que precisamos fazer é buscar Sua presença. É Dele que a luz necessária virá. À medida que andamos em intimidade com Ele, veremos cada vez mais os nossos pecados. A partir daí, teremos o maravilhoso privilégio de nos arrependermos e sermos limpos por Ele.

Mesmo se começamos nossa caminhada espiritual de uma maneira “deficiente”, ainda que nunca tenhamos realmente nos arrependido, hoje, Deus pode nos guiar até esta gloriosa bênção. Ele ainda pode resplandecer Sua luz sobre nós. Se genuinamente tivermos fome e sede de justiça, Ele nos saciará (Mt 5:6).

Devemos estar sempre buscando a face de Jesus. Nessa luz, podemos ver exatamente o que somos e nos arrepender. Esse arrependimento abre o caminho para que Sua morte e Sua vida sejam aplicadas a nós.

Quando vemos Sua glória, somos expostos e transformados. Está escrito: “E todos nós, com o rosto desvendado, contemplando, como por espelho, a glória do Senhor, somos transformados, de glória em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito” (2 Co 3:18).

Na luz de Seu rosto, enxergamos a nós mesmos e nos comparamos com Seu elevado padrão. Nosso arrependimento, então, abre a porta para que Sua vida preencha o que fomos outrora.


UMA ILUSTRAÇÃO



Gostaria de compartilhar uma pequena história que pode ajudar a ilustrar este fato. Há muitos anos, eu e minha esposa estávamos na Flórida. Num domingo, fomos visitar uma igreja. Fiquei surpreso quando descobri que era o único homem ali. Todas as outras pessoas eram mulheres ou crianças.

Quando o pastor passou a pregar, comecei a entender o porquê. Aquele querido irmão pregava um legalismo e uma condenação que quase se podia tocar. Nem preciso dizer que não retornamos para uma segunda dose. Uma reunião desse tipo já é o suficiente.

Alguns anos mais tarde, voltamos para a mesma região e encontramos uma mulher daquela igreja no estacionamento de um mercado. Ela começou a insistir para que fôssemos a um culto.

Pensei: “Esta é a última coisa que poderia me imaginar fazendo”. Mesmo assim, ela continuou insistindo. Disse que o pregador tinha mudado. Tinha tido uma experiência com Deus que o transformara.

Devo confessar que, só depois de relutar muito, decidi ir outra vez àquela reunião. Contudo, quando o pastor começou a falar, era óbvio que algo havia mudado. Agora estava cheio do amor de Deus. Estava ministrando pelo Espírito Santo. Alguma coisa importante tinha acontecido com aquele irmão. Em minha curiosidade, eu tinha que saber o que havia acontecido. Então, combinei algo para passar um tempo com ele e perguntar a respeito de sua experiência.

O que me disse foi mais ou menos o seguinte: ele tinha jejuado e orado, vários dias, por uma experiência mais profunda com o Senhor. Uma manhã, ele acordou, por volta das seis horas, e ficou em pé ao lado de sua cama. Ali ficou, paralisado pela presença de Deus. A única maneira pela qual conseguia descrever a experiência era dizendo que teve um encontro face a face com o Espírito da Verdade – a verdade pura, não diluída e ardente.

Sua experiência foi como se o Espírito tivesse alcançado seu interior e revirado tudo, desvendando e expondo muitas coisas. Aquelas “coisas” eram atitudes, pensamentos, palavras e ações. Ele foi intensamente convencido de seu pecado. Aquela “Verdade” brilhou forte dentro dele e, então, foi levado a um profundo arrependimento.

Quando a experiência acabou, ele olhou de novo para seu relógio. Tinha ficado em pé, ao lado de sua cama, por aproximadamente meia hora.

Aqueles trinta minutos, porém, transformaram aquele homem. Seu tempo na presença de Deus tinha-o convencido e transformado. Agora, sua vida está muito mais cheia do amor e da vida de Jesus. Como precisamos de mais experiências como essa!


ARREPENDIMENTO É UMA EXPERIÊNCIA CONTÍNUA


O arrependimento não é o tipo de experiência que acontece uma vez e pronto. Não é algo que fazemos no início de nossa jornada cristã e não temos que fazer outra vez. Deve ser um processo contínuo na vida de todos os crentes.

Por quê? Porque quanto mais nos aproximamos de Jesus, mais luz podemos ver. Ele é a luz do mundo (Jo 9:5). Sua presença é percebida pela intensidade da luz. Portanto, se estamos mesmo chegando mais perto Dele, nos enxergaremos com uma clareza cada vez maior. A luz ficará cada vez mais forte.

Na verdade, isso pode ser considerado um teste para saber o quão sincero nosso caminhar com Jesus é. Estamos, de fato, vendo mais pecado? A natureza pecaminosa está sendo exposta num processo crescente? Existe um arrependimento profundo em nossa vida?

Se não há, então alguma coisa está errada. De alguma maneira, acabamos nos esquivando de nossa experiência cristã. Não estamos nos movendo para perto de Deus. Por outro lado, se nosso arrependimento estiver realmente crescendo, podemos estar confiantes de que nosso relacionamento com o Criador está se tornando muito mais íntimo.


CONVICÇÃO E CONDENAÇÃO



Existe, com certeza, uma diferença entre convicção de pecado e condenação. Muitos crentes têm sofrido com muita condenação, mas possuem pouca convicção.

Uma das obras favoritas do diabo em nossa mente é nos condenar. Muitas pessoas perdem muito tempo condenando-se a si mesmas. Outros, talvez amigos e parentes, também podem ajudar a nos condenar ou a nos fazer sentir condenados.

No entanto, a verdadeira convicção de pecado vem do Espírito de Deus. Uma grande parte de Sua missão é “convencer o mundo do pecado” (Jo 16:8). Então, hoje, Ele está trabalhando para expor nosso pecado e nos ajudar a nos arrepender.

Quando Deus nos convence, não há nada generalizado ou vago. Ele sempre nos convence de algo específico e concreto. Sua luz expõe algo que realmente aconteceu no passado ou que existe, hoje, em nossas vidas. Não é um indefinido sentimento de culpa. A luz de Deus sempre vem com uma claridade penetrante.

É impossível ter uma definição completa da diferença entre a convicção que vem de Deus e a condenação que vem de outra fonte. Acima de tudo, isso requer discernimento espiritual. Precisamos aprender a conhecer a voz do Pastor para segui-Lo (Jo 10:27). Precisamos desenvolver uma intimidade com nosso Criador que nos capacite a discernir o que vem Dele e o que não vem. Não há nada que possa substituir essa intimidade e discernimento.

Embora ninguém deva passar sua vida sob uma condenação que proceda de uma fonte que não seja Deus, existe também um outro perigo. Um grande número de crentes caracteriza a convicção do Espírito Santo como “condenação”. Deus está tentando convencê-los do pecado e eles resistem a essa obra do Espírito Santo, chamando-a de condenação. Esta é uma doença comum e espiritualmente perigosa. Quando rejeitamos a convicção do Espírito, taxando-a de “condenação do diabo”, resistimos ao trabalhar de Deus em nossas vidas. O processo de transformação é estancado. Bloqueamos as coisas maravilhosas que Ele quer fazer em nós. Quando resistimos à Sua obra de nos convencer do pecado e nos transformar, o Senhor nos respeita e simplesmente pára.

Portanto, devemos ser muito cuidadosos para não errarmos neste ponto e acabarmos rejeitando, de forma sutil e rápida, algo que possa estar vindo de Deus. Andando no temor do Senhor, devemos considerar e levar até Ele em oração os pensamentos que podem estar genuinamente nos convencendo de pecado.

Sei que há muitos, hoje, que sofrem debaixo de muita “condenação”. Contudo, o que pode estar causando isso, na verdade, é a falta de arrependimento.

Quando nos arrependemos de algum pecado específico, por exemplo, podemos ter absoluta certeza de que ele foi perdoado. Quando confessamos nosso erro diante de Deus e tomamos conhecimento de sua gravidade, ele é retirado e levado para longe, tão longe quanto o leste dista do oeste (Sl 103:12). O pecado se vai. Deus não Se lembrará mais dele. Consequentemente, não devemos permitir pensamentos a seu respeito para nos atormentar.

Quanto mais permitirmos que o Espírito Santo nos convença do pecado, menos coisas haverá para que o diabo ou outros nos condenem. Uma vez confessado e renunciado um pecado específico, não devemos permitir que ele habite em nossa mente.

Não precisamos ficar confessando, repetidamente, os mesmos pecados. Se nos encontramos nessa situação, sempre sentindo um certo peso com relação a pecados dos quais já nos arrependemos, é sinal de que há condenação.

Vários crentes trabalham sob um tremendo sentimento de culpa. Entretanto, em minha experiência, muitos destes casos são resultado da ausência de um verdadeiro arrependimento. Há muitas coisas, no passado desses indivíduos, que não têm sido trazidas à luz. Há fatos que estão tentando esquecer e deixar para trás, sem os trazerem à luz de Deus em confissão e arrependimento.

Portanto, suas consciências continuam a condená-los. Não estão em verdadeira paz com Deus. Isso faz com que se sintam culpados, em geral, a respeito de pequenas coisas no presente, porque nunca, realmente, trouxeram outras coisas do passado à tona, talvez muito mais sérias.

Vários crentes estão tentando seguir adiante na vida cristã sem ter tratado seu passado. Estão lutando para conseguir caminhar, enquanto arrastam um enorme fardo de pecados dos quais não se arrependeram. Nem é preciso dizer que eles não vão a lugar algum. Seu progresso espiritual está bloqueado. Parecem nunca crescer espiritualmente. Devido à sua consciência enfraquecida, muitos também estão vulneráveis à influência de demônios, especialmente na área de condenação.

Esses pecados do passado podem ser: pecados sexuais, assassinato, aborto, mentiras e enganações, prostituição, ódio, falta de perdão, uso de drogas, furtos, palavras e atitudes duras ou vários outros pecados. Não importa quais pecados cometemos; é sempre um grande alívio confessá-los a Deus. Uma carga tremenda será retirada de nossos ombros.

Confessar pode ser vergonhoso. Pode ser humilhante. Talvez possa, até mesmo, significar ir para prisão por alguma coisa que fizemos. Ainda assim, nos trará uma grande alegria. Muito mais da salvação de Deus será liberada. Desbloqueará o progresso espiritual que tanto precisamos.

Enquanto resistirmos à convicção do Espírito Santo e nos recusarmos a nos confessar e nos arrepender, permaneceremos em nossa pequena prisão particular de condenação e derrota. Nossa consciência perturbada não permitirá que permaneçamos na presença de Deus por muito tempo.

Quando nos arrependemos, porém, desfrutamos de uma grande liberdade! Temos uma alegria e transformação enormes, vindas da presença do nosso Salvador!

Enquanto não há a confissão e o arrependimento de nossos pecados, nossa relação com Jesus é inibida. Nosso acesso à Sua intensa santidade é limitado.

Quando tentamos nos aproximar Dele carregando, ainda, nossos pecados, podemos até conseguir tocar “a orla de Seu manto”, de vez em quando, mas não conseguiremos permanecer em Sua presença. Talvez possamos “sentir” Sua bênção de tempos em tempos, por exemplo, durante um tempo de adoração; mas não nos sentiremos confortáveis perto de Sua pureza extrema por longos períodos.

Isso ocorre porque, na presença de Jesus, nossa consciência é tocada. Como mencionamos no início deste livro, quem Ele é certamente entrará em choque com quem e o que nós somos. Logo, a única forma de permanecermos na presença de Deus, a única maneira de andarmos sem parar em Sua presença, é estarmos completamente arrependidos. Devemos corresponder com tudo que Sua luz está expondo e nos arrepender. Para permanecermos em intimidade com Deus, devemos corresponder com o que o Espírito Santo está falando dentro de nós.

Temos de ter muito cuidado, quando sentimos a convicção de pecado, para não resistirmos à obra de Deus. É muito comum, quando começamos a ver nossas falhas e erros, arrumarmos uma desculpa imediatamente. É uma tendência do homem natural tentar se desvencilhar desse sentimento de culpa que gera desconforto e vergonha.

Então, muitas pessoas, quando começam a sentir convicção de algum pecado, tentam inventar razões para se desculpar. Tentam pensar que, na verdade, foram outros que causaram o problema, ou jusificam-se, dizendo que todos são assim, também. De qualquer jeito, tentam livrar-se do sentimento de culpa e da convicção.

Queridos irmãos, temos que tomar muito cuidado com esse tipo de atitude. Talvez possamos nos convencer de nossa própria inocência. Talvez possamos argumentar de um modo que convencemos os outros de nossa falta de culpa. E Deus? Será que Ele nos considera inocentes? É possível convencê-Lo com nossos argumentos e desculpas?

Quando nos justificamos em nossas próprias mentes e diante de outros irmãos, corremos o risco de não experimentarmos a real justificação de Deus. Corremos o risco de resistirmos à convicção de pecado, ao arrependimento genuíno e à gloriosa transformação de nossa alma. Fazendo isso, perdemos a bênção que Deus tem para nós. Bloqueamos a obra do Espírito Santo em nossas vidas. Nossa falta de arrependimento frustra nosso progresso espiritual.

A tendência do homem natural é evitar a convicção de pecado. A primeira reação da alma pecadora, como no caso de Adão e Eva, é tentar encobrir os resultados do pecado. Eles costuraram um tipo insuficiente de roupa, juntando algumas folhas de figo para esconder sua nudez e vergonha. Depois, quando ouviram que Deus Se aproximava, esconderam-se. Em vez de confessarem e admitirem o que tinham feito, esconderam-se deles mesmos e de Deus.

Em seguida, quando finalmente não acharam um lugar para se esconder e foram confrontados por seus próprios erros, começaram a acusar outros por aquilo que tinham feito. Adão acusou Eva. Ela transferiu a acusação para a serpente. Esta é também uma reação espontânea da alma caída: acusar outros, em vez de admitir sua própria culpa em qualquer situação.

Sendo assim, o que todos nós precisamos é não nos desculpar a nós mesmos em nossas mentes ou colocar a culpa em outros. A verdadeira liberdade vem ao confessarmos nossos pecados diante de Deus. Nossa libertação do que temos feito (e especialmente do que somos) está em nossa confissão e arrependimento. Está em permitirmos que a luz de Deus brilhe em nós e concordarmos com tudo o que ela expuser. Quando nos arrependemos de fato, por completo, então – e somente então – estamos prontos para receber a maravilhosa obra da salvação, da transformação de nossas almas.

Querido amigo, não resista à obra do Espírito Santo quando Ele lhe convencer do pecado. Para o seu próprio bem, não tente fugir nem esconder-se. Admita, diante Dele, tudo que tiver dito, feito e pensado. Confesse o que você é – a sua tendência natural da carne. Dessa maneira, você será perdoado e limpo. Seguindo esse caminho, terá sua vida substituída pela Dele e começará, de hoje em diante, a andar em “novidade de vida” (Rm 6:4).






3.



A VERDADE QUE NOS LIBERTA





Inevitavelmente, chegamos a uma parte difícil de nossa discussão. A fim de compreender a importância do arrependimento a fundo, é essencial desmascarar alguns dos ensinos cristãos atuais que impedem tal arrependimento de acontecer.

Esses ensinamentos indicam que um arrependimento sincero e completo é desnecessário. Oferecem uma espécie de substituto, ensinando um caminho mais fácil e menos custoso para ser aceito por Deus.

O processo para se chegar até a verdade dessas coisas pode ser um pouco difícil. Principalmente, porque existem tantos conceitos enraizados acerca deste assunto. Por favor, leia as sessões seguintes com cuidado. Essas coisas são de máxima importância se desejamos ser aceitos por Ele em Sua vinda. Não podemos errar de forma alguma ao tentarmos entender estas preciosas e eternas verdades.

Infelizmente, não são poucos os conceitos modernos que estão errados a respeito da obra que Jesus Cristo realizou por nós na cruz. Mesmo assim, prevalecem entre as congregações de crentes no mundo todo.

Estou convencido de que esses ensinos errôneos têm grande responsabilidade no fato de muitos crentes não terem muito progresso espiritual. Existem pouquíssimos cristãos cuja vida reflete, de forma significativa, a vida pura de Jesus Cristo.

Há muitas doutrinas, comuns entre nós hoje, que parecem ser boas e, até mesmo, atrativas, mas que não são completamente verdadeiras. Elas não são fiéis ao coração de Deus ou à mensagem do Evangelho. São uma distorção sutil e, portanto, corrompem a verdade. São pensamentos, conceitos quase bíblicos, que foram se infiltrando no Corpo de Cristo e roubando seu poder e vitalidade espiritual.

A razão para se expor esses erros não é gerar um simples descrédito ou tentar mostrar que este autor está “mais certo”. Esta análise é de extrema importância porque todos esses ensinos têm um efeito similar.

Essas doutrinas, de um modo geral, servem para diminuir a convicção de pecado. Elas operam para, enganosamente, libertar os crentes de todo e qualquer senso de culpa, quando ainda não se consertaram com Deus de verdade.

Essas doutrinas oferecem aos cristãos desculpas plausíveis para justificar o fato de que suas vidas não refletem a natureza de seu santo Criador. Elas se unem para formar uma trama teológica que elimina, quase que por completo, qualquer necessidade de uma profunda busca por um coração arrependido.

Portanto, esses erros são responsáveis pela grande fraqueza na Igreja, hoje. Desviam o coração das pessoas do real arrependimento. Trabalham para justificar a prática do pecado. “Curam superficialmente” o pecado do povo de Deus (Jr 8:11), providenciando uma espécie de curativo humano para sua condição impura, retardando, assim, a limpeza do pecado que tão desesperadamente precisamos para nos tornar íntimos de Deus. Essas doutrinas erradas são como códigos maliciosos de computador, que invadiram a Igreja e roubaram seu poder.


A IGREJA DE HOJE NÃO ESTÁ SAUDÁVEL



Se formos honestos, teremos de admitir que a saúde espiritual da Igreja de hoje não está boa. Ela não vai bem. A prova disso é a quantidade excessiva de pecado nas congregações.

Adultério, sexo fora do casamento, mentiras, enganações, abortos, traição, luta por poder, fofoca, calúnia, ódio, inveja e todo tipo de autopromoção são abundantes. O vestuário, hábitos, valores e pecados do mundo estão invadindo a Igreja.

Em nossa luta pela retidão, o mundo está vencendo. A influência do mundo sobre a Igreja é muito maior do que a influência da Igreja sobre o mundo. Em vez de o mundo tornar-se mais reto, a Igreja é que tem se tornado mais mundana e pecadora. Embora haja algumas excessões preciosas, a tendência geral é óbvia. Qualquer um que não queira admiti-lo, insiste em permanecer cego.

Alguma coisa está definitivamente errada, mas o quê? Satanás tem obtido sucesso em insinuar para a Igreja algumas idéias erradas. Ele conseguiu distorcer algumas verdades cristãs fundamentais, transformando-as em mentiras parciais que roubam os crentes de seu relacionamento com Cristo.

Em vez de um profundo arrependimento, temos um tipo de mensagem frouxa, diluída e tímida, que faz com que Deus pareça estar a procura de alguém para aceitá-Lo. Não se exige santidade alguma. Não se ensina sobre o temor de Deus nem buscam temê-Lo. Temos aceitado uma série de “crenças fáceis” que eliminam a questão do pecado de nossas mentes.

Como isso aconteceu? Onde a Igreja foi levada ao erro? Precisamos gastar um tempo refletindo a respeito deste assunto, porque esses erros estão profundamente arraigados e têm sido introduzidos na Igreja, de gota em gota, há um bom tempo. Não existe uma resposta simples e rápida para o nosso dilema.

Ainda creio, à medida que podemos olhar juntos para a palavra de Deus, que Sua luz brilhará sobre nós para nos mostrar um novo e vivo caminho. Tentaremos pegar cada idéia falsa em seu desvio e mostrar como as Escrituras têm sido distorcidas para que nossas vidas não sejam impactadas pelo poder de Deus. Pela graça do Senhor, podemos ter um novo entendimento de Sua vontade que nos atraia para Seus braços.


ELIMINANDO O PECADO



O plano de Deus para o pecado é eliminá-lo de nossas vidas. A tática do diabo é tentar eliminá-lo de nosso vocabulário e de nossas mentes. A idéia de Deus é nos mudar à Sua semelhança de maneira que não pequemos mais. Ele pretende, de fato, nos tornar santos.

A diversão do inimigo é nos fazer pensar que Jesus não está mais muito preocupado com o que fazemos, pensamos ou dizemos. O diabo quer que acreditemos que, independente da real situação, Deus acha que nós somos santos.

A Igreja, hoje, parece pregar uma mensagem de que Deus não está muito interessado em nosso pecado. Talvez não seja algo declarado abertamente, mas existe um pensamento generalizado e sutil de que talvez as gerações passadas de cristãos tenham sido muito severas. Talvez as coisas no passado tenham sido muito legalistas.

Talvez o Deus do Velho Testamento, que apareceu como fogo, fumaça, terremoto e um insuportável toque de trombeta no Monte Sinai, tenha mudado. Talvez tenha repensado Sua posição e decidido que seria mais aceitável e popular se apenas Se tornasse mais clemente. Talvez tenha mudado Sua atitude intolerante anterior.

Contribuindo com essa impressão, há uma compreensão errada sobre o perdão. O ensino oferecido pela Igreja acerca deste tema tem expandido o perdão de Deus muito além do que Ele panejou.

Em nossos dias, parece que, se recebermos a Jesus, Ele perdoará de imediato todos os nossos pecados – do passado, do presente e do futuro. Além disso, quando O “aceitamos”, Ele não presta mais muita atenção se pecamos ou não e, subitamente, torna-Se cego para o que estiver acontecendo. De acordo com essa mensagem tão popular – seja ela pregada de forma sutil ou aberta – quando nos tornamos filhos de Deus, o pecado não tem muita importância para nós e nem para Ele.

Embora seja verdade que Jesus pode perdoar qualquer pecado, não é verdade que Ele fará isso sem considerar as motivações do nosso coração.

O sangue de Jesus é de altíssimo valor para nós e para Deus. Esse sangue é o resultado da morte do único filho de Deus, a coisa mais preciosa, íntima e especial para Ele. Jesus não doou sangue como alguém pode fazer à Cruz Vermelha. Ele foi torturado, sofreu e morreu para derramar Seu sangue. Isso teve um alto preço. Portanto, esse sangue tem valor inestimável aos olhos de Deus.

Isso significa que quando pedimos o perdão de Deus baseados nesse sangue, devemos fazê-lo com total sinceridade. Não pode ser uma brincadeira ou um flerte. Não podemos estar parcialmente arrependidos. Temos de estar inteiramente dispostos a abandonar nosso pecado.

Deus conhece as motivações do nosso coração. Ele conhece nossos pensamentos secretos de longe (Sl 139:2). O que significa que, sem sinceridade de coração em nosso pedido de perdão, não podemos ser perdoados. Está escrito: “(...) aproximemo-nos [de Deus] com sincero coração (...)” (Hb 10:22). Qualquer coisa diferente disso não funcionará.

Deus não perdoará um hipócrita. Qualquer um que pensa que pode enganá-Lo ou, simplesmente, usar Seu perdão como um meio para escapar das consequências de suas ações terá uma surpresa desagradável. “De Deus não se zomba” (Gl 6:7). Não pode haver perdão sem um arrependimento cem por cento sincero. Está escrito: “Buscar-me-eis e me achareis quando me buscardes de todo o vosso coração” (Jr 29:13).

Rei Davi admoestou seu filho dizendo: “Tu, meu filho Salomão, conhece o Deus de teu pai e serve-o de coração íntegro e alma voluntária; porque o Senhor esquadrinha todos os corações e penetra todos os desígnios do pensamento (...)” (1 Cr 28:9).


FALTA DE ARREPENDIMENTO



É verdade, também, que Deus não perdoará pecados dos quais não tenhamos nos arrependido. Se tivermos, em nossas vidas, no passado ou presente, uma quantidade de pecados dos quais não nos arrependemos ainda, eles não estão perdoados.

Não é verdade que, quando “recebemos a Jesus”, nosso registro celestial é limpo e podemos começar tudo de novo, como se nada tivesse acontecido de errado. Pelo contrário, devemos nos arrepender dos pecados dos quais temos consciência.

Além disso, precisamos nos arrepender também das coisas ocultas e esquecidas que Ele trouxer à luz à medida que andamos com Ele. Somente então, os pecados são perdoados e esquecidos por Deus. “E Deus pede conta do que passou” (Ec 3:15-VCR). Não estou incitando, com isso, uma total introspecção. Não estou dizendo que devemos gastar bastante tempo cavando nosso passado para encontrar um erro minúsculo. Estou, simplesmente, dizendo o óbvio. Nada, no passado ou presente, está escondido Dele. Devemos estar sensíveis ao Seu Espírito para que Ele possa nos convencer de nosso pecado e pecados, a fim de que possamos nos arrepender e ser limpos.

É importante, também, continuarmos abertos à obra do Espírito Santo que traz essas coisas à nossa memória, para que possamos desfrutar de um maior arrependimento e transformação. Se estamos cientes de um pecado e não nos arrependemos por tê-lo cometido, não há perdão de Deus!

Crentes imundos que andam em pecado, não são e não serão perdoados a menos que se arrependam. É uma completa tolice imaginar que serão perdoados de outra forma. Não existe qualquer possibilidade do Pai aceitar o infinito e precioso sangue de Seu Filho como uma oferta para perdoar um crente que continua pecando e não está arrependido. “(...) Porque o Senhor esquadrinha todos os corações, penetra todos os desígnios do pensamento” (1 Cr 28:9).


JUSTIFICAÇÃO



Uma outra doutrina que tem sido alterada é a da justificação pela fé. Parece que hoje muitas pessoas pensam que isso significa apenas crer em alguns fatos acerca de Jesus, como Sua divindade, Sua morte e ressurreição, etc.

Então, tomando isso como base, pensam que estão completamente justificadas diante de Deus. Imaginam que, partindo deste ponto, Deus “não possa ver seus pecados, mas somente o sangue de Jesus”. Nada poderia estar mais longe da verdade. Deus sempre sabe quando pecamos. Isso é certo. Cada vez que pecamos, Ele sabe tudo o que aconteceu. Nosso Pai nunca perde a conta de quantos fios de cabelo há em nossa cabeça (Mt 10:30). Como Ele poderia deixar de notar quando pecamos? Esta é a verdade. O que significa, então, ser justificado?

Ser justificado é quando Deus nos considera justos. Quando Ele tem um relacionamento e interage conosco como se fôssemos, de fato, justos. Por causa do sangue de Seu Filho, Ele pode ter comunhão conosco desse modo. E Ele tem “legalidade” para agir assim por causa de algo chamado “fé”. Somos justificados diante de Deus pela nossa fé em Jesus Cristo.

O que é fé exatamente? É de extrema importância que entendamos este assunto, porque é através da fé que somos justificados. Se a temos, Deus nos terá por justos. Caso contrário, Ele não nos considerará justos. Então é essencial que tenhamos essa fé, a fim de continuarmos desfrutando deste relacionamento abençoado com Deus.


O QUE É FÉ?



Colocando de uma maneira bem simples, fé é a resposta que damos quando Deus Se revela; quando Ele nos mostra algo sobre quem Ele é e nós respondemos que aquilo é verdadeiramente o que Ele é. Está escrito que Jesus: “(...) manifestou a Sua glória, e os Seus discípulos creram Nele” (Jo 2:11). Por favor, note a ordem dos fatos. Primeiro, Jesus manifestou-Se. Depois, os discípulos creram. A menos que Deus revele algo de Si mesmo para nós, é impossível crer.

Não podemos definir com palavras humanas o modo com que Deus Se revela para cada pessoa. Com Ele, há uma infinidade de formas e meios. Creio firmemente que cada ser humano teve ou terá uma mostra da Pessoa de Cristo, durante sua vida, de uma forma ou outra.

Fé é quando o indivíduo tem uma reação positiva. Desobediência é quando alguém rejeita o que recebeu. Quando Deus Se revela, o coração humano ou ama e aprova o que recebe, ou odeia e rejeita aquilo.

Fé não é um exercício mental. Não é uma afirmação de alguns fatos a respeito de Jesus. Somos convertidos porque, de alguma forma, vislumbramos a Pessoa de Cristo e cremos Nele, e não apenas porque concordamos em um conjunto de verdades acerca Dele. Somos salvos por nossa fé Nele, e não por uma teologia a Seu respeito.

A verdadeira fé é a nossa resposta para a revelação de Deus. Quando Ele Se revela e nós confirmamos o que Ele é, então, e somente então, somos justificados. Quando Ele fala, nós ouvimos. Quando Ele revela Seu caráter, O amamos. Quando nos mostra Seus caminhos, os aprovamos. Quando nos convence do pecado, concordamos com o que vemos. Esta é a nossa resposta de fé à Sua revelação. A partir daí, Deus interage conosco baseado no sangue de Jesus e considera-nos justos.

Vamos supor que nós pecamos. Fizemos ou dissemos algo que ofendeu ao Senhor. Em nosso espírito, Deus revela Seu descontentamento. Sentimos Seu falar em nossa consciência. Ele nos revela o quanto nosso erro O ofendeu, mas não respondemos com fé. Rejeitamos Sua voz em nossa consciência. Resistimos ao que Ele está revelando acerca de nossa falha comparada à Sua justiça. Em nossos pensamentos, justificamo-nos a nós mesmos. Em vez de crermos – correspondendo com arrependimento e, então, sendo justificados por Ele – rejeitamos Sua revelação.

Logo, não estamos mais vivendo pela fé. Não estamos respondendo positivamente à Sua própria revelação. Ele está falando, mas não estamos ouvindo. Ele está revelando algo, mas estamos resistindo a essa revelação. Não estamos crendo e, depois, confirmando o que Ele está nos mostrando. Ele está nos convencendo do pecado, mas estamos rejeitando essa convicção.

Será que Ele ainda nos consideraria justos? Ainda estaríamos andando pela fé? A fé que um dia tivemos seria suficiente para enganá-Lo e fazer com que não percebesse que estamos nos rebelando contra Ele agora? Somos justificados diante Dele com nossa rebeldia atual? Certamente não!


VIVENDO A FÉ QUE JUSTIFICA



A fim de que nossa fé seja genuína, ela precisa ser contextualizada. Ela deve ser ativa, agora, neste exato momento. Tiago torna esta realidade muito clara, quando diz: “(...) a fé sem obras é morta” (Tg 2:26). Isso quer dizer que, se nossa fé é viva e, portanto, genuína, ela se manifestará hoje em nossas ações. Nossas “obras” – as coisas que fazemos e dizemos – refletirão nossa fé viva. Serão a prova de que estamos em um contato vivo com nosso Criador.

Nossa fé presente é viva quando nos leva a um relacionamento íntimo com Deus e quando Deus entra em comunhão conosco. É neste sentido que “andamos pela fé” (2 Co 5:7). Andamos em comunhão com Ele, sempre respondendo com fé ao que Ele revela de Si mesmo para nós a cada momento. O resultado dessa comunhão são nossas ações ou “obras” que revelam que nossa fé é viva.

Por outro lado, a fé morta não nos justificará. Uma fé descontextualizada – que neste exato momento não está respondendo ao que Deus está revelando – não pode agradar a Deus. É uma fé morta e sem utilidade.

Até mesmo os demônios têm uma espécie de fé, talvez mais do que muitos cristãos. Eles crêem em muitos fatos acerca do Altíssimo. Eles até têm o bom senso de tremer quando pensam sobre esses fatos. Mas não têm comunhão com Deus. Não estão num relacionamento de fé com Ele. Não correspondem com Sua liderança a cada segundo. Não estão sendo justificados. Da mesma forma, a fé morta de um cristão não pode justificá-lo diante de Deus.

Uma fé morta é algo que pertence apenas ao passado. É algo que cremos uma vez e respondemos ao Senhor. A fé morta é estática, é uma coisa mental da qual fomos convencidos uma vez.

Portanto, aquilo que ocorreu no passado não constitui uma fé que nos justifique, agora, diante de Deus. Por exemplo, vamos supor que um dia você creu em Jesus. Ele revelou-Se e você respondeu positivamente a essa revelação. Você creu Nele e nasceu de novo. Até aquele momento, sua fé era viva. Você foi justificado por Ele.

E hoje? Sua fé ainda é ativa e viva? Você ainda está respondendo a tudo que Ele revela a respeito de Si mesmo e de Sua vontade? Você está desfrutando de uma vida de comunhão com Ele? Está O ouvindo e obedecendo? Sua fé, até este minuto, é do tipo que o justifica? Ou você está em uma posição um tanto quanto distante Dele?

Para sermos justificados pela fé hoje, devemos ter uma fé que seja ativa hoje. Vamos tomar um exemplo de pessoas que receberam ao Senhor alguns anos atrás, mas que, no intervalo entre aquele momento e agora, começaram a viver em pecado.

Vamos supor que começaram a fazer sexo fora do casamento, a mentir acerca de algumas coisas, a enganar ou a roubar dinheiro no trabalho, a usar drogas ou a fazer outras coisas do tipo. Será que Deus considera essas pessoas justas ou retas? Será que Ele ficou cego e tornou-Se um tolo?

Para que sejam justificadas de novo, elas devem se arrepender. Devem reativar sua fé e se tornar obedientes. Devem responder ao que Deus está lhes falando em seus espíritos, neste momento, e se arrepender. Se fizerem isso, Deus as considerará justificadas, outra vez. Ele terá comunhão com elas, novamente, baseado no sangue de Jesus.

Todavia, se continuarem no pecado, se se opuserem à obra do Espírito Santo em suas vidas, se resistirem ao Seu convencimento, continuarão não tendo uma fé viva. Portanto, não estarão sendo justificadas. Essas pessoas necessitam de arrependimento. Precisam buscar o perdão de Deus, repudiar seus pecados e colocar a parte de suas almas que está produzindo o pecado para morrer junto com Jesus.

Somente então, estarão qualificadas, mais uma vez, para serem consideradas justificadas aos olhos de Deus. Esta é a verdadeira justificação pela fé.

Fomos claramente ensinados: “O justo viverá pela fé” (Gl 3:11). Deus nos considera justos apenas quando estamos “vivendo pela fé” da maneira descrita anteriormente.


PODEMOS IR LONGE DEMAIS?



Isso levanta uma importante questão. Pode-se ir longe demais? Um filho de Deus pode pecar e continuar pecando até que não consiga mais se arrepender? A resposta parece ser “sim”. Parece ser possível as pessoas endurecerem seus corações, irem contra sua própria consciência e resistirem a Deus até chegarem a um ponto onde não conseguem mais se arrepender. Não se sentem tristes de verdade pelos seus pecados diante de Deus.

Está escrito em Hebreus 6:4-8: “É impossível, pois, que aqueles que uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se tornaram participantes do Espírito Santo, e provaram a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro, e caíram, sim, é impossível outra vez renová-los para arrependimento, visto que, de novo, estão crucificando para si mesmos o Filho de Deus, e expondo-O à ignomínia. Porque a terra que absorve a chuva que frequentemente cai sobre ela e produz erva útil para aqueles por quem é também cultivada recebe bênção da parte de Deus; mas, se produz espinhos e abrolhos, é rejeitada e perto está da maldição; e o seu fim é ser queimada”.

Por favor, note aqui que o fim dessa terra, e também das pessoas que ela representa, é ser “queimada”. Talvez você se lembre do começo deste tema, quando falamos da intensa e ardente presença de Deus. Você deve se lembrar, também, como qualquer coisa pecaminosa e não transformada será consumida em Sua presença. A presença do Deus Santo queimará qualquer coisa que não corresponda com Sua natureza. Esses versículos confirmam tudo o que temos falado.

Portanto, todos nós devemos ter uma boa dose de temor de Deus. Devemos tratar nossa preciosa relação com Jesus como uma coisa séria e extremamente importante. Nunca devemos brincar com o pecado ou com o sacrifício do nosso Senhor por nós. Estejamos cientes de que há sérias consequências. “E assim, conhecendo o temor do Senhor, persuadimos os homens” (2 Co 5:11). (Por favor, note que o contexto desse versículo fala somente acerca de crentes.)

Esaú é um exemplo de alguém que não conseguiu se arrepender. Ele chegou a ponto de endurecer seu coração, onde não conseguia mais se arrepender genuinamente. Seu coração não estava mais sensível ao Senhor. Ele tinha tratado as coisas preciosas do Senhor superficialmente e as tinha negociado por um prazer temporário e terreno. Um dia, percebeu que as tinha perdido e quis voltar atrás.

Entretanto, parece que ele as queria de volta sem o verdadeiro reconhecimento de seu pecado. Talvez tenha se dado conta de que havia perdido alguma coisa, mas não estava disposto a humildemente confessar seu erro. Ele queria rasgar suas vestes, mas não seu coração (Jl 2:13).

Mesmo lamentando e chorando diante de Deus, não podia ter de volta o que havia perdido. Não podia levar-se a si mesmo a um arrependimento genuíno. “Pois sabeis também que, posteriormente, querendo herdar a bênção, foi rejeitado, pois não achou lugar de arrependimento, embora, com lágrimas, o tivesse buscado” (Hb 12:17).

Essa história terrível deve servir de aviso para todos nós. Nunca devemos brincar com as preciosas coisas de Deus. Devemos vir a Ele com reverência e divino temor. Devemos ter o mais alto respeito pelo que Ele tem feito por nós. Nosso arrependimento deve ser sincero. Nossa fé deve ser viva. Somente dessa maneira estaremos sendo agradáveis a Deus quando Ele voltar.

Há ainda uma outra passagem da Bíblia que confirma essa mesma verdade. “Porque, se vivermos deliberadamente em pecado, depois de termos recebido o pleno conhecimento da verdade, já não resta sacrifício pelos pecados; pelo contrário, certa expectação horrível de juízo e fogo vingador prestes a consumir os adversários. Sem misericórdia morre pelo depoimento de duas ou três testemunhas quem tiver rejeitado a lei de Moisés. De quanto mais severo castigo julgais vós será considerado digno aquele que calcou aos pés o Filho de Deus, e profanou o sangue da aliança com o qual foi santificado, e ultrajou o Espírito da graça? Ora, nós conhecemos aquele que disse: A mim pertence a vingança; eu retribuirei. E outra vez: O Senhor julgará o Seu povo. Horrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo” (Hb 10:26-31).

Essa passagem está claramente falando sobre os cristãos. Somente eles podem ser qualificados como “nós”, os que já têm “recebido o pleno conhecimento da verdade”, e ser “Seu povo”. Mais uma vez estamos falando do “fogo vingador” de Jesus para os não arrependidos, que consumirá aqueles que são desobedientes. A palavra “adversários” não tem que ser “inimigos” ou descrentes, mas aqueles que têm “se colocado contra ou em oposição” a Jesus.

O “pecado deliberado”, sobre o qual lemos aqui, não é aquele que ocasionalmente cometemos sabendo que é errado. A verdade é que todos os crentes fazem isso de vez em quando. “Deliberado” é quando o indivíduo persiste no erro mesmo sabendo que é pecado. Ele continua em rebeldia, resistindo ao convencimento do Espírito Santo, por um longo período de tempo.

Essa rebelião obstinada parece produzir uma dureza de coração que, ao longo do tempo, se torna impossível, mesmo para um crente, de haver arrependimento com sinceridade.


UM EXEMPLO MODERNO



Tivemos uma experiência recente com uma pessoa em uma situação similar. Um homem que conhecemos cometeu adultério com a esposa de um outro homem, uma irmã da igreja. Quando fomos falar com o irmão, nós o exortamos para que se arrependesse – não um simples e rápido “desculpe-me”, mas deveria ter um sentimento de culpa e de auto-abominação.

Sugerimos que suas ações – assim como outras situações similares – poderiam destruir o casamento da outra mulher; precipitar um divórcio; deixar crianças sem um de seus pais e, talvez, sem suporte financeiro; além de causar um grande número de consequências permanentes, cruéis e devastadoras. Como ondas em uma lagoa quando se atira uma pedra, assim é todo e qualquer pecado. Ele traz consequências que impactam muitas outras vidas ao nosso redor.

Ao longo de nossa conversa, descobrimos que a vida daquele homem tinha uma longa história de adultério e pecados sexuais. Era algo que o dominava por um número significativo de anos.

Parecia que nunca tinha sido capaz de chegar a um profundo e real arrependimento, o que impedia Deus de limpá-lo. Então, sugerimos que era isso que ele precisava – chegar a ponto de abominar-se a si mesmo e seus feitos, arrependendo-se verdadeiramente.

Sua resposta para nós foi algo mais ou menos assim: “Eu já estou restaurado”. “Eu já voltei para Deus.” “Eu não preciso de nada do que vocês estão sugerindo”. “Eu rejeito essa idéia”. Infelizmente, não tivemos escolha, a não ser deixá-lo com sua rejeição. Ele rejeitou um arrependimento de coração rasgado e alma sedenta. É completamente possível que, sem tal arrependimento, aquele pecado continue a operar na vida dele e a atingir a vida de outros também. A última notícia que ouvi a seu respeito é de que está pastoreando uma igreja em uma cidade próxima.

João ensina que “(...) há pecado para morte” (1 Jo 5:16). Isso não é uma referência à morte física apenas, mas pode, também, referir-se à destruição final da alma pecaminosa. Parece que há um limite que, se ultrapassado por um cristão, ele não conseguirá mais voltar para se arrepender.

João explica que não devemos orar por essas pessoas. Nossas orações não teriam utilidade. Seu destino está selado. Ao passo que, quando oramos por outros cristãos envolvidos em pecado, o resultado será a “vida” de Deus crescendo dentro deles. Neste caso, porém, vemos que a oração por uma pessoa teimosamente não arrependida não surtiria efeito positivo algum.

A verdade é que é quase impossível sabermos quando alguém já foi longe demais. Não existe nenhum ponto humanamente definido para estarmos certos de que alguém não vai mais conseguir se arrepender. Somente Deus conhece nossos corações. Ele sabe onde fica esse limite.

Então, queridos irmãos e irmãs, fiquemos longe desta linha. Não vamos deixar nossa fé oscilar. Vamos manter um relacionamento de fé viva com nosso Criador e sempre permitir que Ele nos leve a um arrependimento profundo.


NÃO SE PODE SER REALMENTE SANTO



Há ainda uma outra inverdade, muito comum em nossos dias, de que cristãos não conseguem ser santos. Parece que muitas pessoas – se não a maioria dos crentes – pensam que podemos deixar alguns de nossos pecados mais grosseiros, mas que ter, de fato, uma santidade real e visível não é possível.

Parecem crer que podem melhorar um pouco nesta vida, mas alguém ser genuinamente santo é como encontrar uma agulha num palheiro. Associado a essa crença, há um pensamento de que Deus não Se importa muito com isso. Ele não se importa se somos completamente santos ou não. Elas crêem que Deus até gostaria de ver santidade em nós, mas Ele entende que isso é quase “impossível”.

Essa mentira tem feito com que cristãos nunca atinjam o alvo. Eles nunca esperam ser verdadeiramente purificados do pecado. Nunca esperam ser mudados de forma dramática e, por isso, ficam simplesmente acomodados, com suas vidas de imperfeição e pecado.

No entanto, Deus admoesta-nos em Sua palavra a sermos santos: “(...) segundo é santo aquele que vos chamou, tornai-vos santos também vós mesmos em todo o vosso procedimento, porque escrito está: Sede santos, porque eu sou santo” (1 Pe 1:15,16). Também aprendemos: “Persegui (...) a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor” (Hb 12:14). 2 Coríntios 7:1 admoesta-nos a estarmos: “(...) aperfeiçoando a nossa santidade no temor de Deus”. Esses são somente alguns dos vários versículos na Bíblia exortando-nos à retidão e santidade.

Essa santidade para a qual nosso Mestre tem nos chamado não é algo que existe somente na mente de Deus. Não é algo apenas teórico, mental ou doutrinário. Não é meramente “posicional”. É um tipo de santidade que é real, tangível e vivida por nós. É uma pureza que os outros notam. É uma retidão que é visível para aqueles que convivem e têm um relacionamento conosco.

Essa vida sobrenatural, essa retidão genuína, não é algo que possamos produzir. Não é resultado de esforço humano. Não é adquirida através da força de vontade, determinação ou dedicação.

O padrão de justiça requerido vai muito além do que qualquer ser humano possa alcançar. Pelo contrário, é o resultado de uma outra vida. É alcançado por Alguém verdadeiramente reto vivendo dentro de nós e manifestando-Se a Si mesmo através de nós.

Como temos visto, o plano de Deus é nos dar Sua própria vida. Depois, Sua vida crescerá dentro de nós. À medida que cresce, ela se expressa de forma cada vez mais clara. Sua própria natureza, que é supremamente santa, começará a ser vista em nós. Assim, começamos a exibir uma justiça genuína e visível. Passaremos a, de fato, pensar, dizer e fazer coisas santas.

Entretanto, essa retidão não é algo que “nós” fazemos. Ela não vem de nós (Ef 2:8). É algo que vem de Deus. É o resultado de Sua vida movendo-se, pensando e sentindo dentro de nós. Este é Seu plano.

Insistir que não podemos ser perfeitos é insistir que a obra da salvação de Jesus também foi imperfeita. É dizer que ela foi incompleta. Pensando desta forma, afirmamos que, embora possamos talvez ser transformados um pouco, a obra de Deus na cruz não possui a força e a potência suficientes para completar o trabalho em nossas vidas. É óbvio que isso não pode ser verdade. Ele disse claramente: “Está consumado!” (Jo 19:30).

Além disso, pensar que não podemos ser perfeitos é declarar que a vida de Jesus não é perfeita, pois é a Sua vida, na verdade, que deve Se manifestar por meio de nós. Se a exigência fosse de operarmos algum tipo de justiça própria, é evidente que nunca poderíamos ser perfeitos.

Todavia, como é a vida do próprio Deus que vive em nós, certamente podemos refletir Sua natureza de todas as formas. Nossa velha vida foi completamente crucificada com Ele e Sua nova vida está cem por cento disponível para nós.

O caminho para obter essa vida elevada é o arrependimento. Todos nós precisamos experimentar um constante e profundo arrependimento para a vida. Quanto mais Deus nos capacita a nos arrepender, mais experimentamos Sua morte e ressurreição. Quanto mais Sua vida cresce dentro de nós e começa a predominar em nosso interior, mais temos o privilégio de desfrutar da verdadeira santidade.

Nunca devemos olhar para o comportamento daqueles que estão à nossa volta e justificar nossos pecados pela falta de santidade deles. Devemos apenas olhar atentamente para a face de Jesus Cristo, permitindo que nos transforme naquilo que Ele é. Esse é a verdadeira salvação.


TRANSFORMAÇÃO INSTANTÂNEA



Outro erro comum encontrado na Igreja contemporânea é o pensamento de que nossa presente condição não é tão importante porque seremos transformados subitamente mais tarde. Muitas pessoas crêem que, quando Jesus retornar, todos seremos transformados naquele momento. Talvez Ele nos toque com uma varinha mágica e “puf”! Seremos imediatamente santos e justos.

Então, (muitos pensam) por que haveria necessidade de sermos santos, hoje? Parece ser tão “difícil”. Que diferença faz se ainda somos um “tanto quanto” pecaminosos? Se nos permitimos um pouco de prazer sensual? Se cometemos algum erro, de vez em quando? Se nos permitimos fazer coisas que sabemos que são erradas? Se todos nós vamos ser transformados sem custo, mais tarde, que diferença faz se somos completamente santos ou não, hoje?

Esse erro parece estar grandemente baseado no seguinte versículo: “Eis que vos digo um mistério: nem todos dormiremos, mas transformados seremos todos, num momento, num abrir e fechar de olhos, ao ressoar da última trombeta. A trombeta soará, os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados” (1 Co 15:51,52). Com certeza, esse é um versículo verdadeiro. Isso certamente acontecerá.

Contudo, precisamos notar seu contexto. Essa passagem está falando sobre a glorificação do nosso corpo. Não se dirige à questão da alma. Nosso corpo será instantaneamente transformado.

No entanto, a respeito do nosso interior, nossa alma, a Bíblia sempre fala que se trata de um processo e não de um evento. É algo que precisamos “desenvolver” com temor e tremor, cooperando com Deus (Fp 2:12). Isso é algo que leva tempo. Não há, na Palavra de Deus, a noção de que a transformação da alma seja um evento instantâneo. No decorrer do Novo Testamento, somos constrangidos a continuar, a obter, a carregar a cruz, a negarmos a nós mesmos e a sermos santos aqui e agora.

A vida de Deus deve crescer e amadurecer em nós. Esse processo requer tempo e disposição. Nenhuma vida amadurece de repente. Apenas um cogumelo, um inconsequente fungo esponjoso, brota da noite para o dia. Somente através do nosso contínuo e profundo arrependimento poderemos ser cheios da vida de Deus e ser livres de toda vergonha para nos encontrar com Ele quando vier.

Se a verdadeira santidade é um resultado da vida de Deus crescendo dentro de nós, como seria possível essa vida crescer instantaneamente?

Depois de: resistirmos à transformação por muitos anos; não termos nenhuma vontade de entregar nossa própria vida à morte; nos recusarmos teimosamente ceder às palavras de Jesus; como podemos imaginar que, na vinda de Cristo, Ele nos dominará e nos transformará de imediato? Com certeza, isso não passa de uma tolice e um pensamento que criamos para nos auto-satisfazer. É um equívoco a respeito de como funciona o processo da transformação.


EQUÍVOCOS ACERCA DO PERDÃO



O perdão é algo maravilhoso. Todos nós precisamos dele. Somos abençoados pelo fato de que Deus é um Deus de compaixão e perdão. Sem o perdão que Jesus providenciou para nós, estaríamos completamente perdidos. O poder do perdão pelo sangue de Jesus tem, de fato, um valor inestimável.

Mesmo isso sendo verdade, muitos crentes interpretam o perdão erroneamente. Eles supõem que a missão de Jesus, ao vir à terra e morrer pelos nossos pecados, foi meramente para nos perdoar. Talvez imaginem que a nova Criação que está por vir estará cheia de pecadores que ainda vão estar pecando e precisando ser perdoados todos os dias. Talvez pensem que vão continuar pecando eternamente e que Deus vai continuar perdoando-os para todo o sempre.

A verdade é que qualquer um que peca não poderá entrar no futuro novo mundo. Eles serão completamente excluídos. Se entrassem, poderiam pecar. Na verdade, seria inevitável. Mais cedo ou mais tarde eles pecariam e esse pecado destruiria a nova Criação de Deus. Por essa razão, não terão permissão para entrar.

Vejamos o exemplo de Adão e Eva. Quantos pecados foram necessários para destruir a presente Criação de Deus? Somente um, mas esse pecado talvez não pareça tão mal aos nossos olhos. Eva não matou ninguém. Não cometeu pecado sexual, como muitos pensam. Ela não roubou ninguém. Pelo contrário, seu pecado foi uma simples desobediência.

Mesmo que esse pecado pareça relativamente “pequeno”, foi o suficiente para devastar a terra recém criada por Deus. Tudo deu errado. A morte teve seu início. Uma infinita variedade de pecados começou a crescer no coração do homem e a se manifestar. O assassinato veio logo em seguida. Guerra, estupro, roubo, sequestro, ódio, briga e todo tipo de maldade que enche nosso mundo atual vieram daquele “pequeno” incidente.

Até mesmo o curso da natureza foi mudado. A terra começou a produzir erva daninha. Animais começaram a matar e comer uns aos outros. Grandes quantidades de insetos começaram a atormentar homens e animais. Doenças passaram a existir. Fome e pragas têm ocorrido. Perversidades de todo tipo surgiram.

Portanto, é fácil concluir que nenhum pecador entrará na nova Criação. Eles, simplesmente, não têm permissão para entrar. Se tivessem, logo pecariam e demoliriam a nova Criação, como nossos primeiros pais ruíram a atual.

Por causa disso, antes da nova Criação começar, o problema do pecado em nossas vidas precisa ser resolvido. Alguma coisa precisa acontecer. Precisamos ser mudados até que não pequemos mais. Precisamos ser transformados à imagem de um Cristo Santo.

A grande bênção é que nosso amado Deus tem um plano. Ele nos oferece uma provisão completa, a fim de que possamos ser absolutamente transformados. Seu plano é chamado: “arrependimento para a vida”.

Está escrito: “Se confessarmos os nossos pecados, Ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1 Jo 1:9). Esse versículo mostra-nos que Deus fará duas coisas. Quando nos arrependemos, isto é, nos “confessamos”, Ele certamente nos perdoará. E ainda fará algo mais. Ele nos “limpará”.

A palavra “limpar” não é o sinônimo de perdoar. Significa que Ele opera em nós para nos limpar de uma forma que não venhamos a pecar mais. O pecado, que nos contaminava, será limpo de nossas vidas. Deus trabalha junto conosco para crucificar nossa vida e natureza pecaminosa e as trocar por Sua própria vida e natureza santa. Esse é exatamente o Seu plano para todo o que crer.

Como você vê, perdão não é o alvo do propósito de Deus. Não é o fim. Não é Sua intenção final. Pelo contrário, é o meio pelo qual se atinge o fim. Esse “fim” é a completa transformação da nossa alma. Ele nos perdoa para que possa começar um relacionamento conosco. Seu perdão, baseado no sangue de Deus, permite que Sua santidade interaja conosco.

Essa interação, no entanto, não é somente ignorar nosso pecado. Existe um propósito muito mais elevado. Essa interação é para nos mudar, para purificar nossas vidas completamente, a fim de que não pequemos mais. É para nos fazer parecidos com Ele. É para nos preparar para Seu surgimento.

Louvado seja Deus! Ele prometeu purificar-nos de todo pecado!

O perdão, que está abundantemente disponível a qualquer pessoa, é que abre o caminho para entrarmos em Deus. Podemos compará-lo a uma espécie de passe, ou bilhete, que usamos para entrar em um show ou evento esportivo. Através do perdão de Deus temos acesso à Sua vida que opera a salvação. O perdão é a avenida pela qual entramos em tudo o que Jesus tem para nós. Que possamos não abusar desse perdão, mas usá-lo para obter tudo o que Ele tornou disponível a nós.







4.



O JULGAMENTO VINDOURO






Todos os crentes algum dia ficarão diante da presença não diluída de Deus. “(...) Pois todos compareceremos perante o tribunal de Deus” (Rm 14:10). Lá, o que somos e o que temos feito serão testados pela intensa e ardente presença de quem Ele é. Todos nós passaremos por esse divino fogo.

Está claro que não somente nossas atitudes, palavras e feitos serão analisados pelo fogo santo, como também nós mesmos seremos provados por ele. As Escrituras nos ensinam: “(...) manifesta se tornará a obra de cada um; pois o Dia a demonstrará, porque está sendo revelada pelo fogo; e qual seja a obra de cada um o próprio fogo o provará. Se permanecer a obra de alguém que sobre o fundamento edificou, esse receberá galardão; se a obra de alguém se queimar, sofrerá ele dano; mas esse mesmo será salvo, todavia, como que através do fogo” (1 Co 3:13-15).

A maioria dos crentes já sabe que suas obras serão testadas deste jeito, mas parece que muitos ainda pensam: “Eu posso perder alguns galardões, mas e daí? Que diferença fará, para mim, se algumas das minhas obras se queimarem?” O que ainda não conseguem ver é que eles também serão completamente provados pelo mesmo fogo! Eles podem ser “salvos”, mas aparecerão sem proteção ou desculpas, na intensa e ardente presença do Deus Todo-poderoso.

Para alguns será uma experiência maravilhosa. Eles verão, face a face, Aquele que transformou e limpou suas vidas. Eles se regozijarão com uma alegria que vai além de palavras humanas.

Para outros, porém, a experiência será terrível. Sofrerão vergonha e dano. Seus pecados não confessados serão expostos e sua natureza pecaminosa será totalmente consumida pelo Fogo Eterno. Quando estivermos diante de Deus, as “partes” não santas, impuras, de nossa alma serão destruídas. As porções não transformadas de nosso ser serão consumidas.

Essas áreas pecaminosas de nossa alma não entrarão na nova Criação, porque serão destruídas ou “perdidas” na vinda de Jesus. Este é um importante fato bíblico que muitos crentes não conhecem, apesar de ser crucial entendê-lo.

Como podemos ter certeza de tudo isso? Para começar, devemos nos lembrar do começo de nossa discussão a respeito da inimaginável essência concentrada de Deus. Em Sua presença direta, a santidade, pureza, honestidade, amor – em suma, toda Sua natureza divina – se manifestarão sem diluição.

Tudo que for como Ele passará no teste. Qualquer coisa diferente será consumida pelo “fogo”. Nenhuma “parte” que pratique o pecado, nenhuma “parte” egoísta, nenhuma “parte” que aprove a injustiça ou qualquer coisa semelhante poderá subsistir. Somente aquilo que é da mesma natureza de Deus passará no teste.

Se lhe dissesse que eu poderia colocar um pedaço de jornal dentro do fogo intenso e ele não se queimaria, você não acreditaria. De igual modo, nenhum homem “natural” será capaz de permanecer na presença de Deus porque será consumido.

Naquele momento, será tarde demais para pedir perdão. Naquele dia, nem mesmo o arrependimento funcionará. Simplesmente, não haverá tempo suficiente, ou oportunidade para que o processo de transformação aconteça. Não haverá mais tempo para que a vida de Deus cresça. Nenhuma quantidade de perdão, naquele momento, poderá proteger nossa alma não-transformada da intensidade de Deus.


O EXEMPLO DE MOISÉS



Moisés amava a Deus. Por isso, estava curioso para vê-Lo e, um dia, fez um pedido. Disse: “Rogo-te que me mostres a Tua glória” (Êx 33:18). No entanto, Deus teve de explicar algo para ele. O que estava pedindo era absolutamente impossível. Moisés não podia ver Sua face. Ele era incapaz de permanecer em Sua presença direta. Por que será? Deus explicou dizendo: “(...) porquanto homem nenhum verá a minha face e viverá” (Êx 33:20).

Agora, como seria isso? E se alguém, acidentalmente, visse a Deus, Ele o mataria? Seria uma punição por espreitar algo proibido? Não, essa é a consequência natural da santa presença de Deus. Nada meramente humano poderia resisti-la. Então, no final das contas, Deus acabou revelando “Suas costas” a Moisés, mas não Sua face.

O homem natural, com sua natureza pecaminosa, não conseguirá permanecer na presença de um Deus santo. Qualquer coisa em nós que não corresponder com a natureza divina será queimada. “Porque o nosso Deus é fogo consumidor” (Hb 12:29). Este é o único resultado possível do encontro de qualquer homem ou mulher com Ele. Qualquer coisa remanescente da vida natural será consumida.

Este será o cumprimento da segura promessa de Jesus. Ele ensinou: “Porquanto, quem quiser salvar a sua vida [alma, PSUCHÊ] perdê-la-á (Mt 16:25; Mc 8:35; Lc 9:24, 17:33; Jo 12:25). Qualquer coisa de nossa velha vida, nossa alma, que não se render à crucificação hoje, será “perdida” amanhã, quando Jesus voltar. Este não é um ensino obscuro, pelo contrário, é bem claro.

Essa verdade era tão importante para os autores dos Evangelhos que ela é mencionada cinco vezes por eles. Qualquer um que se recuse a entregar sua velha vida e natureza à morte através da cruz de Cristo, certamente perdê-la-á, sem recurso, no dia em que Jesus voltar.

Não há outra possibilidade. Temos absoluta certeza de que nenhuma coisa pecaminosa adentrará a nova Criação. Também sabemos que o pecado não permanecerá na presença de Deus. Entendemos, também, que um crescimento ou transformação espiritual instantâneo não é possível. Então, a única opção é que nossa velha “vida da alma”, nosso “eu” será perdido no tribunal, exatamente como Jesus nos prometeu. Qualquer “parte” não transformada de nossa alma se queimará.

Agora é tempo de preparação para este evento. Nosso Criador não quer que pereçamos. Ele providenciou salvação para nós – Sua vida eterna. Essa vida eterna e indestrutível pode substituir a nossa. Podemos morrer e Ele pode viver em nosso lugar. Hoje, podemos ser crucificados com Ele, e com Ele também, ressuscitar e viver em novidade de vida.

Desta forma, seremos à prova de fogo. Nós nos tornaremos um tipo de criatura que pode sobreviver na presença de Deus. Seremos como Ele é, pelo poder salvador de Sua vida, que Ele mesmo nos deu. Assim, estaremos preparados para encontrá-Lo face a face.

Parece que muitos crentes, como Moisés, se contentam em somente olhar para as “costas” de Deus. Quando Moisés olhou para o Senhor, viu Sua misericórdia, Sua graça, longanimidade, grande bondade e verdade (Êx 34:6). Esses aspectos de Deus são, de fato, maravilhosos. São preciosas virtudes que todos nós precisamos ver e compreender.

No entanto, há mais em Deus do que isso. Embora possamos nos deleitar no que vemos em Suas “costas”, um dia veremos Sua face. Quando isso acontecer, contemplaremos Sua extrema santidade, Sua ardente e consumidora retidão, Sua indissolúvel e resplandecente justiça e muito mais.

Todos os cristãos precisam conhecer a Deus intimamente, não apenas os aspectos mais “agradáveis” em Suas “costas” – como misericórdia e perdão – mas também conhecê-Lo face a face. Através do arrependimento e do perdão, devemos entrar em intimidade com Ele.

Devemos olhar para Sua face gloriosa, para sermos transformados à Sua imagem (2 Co 3:18). Todos os nossos pecados são expostos e eliminados somente quando nos aproximamos Dele. Quando temos intimidade com o Senhor, somos saturados com Sua vida e Sua essência. Apenas esses crentes íntimos estarão confortáveis na presença do Fogo Eterno e não sofrerão dano em Sua vinda.


PROVADOS PELO FOGO



Os crentes serão realmente provados pelo fogo? Com certeza. Já lemos a respeito daqueles cujas obras serão queimadas, ainda que sejam salvos “como que através do fogo” (2 Co 3:15). Também estudamos o caso daqueles que endurecem seus corações contra Deus e não podem mais se arrepender. Esses são aqueles cujo fim é serem queimados (Hb 6:8).

Além disso, o próprio Jesus nos ensinou que deveríamos cuidar para que mantivéssemos um relacionamento íntimo com Ele. Caso contrário, sofreríamos consequências sérias. Está escrito: “Se alguém não permanecer em mim, será lançado fora, à semelhança do ramo, e secará; e o apanham, lançam no fogo e o queimam” (Jo 15:6).

João, o Batista, também nos advertiu sobre a importância de darmos frutos. Esses frutos são, simplesmente, o resultado de nosso contínuo relacionamento íntimo com Jesus. Contudo, se ignorarmos este privilégio, o resultado será catastrófico. Ele proclama: “Já está posto o machado à raiz das árvores; toda árvore, pois, que não produz bom fruto é cortada e lançada ao fogo” (Mt 3:10).

Embora muitas pessoas tenham tentado usar esses versículos para mostrar que crentes podem perder sua salvação e “ir para o inferno”, aqui nós entendemos uma verdade diferente. É sobre o fogo da intensa presença de Deus que a passagem fala. Sua intensa e ardente presença consumirá tudo o que não for como Ele.


TRANSFORMAÇÃO PARCIAL



Vamos supor que sejamos apenas parcialmente transformados. Vamos imaginar que alguém não tenha se rendido a Jesus por completo durante seu tempo de vida e, por causa disso, só foi um pouco transformado.

Enquanto a vida de Deus está enchendo algumas partes do ser dessa pessoa, outras áreas estão ainda cheias da vida natural e pecaminosa. Qual será, então, o resultado quando essa pessoa aparecer diante do tribunal? O que acontecerá, neste caso?

A resposta é muito simples. Aquela “parte” de qualquer crente que tenha sido transformada à imagem de Cristo, certamente sobreviverá na presença de Deus. O “fogo” não terá qualquer efeito sobre ela. Ela já se tornou eterna pela operação da vida eterna. Aquela porção, de qualquer crente, no entanto, que ainda permanecer natural e pecaminosa, será consumida pelo fogo de Deus. Não há outra possibilidade. Ela não será transformada instantaneamente. Deus não fará “vista grossa”. Não será, naquele momento, simplesmente perdoada e ignorada. Em vez disso, será queimada pela intensidade da essência de Deus. Essa parte da alma será “perdida”, cumprindo a promessa de Jesus.

Os anos de rebeldia contra a obra transformadora do Espírito Santo terão sua paga. Todo tempo que gastamos resistindo à convicção de pecado em nossa consciência será revelado. Nossa falta de arrependimento e nossa indisposição para morrer para nós mesmos serão vistas claramente quando “perdermos” aquela porção da nossa alma que não foi transformada pelo Espírito Santo.


COMO SERIA ISSO?



Como uma pessoa, que foi parcialmente transformada e, portanto, “perdeu” parte de sua alma ficaria? Veríamos a metade de uma pessoa? Ou alguém sem braços ou pernas? Como alguém pode ser salvo “fracionadamente”? Como isso se manifestaria?

Para começar, devemos nos lembrar de que não estamos falando sobre o corpo de uma pessoa, e sim de sua alma, o que se torna, então, uma questão de crescimento e maturidade espirituais.

Como somos transformados pelo amadurecimento da vida sobrenatural dentro de nós, nosso “grau” de transformação pode estar intimamente ligado ao quanto que essa vida cresceu de fato. No mundo natural, todo tipo de vida cresce e amadurece. É um processo que leva tempo. Os seres humanos, por exemplo, nascem como bebês, crescem para serem crianças, tornam-se adolescentes, jovens, adultos e, por fim, indivíduos completamente maduros. Na Bíblia, temos evidência de que a vida espiritual também tem esses estágios. Esse processo demora muitos anos.

Em 1 João 2:12-14, João escreve sobre três graus de maturidade: “filhinhos”, “jovens” e “pais”. Também há muitos outros lugares, no Novo Testamento, onde diferentes autores referem-se a “bebês em Cristo”, problemas de imaturidade, crescimento espiritual, a necessidade de maturidade, etc. Não há, pois, nenhuma dúvida de que o processo de maturidade espiritual é paralelo ao do mundo natural.

Parece, portanto, muito lógico imaginar que, se esse processo de crescimento for interrompido ou incompleto, o indivíduo não estará completamente maduro. Permanece no estágio de maturidade onde seu processo foi interrompido. Possui apenas o grau de maturidade que conseguiu atingir. Consequentemente, quando o homem natural for consumido, o que sobrará será a “parte”, ou aspecto transformado de sua alma. Por exemplo, um crente bebê na fé seria um bebê, um crente jovem seria jovem, e um crente maduro se mostraria maduro.

O estágio ou grau de crescimento espiritual que ele tiver atingido será sua condição eterna. Qualquer “grau” de maturidade que aquela pessoa tiver obtido será a “idade” dela para sempre. O restante será queimado e perdido. Espero que tenha ficado perfeitamente claro. Na “eternidade”, os crentes surgirão em diferentes estágios de desenvolvimento espiritual.

Isso não tem nada a ver com a idade deles na terra. Seu físico, sua maturidade terrena não será um fator determinante. O que terá importância, neste caso, será o quanto cooperaram com Deus, de forma que Sua vida pôde amadurecer dentro deles. Será o desenvolvimento de nossa vida espiritual que se traduzirá em nossa condição eterna.

Provavelmente, então, na eternidade encontraremos crentes bebês, crentes jovens e crentes maduros. A aparência deles estará ligada ao quanto progrediram na vida espiritual. Ninguém será igual. Cada um receberá seu “galardão” baseado no crescimento da vida de Deus em si.

A maturidade espiritual de cada um será, de fato, a totalidade ou, no mínimo, a maior parte de nosso galardão; porque, assim como nesta vida terrena, nossa maturidade nos habilitará para gozar as coisas mais completamente. Crianças podem ser alegres, mas há muitas coisas que elas não podem fazer. Pessoas jovens também são limitadas em sua capacidade de apreciar ou saborear muitas experiências. Assim também, no futuro, nossa maturidade determinará a profundidade do que gozaremos em Deus e tudo que Ele vai criar.

Meu palpite é que cada um receberá um novo corpo glorificado, que refletirá seu grau de maturidade. É possível que, à medida que crescermos espiritualmente, esses novos corpos estejam “crescendo” também, demonstrando um maior grau de maturidade. Esses corpos estão sendo preparados para habitarmos neles no futuro. Jesus está, agora, preparando este “lugar” para nós (Jo 14:2).

Juntando parte de dois versículos que estão em 1 Coríntios 15: 41 e 42, lemos: “(...) porque até entre estrela e estrela há diferenças de esplendor. Pois assim também é a ressurreição dos mortos.” Por favor, lembre-se de que o texto original em grego não estava dividido em versículos, nem as frases por pontuação.

Haverá, com certeza, uma diferença entre os crentes na eternidade vindoura. Assim como o brilho de cada estrela é diferente das demais, os crentes exibirão um grau diferente de glória dependendo da sua maturidade.

Naturalmente, isso tudo é um mistério. Só conseguimos ver essas coisas de uma forma imperfeita, enquanto estamos nesta terra. No entanto, temos ampla evidência nas Escrituras que mostra que as partes não transformadas da alma se perderão. É lógico. O que permanecerá será aquilo que tem sido saturado com a vida e a natureza do Deus eterno.


MAS DEUS É AMOR



Alguns podem relutar contra o fato de que a parte não transformada da alma dos crentes será destruída na presença de Deus, ou “perdida”. Podem insistir que, como Deus é cheio de amor, misericórdia, compaixão, perdão e longanimidade, Ele não pode julgar nenhum de Seus filhos sequer tão severamente.

É verdade que Deus é cheio desses atributos maravilhosos. Quando Ele aparecer, essas virtudes também se manifestarão completa e intensamente. Por exemplo, a atmosfera ao redor Dele estará impregnada de um amor incrível. Todavia, à luz desse amor, toda nossa falta de amor será exposta. O amor que temos por nós mesmos será visto com a máxima clareza. As muitas vezes em que não agimos em amor com nosso próximo serão dolorosamente expostas. Não será resultado da falta de amor da parte de Deus que fará isso acontecer, e sim da grandeza do amor que define Sua natureza. Sofreremos um impacto inevitável naquele momento.

Da mesma forma, as vezes que não tivemos misericórdia dos outros, os momentos em que não exercemos compaixão, as situações em que negamos perdão aos outros e nossa falta de longanimidade serão expostos pelo que Ele é. O que Ele é revelará, com alarmante clareza, tudo que somos. Se não temos sido transformados por Sua vida para sermos como Ele, sofreremos dano.

Além disso, o fato de que Ele nos ofereceu gratuitamente, a um preço tão alto, a oportunidade de mudarmos e sermos cheios de Sua natureza no lugar da nossa, vai ser ressaltado como nunca. Se sofrermos danos quando Jesus voltar, não será por causa de Sua falta de amor ou porque Ele não demonstrou Seu amor por nós, mas por causa de nossa própria negligência e desobediência. Será porque não usufruímos de Seu amor. Não teremos nenhuma desculpa ou argumento. O universo verá e concordará que Seu julgamento sobre nós será justo.

É verdade que Deus é bom. Ele não está nos julgando hoje. Ele está interagindo conosco baseado em Sua bondade, amor e graça. Nesta era da Igreja, Ele guardou Seu julgamento enquanto nos dá todas as chances para usar nosso tempo e sermos transformados à Sua imagem.

Contudo, não podemos interpretar Sua bondade e graça de forma errada. Não podemos imaginar que isso significa que o julgamento nunca acontecerá. Este intervalo, este tempo de bênção, deve ser uma oportunidade para nos prepararmos para o que está por vir.

Em vez de relaxar e usar esta presente ausência de julgamento para satisfazer nossa carne, devemos usar este pequeno período de tempo para obter o máximo de transformação através de um constante e profundo arrependimento.

Paulo admoesta-nos, dizendo: “Ou desprezas a riqueza da sua bondade, e tolerância, e longanimidade, ignorando que a bondade de Deus é que te conduz ao arrependimento?” (Rm 2:4). Em vez de pensarmos que a bondade de Deus vai nos desculpar no futuro julgamento, precisamos entender que é essa bondade que nos leva ao arrependimento para nos salvar do julgamento.

Quando chegar o tempo do julgamento, o perdão não será mais uma opção. O tempo da graça terá terminado. A oportunidade arrependimento e de transformação terá se acabado. Que Deus tenha misericórdia de nós para que estejamos preparados para recebê-Lo com alegria e de braços abertos.


A SEGUNDA VINDA



Jesus Cristo virá mais uma vez. Ele voltará em Sua glória, algum dia em breve, para destruir o reino do futuro homem do pecado e estabelecer Seu reino aqui na terra. Da mesma maneira que subiu, Ele descerá, outra vez, para nos receber (At 1:11). Este será o momento em que Ele irá julgar Seu povo. Apareceremos diante de Seu tribunal (Rm 14:10). Esta será a hora em que a nossa condição espiritual será exposta – seja ela boa ou má.

Os primeiros cristãos pensavam que a volta de Cristo seria dentro de poucos anos. Eles criam que Ele retornaria a qualquer minuto.

Portanto, muitos viviam como se Ele fosse chegar a qualquer momento. A maioria não se envolvia com o pecado. Eles estavam sempre buscando agradá-Lo. Mantinham-se separados do mundo e de outras distrações. Cooperavam com a obra de transformação do Espírito Santo. Em suma, viviam na expectativa do retorno e julgamento de Jesus a qualquer momento.

À medida que o tempo foi passando, porém, as coisas mudaram. Logo, ficou claro que Seu retorno não era tão iminente como se acreditava no começo. Então, seguindo a tendência natural da raça humana, aquela urgência e expectativa definharam no coração de alguns. Começaram a viver suas vidas como antes. O pecado tornou-se mais evidente nas primeiras igrejas. As tendências humanas de egocentrismo e mundanismo começaram a se manifestar cada vez mais. Essas mesmas inclinações estão bem evidentes nas igrejas atuais, também.

Hoje, há muitos cristãos, por exemplo, que talvez cantem “Vem, Senhor Jesus”, durante um tempo de adoração. Entretanto, quantos de nós, de fato, querem que Ele volte imediatamente, neste exato minuto? Ou será que temos outras prioridades em nossas vidas?

Talvez gostaríamos de nos casar, primeiro. Talvez estejamos economizando dinheiro, ansiosos para comprar algo que queremos, como uma casa ou um carro. É possível que haja alguns eventos no futuro dos quais gostaríamos de “curtir”, primeiro. Essas coisas que atraem nossos corações são a evidência de que não estamos onde deveríamos estar com relação a Ele.

Outra coisa que nos impediria de desejar a Sua volta é nosso envolvimento com algum pecado. Poderia ser algo que sabemos que estamos fazendo de errado. Percebemos que aquilo entristece o Senhor, mas, de alguma forma, nosso anseio carnal por aquele pecado nos impede de nos arrepender e parar de vez com ele. Nossa consciência incomoda, mas a ignoramos e endurecemos nosso coração mais um pouco. Claro que qualquer um nessa condição não estaria ansioso pela volta do Senhor, hoje.

Isso me lembra uma experiência que tivemos muitos anos atrás, em algumas reuniões que fazíamos em casa. De vez em quando, a presença de Deus se manifestava de uma forma poderosa e gloriosa. Então, pensava: “Na semana que vem, este lugar estará cheio de gente. Essa reunião foi tão fantástica, que todos vão querer voltar para a próxima”. Mas, em vez disso, na semana seguinte, quase ninguém vinha. Era necessário duas ou três semanas para que todos voltassem, de novo. Esta experiência aconteceu mais do que uma vez. Achei aquilo muito estranho.

Enquanto meditava sobre aquele fenômeno, percebi o seguinte: muitos cristãos não se sentem muito confortáveis na presença de Deus. Gostam de ficar ali um pouco, mas realmente não estão em paz com Ele o suficiente para viver em Sua presença todo o tempo. Gostam de receber uma pequena “dose” de Deus, de vez em quando – tocar na orla de Suas vestes – mas sua consciência perturbada e sua falta de arrependimento não permitirão que fiquem em Sua presença por muito tempo. Eles não vivem no Espírito.

Outra situação veio à mente. Há muitos anos, quando era um jovem crente e solteiro, morava em uma casa com vários jovens cristãos. Um dia, um irmão, que tinha fama de buscar experiências realmente “espirituais”, pediu-me para orar com ele.

Estávamos na sala de estar e começamos a buscar a face de Deus... E nós O encontramos! Começamos a sentir Sua presença cada vez mais forte. Juntos começamos a adentrar lugares celestiais em Cristo (Ef 2:6). A sensação da presença de Jesus parecia cada vez mais real. A glória do Senhor brilhava ao nosso redor. Parecia que Ele logo apareceria fisicamente para nós.

De repente, para minha total surpresa, o irmão gritou: “Pare, pare!”. Aquele era seu limite. Ele não queria mais aquela presença. Não se sentia confortável com tanto do Senhor de uma vez só. E Jesus parou. A experiência rapidamente se dissipou. Deus respeitou seus limites naquele momento. Do mesmo modo, hoje, Jesus nunca ultrapassará à força as barreiras que existem entre nós e Ele.


TODOS NÓS ESTAREMOS DIANTE DELE



Contudo, um dia estaremos diante Dele. Não haverá nenhuma “parada” naquele dia. Estaremos diante de Sua ardente presença, não diluída e intensa. Não haverá lugar para se esconder. Quem não estiver pronto, não terá como escapar. Tudo o que estiver em nossos corações será exposto.

E você? Como está vivendo hoje? Você está vivendo no temor do Senhor? Você seria envergonhado se Ele surgisse agora? Ele ficaria satisfeito ao encontrá-lo fazendo o que está fazendo e vivendo da maneira que está vivendo?

Você está usando seu tempo sabiamente para se preparar e preparar outros para a vinda Dele? Tem-se arrependido cada vez mais, a fim de ser transformado à Sua semelhança? Você é alguém que verdadeiramente ama a Sua vinda (2 Tm 4:8)?

Se a resposta for positiva, você O ouvirá dizendo: “Muito bem, servo bom e fiel; (...) entra no gozo do teu Senhor” (Mt 25:23). Caso contrário, você será envergonhado e sofrerá danos irrecuperáveis em Sua presença e diante de todo universo. “Nós, porém, não somos dos que retrocedem para a perdição [isso não significa “inferno”, e sim a perda da alma na presença do Senhor]; somos, entretanto, da fé, para a conservação [transformação] da alma.” (Hb 10:29).