A Grain of Wheat Ministries

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AUTORIDADE ESPIRITUAL


GENUÍNA













ÍNDICE










“Jesus, aproximando-se, falou-lhes, dizendo:

toda a autoridade me foi dada no céu e na terra” (Mt 28:18).



__________



“Eles estabeleceram reis, mas não da minha parte; constituíram príncipes, mas eu não o soube” (Os 8:4).



___________



“Os profetas profetizam mentiras, os sacerdotes governam por sua própria autoridade e o meu povo gosta dessas coisas. Mas o que vocês farão quando tudo isso chegar ao fim?” (Jr 5:31 NVI).







PREFÁCIO






No deserto, os filhos de Israel foram confrontados com um problema. Surgiu, entre eles, uma questão sobre quem deveria estar na liderança. Além de Moisés e Arão, haviam outros homens na congregação que eram bem conhecidos e considerados líderes.

Entre eles estavam Corá, Datã e Abirão, que reuniram outros 250 para desafiar a liderança dos ungidos de Deus. Eles estavam lutando por posições de autoridade e por reconhecimento entre o povo de Deus. Falaremos mais tarde, no capítulo 2, acerca do julgamento de Deus sobre estes rebeldes, mas, aqui, nossa consideração será diferente.

Imediatamente após esse confronto ter sido resolvi- do, nosso Senhor sentiu que era necessário ensinar a Seu povo uma lição sobrenatural. Além disso, Ele sabia que, no futuro, Seus filhos também precisariam ser capazes de reconhecer a autoridade espiritual. Eles iriam necessitar de uma base pela qual poderiam julgar que tipo de autoridade era simplesmente humana e qual era verdadeiramente divina. Já que a autoridade terrena pode ser comovente, com todo o seu charme e possibilidades, talvez nós também possamos nos beneficiar da ilustração sobrenatural de Deus.

O que Deus fez foi isto: Ele instruiu Moisés a tomar um cajado de cada um dos líderes da congregação. Esta vara era um símbolo de liderança e autoridade. Essa coleção de varas, entre as quais estava a de Arão, foi colocada no tabernáculo durante a noite. Pela manhã, algo sobrenatural ocorreu. A vara de Arão tinha mudado de três maneiras. Ela havia brotado, florescido e dado frutos – tudo ao mesmo tempo! Isso é realmente incrível! Você já viu um galho de uma árvore ter botões, flores e frutos simultaneamente?

As outras varas permaneceram como eram – velhas, duras e secas. No entanto, a vara daquele que estava manifestando autoridade divina tornou-se completamente diferente.

Essa ilustração fala conosco até hoje. A autoridade humana e a autoridade verdadeiramente divina têm “sabores” espirituais distintos. Cada uma possui características individuais que podemos identificar.

A autoridade terrena é dura e seca. Ela nos faz exigências, mas não nos supre. É exercida pela força humana e imposta com medidas terrenas.

Assim como uma vara velha e seca poderia ser usada para bater em um animal desobediente ou golpeá-lo, a autoridade humana, do mesmo modo, controla os outros através do uso do poder, coerção, exigências ou força superior, seja ela física ou psicológica.

Hoje, por exemplo, entre os grupos cristãos, esse tipo de autoridade está frequentemente escondido atrás da aceitação ou da rejeição do grupo. O líder manipula a opinião do grupo, o que serve como uma vara para disciplinar o desobediente.

A verdadeira autoridade espiritual, por outro lado, tem um sabor inteiramente diferente! Ninguém nunca pensaria em bater em alguém com um galho cheio de flores e frutos. O foco é outro, neste caso.

Para começar, os botões falam de algo novo, macio e fresco, algo que está vivo. Assim, vemos que essa autoridade espiritual está viva, cheia da vida divina. As flores nos falam de algo cheiroso, algo que tenha o doce perfume do caráter de Cristo. E os frutos nos falam de algo nutritivo; não de exigência, mas de satisfação.

Essas são as características da verdadeira liderança e autoridade espiritual. Portanto, aqueles que as estão exercendo exibirão as seguintes qualidades: Estarão cheios da vida de Deus, vivendo em comunhão íntima com Ele; Terão o doce aroma de Cristo, porque tiveram Seu caráter saturando suas vidas, tendo suas habilidades naturais e autoridade quebradas por Suas mãos; E, finalmente, serão uma fonte de alimento e satisfação, em vez de serem fontes de exigência seca, já que eles próprios estarão firmemente ligados à videira celestial.

Aqui, meus irmãos e irmãs, está o verdadeiro teste para toda e qualquer autoridade na Igreja cristã. Quais características esta autoridade demonstra? Que sabor e aroma ela tem? É verdade que estas coisas são discernidas espiritualmente e não podem ser compreendidas pelo homem natural, mas isso não nega o fato delas existirem.

Deus requer submissão à Sua autoridade. Portanto, é necessário que cada um de nós seja capaz de discernir e decidir o que vem verdadeiramente Dele e o que é apenas a vara do homem.

Em cada lugar e em cada grupo há aqueles que afirmam ter a verdadeira autoridade. Que Deus nos dê graça para discernirmos o sabor daquilo que vem genuinamente Dele. Que Deus também use este livro para ajudar o Seu povo em todo este importante empreendimento.







1.



DOIS TIPOS DE AUTORIDADE






Iniciando nossa discussão sobre este tema tão importante, primeiramente precisamos afirmar que Deus é a fonte de toda autoridade. Ele detém o poder supremo. Ele é Aquele que está assentado no trono do universo e quem tem completo controle sobre todas as coisas. Consequentemente, podemos deduzir que qualquer outra autoridade que exista no universo foi estabelecida por Ele ou que, pelo menos, só existe com a Sua permissão. Sem o Seu consentimento, a sobrevivência de qualquer outra autoridade não seria possível.

Portanto, não importa onde encontremos autoridade neste mundo de hoje, seja ela boa ou má, sabemos que é algo que provém legalmente de Deus. Isso é exatamente o que as Escrituras ensinam. Governos humanos, policiais, juízes, pais, etc. são instituições estabelecidas por Deus para inibir as forças do mal neste mundo (Rm 13:1-7).

O tipo de autoridade que governos e outros administradores terrestres possuem é a chamada “autoridade delegada”. Como já vimos, Deus é o detentor da autoridade suprema, mas Ele escolheu “delegar” ou “dar” essa autoridade a outros indivíduos que supostamente agirão como Seus representantes. Uma vez entregue por Deus, a autoridade pertence às pessoas que a recebem. Embora sejam responsáveis perante Deus pelo seu uso, ela lhes pertence e pode ser exercida como quiserem. Na realidade, eles passam a ser a autoridade.

Autoridades delegadas podem exercer corretamente seu poder ou podem fazer mau uso dele. Podem ser bons governantes e decidirem o que é do melhor interesse de Deus e daqueles sobre os quais eles governam, ou podem ser maus e se utilizarem dessa autoridade em benefício próprio e em prejuízo de outros. Independente do modo como a usam, aqueles que estão no poder são autoridades delegadas por Deus.

Contudo, a autoridade delegada não é o único tipo de autoridade revelada na Bíblia. Existe uma outra variação que, embora também se origine em Deus, é bastante diferente. Para esclarecer melhor, creio que este tipo de autoridade pode ser considerado como “autoridade transmitida”.

Essa autoridade não pertence à pessoa que a está exercendo. Não é algo que lhe é “dado” para usar segundo suas próprias inclinações. Em vez disso, ela é exercida quando a pessoa está simplesmente transmitindo a autoridade de Deus.

Nesse caso, os envolvidos são somente canais, instrumentos através dos quais a autoridade Divina flui. Eles não possuem sua “própria” autoridade. Estão apenas atendendo às orientações do Altíssimo. Se Deus fala com eles referindo-se a outros, eles falam. Se Ele conduz as pessoas a tomar determinada atitude, elas agem. No entanto, essa autoridade nunca pertence a elas. Não importa o quão frequentemente sejam usadas por Deus para transmitir Sua autoridade; elas nunca passam a ser a autoridade.



POR QUE HOMENS DELEGAM AUTORIDADE?




Vamos meditar juntos sobre isto: Por que uma pessoa precisaria delegar sua autoridade a outros? Sem dúvida, seria por causa da incapacidade dela de fazer o trabalho necessário, ou talvez por se ausentar de lugares onde alguma coisa precisa ser decidida ou feita.

Os chefes de grandes companhias sempre precisam delegar autoridade aos subordinados que agem em defesa de seus interesses. Estes chefes-executivos não são qualificados para fazer todo tipo de trabalho nos diversos setores de uma empresa. Não conseguem estar presentes em todos os lugares, em todo o tempo. Eles possuem limitações que exigem o delegar de autoridade a outros, os quais agem por eles na sua incapacidade ou ausência. Esses outros são, então, “autoridades delegadas”, cuja autoridade depende da sua posição de subordinação em relação aos seus chefes.

Na Igreja, Jesus foi designado pelo Pai para ser o cabeça sobre todas as coisas (Ef 1:22). O governo deste grupo especial de pessoas está “sobre seus ombros” (Is 9:6). Ele, e somente Ele, deve deter o governo e direção do Seu povo. Toda autoridade no céu e na terra foi dada a Ele (Mt 28:18).

Jesus não delega Sua autoridade a outros a fim de complementar Sua tarefa. Ele não divide Sua autoridade em pequenas porções para que outros ajam em Seu interesse ou propósito. Ele não precisa fazer isso. Não existe nenhuma tarefa na Igreja que não seja capaz de realizar. Ele é Todo- Poderoso. Ele não está ausente do Seu corpo, é onipresente e está aqui conosco, em todo tempo. Por causa disso, não há nenhuma necessidade de delegar Sua autoridade para que alguém aja em Seu lugar.

As autoridades delegadas governamentais deste mundo existem porque Deus não está fisicamente presente. Portanto, essas autoridades terrenas têm sua própria autoridade e atuam no lugar Dele em Sua “ausência”.

Mas, na Igreja, Seu corpo, Jesus está bem presente através do Espírito Santo. Sendo assim, como Ele está presente, é o único que deve dirigir, liderar e iniciar todas as coisas. Na Igreja, nenhuma parte dessa autoridade, por menor que seja, deve ser usada por homens como se a mesma pertencesse a eles.

Pouco antes de Jesus subir ao céu, Ele disse a Seus discípulos: “Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra. Ide, portanto, fazei discípulos (...)” (Mt 28:18). Em seguida, Ele não disse: “E agora, estou dando a cada um de vocês um pouco dessa autoridade, para que façam a obra, enquanto estou fora”. Em vez disso, Ele continuou dizendo: “E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século” (Mt 28:20). A Autoridade em pessoa estaria sempre com eles, manifestando-Se por meio deles, em qualquer tempo e em qualquer lugar em que se fizesse necessário.

Portanto, vemos que na Igreja, onde quer que a autoridade se manifeste, a pessoa que vemos não deve ter a autoridade em si ou estar com ela. Pelo contrário, deve ter uma exibição do Jesus invisível fluindo através da sua vida. Isso é o que chamamos de “autoridade transmitida”.



A AUTORIDADE HUMANA IMPOTENTE




Como vocês podem ver, a autoridade “posicional” ou “delegada” opera somente no plano natural, físico. Ela é ouvida através dos ouvidos da carne, produzindo reações que são humanas. Esta é a maneira pela qual os homens controlam uns aos outros no mundo físico. A autoridade que é exercida pelos pais, polícia e outros tem, de fato, seu lugar; ela faz parte deste mundo. Contudo, não tem nenhuma utilidade na edificação do Corpo de Cristo.

Muitos têm tentado, através de séculos, usar algum tipo de autoridade posicional, delegada, para edificar a Igreja, mas isso tem sido um terrível engano. Incontáveis figuras de autoridade têm tentado guiar, em bando, os filhos de Deus em uma ou outra direção. Eles têm ensinado, persuadido, insistido e, algumas vezes, ordenado, ainda que sem nenhum resultado espiritual. Muitos pastores, bispos, presbíteros e outros têm usado toda sua energia e autoridade tentando mover os crentes na direção em que eles creem que as pessoas devem seguir espiritualmente, mas o resultado não tem sido a perfeição dos santos.

Embora a autoridade delegada possa ser usada para produzir algum efeito visível na vida de alguns cristãos, estes resultados não são eternos. Não há uma transformação real. Por exemplo, algumas figuras de autoridade na Igreja têm exercido pressão sobre aqueles que estão sob seu controle e os manipulam para efetuar uma mudança em seus hábitos ou comportamento. Talvez estes “crentes submissos” tenham mudado a maneira de se vestir, o modo de falar ou, até mesmo, tenham começado a administrar seu dinheiro de uma maneira melhor.

Ainda assim, tais mudanças são somente terrenas e temporárias. Elas trabalham externamente, em vez de internamente, onde reside o homem espiritual. Essas mudanças não são o resultado de um crescimento espiritual, mas de uma pressão terrena, humana. Estas pessoas têm sido conformadas a um padrão, mas não transformadas à imagem de Cristo.

A verdade é que o Exército é mais eficiente em mudar o comportamento de homens e mulheres do que a Igreja. Lá, os recrutas são sujeitos a uma tremenda pressão, noite e dia, até terem adquirido a forma do padrão do Exército. Isso, porém, não é transformação. Não é a salvação da alma que Deus deseja. Não é algo de valor eterno que resulta da vida de Deus crescendo dentro deles.

Essa autoridade posicional é de origem terrena e não pode produzir resultados espirituais. Ela não pode fazer nada para ajudar homens e mulheres a crescer em Cristo. Ela não pode produzir mudanças eternas. Somente a autoridade espiritual genuína pode operar de modo efetivo para verdadeiramente transformar a alma à imagem de Cristo. O alvo não é simplesmente modificar o comportamento dos homens. Em vez disso, é ver Jesus Cristo crescendo e sendo formado em todos os crentes. Para que isso ocorra, apenas a autoridade direta de Deus deverá operar.

Somente a voz de Deus falando no espírito de Seus filhos criará dentro deles o que Ele está procurando. É quando ouvem Sua voz que eles são cheios de Sua vida (Jo 5:25). Esta “palavra” de Deus pode ser – e frequentemente é – transmitida através de outros crentes. Existem muitos membros do Corpo de Cristo que Deus pode usar. Mesmo assim, não é a voz deles que é ouvida, mas a voz de Deus. Ele é o único que tem o poder de falar a eles, a fim de efetuar uma nova criação em seus corações.



O EXEMPLO DE MOISÉS




Moisés é um exemplo de alguém que exerceu essa autoridade “transmitida” por Deus. Ele não estava guiando os filhos de Israel de acordo com suas próprias ideias ou direções. Ele não estava expressando a si próprio. À medida em que se lê, no Antigo Testamento, sobre como retirou os israelitas da escravidão, fica bem claro que ele se movia e falava de acordo com instruções sobrenaturais. Cada passo dado, cada lei e cada ordem, cada detalhe do tabernáculo, tudo foi executado segundo uma direção espiritual.

Ele não tomou posição ao exercer uma autoridade conferida a ele. Não estava formulando seus próprios planos, nem tomando suas próprias decisões. Pelo contrário, apenas permitia que Deus o usasse para transmitir Sua autoridade ao povo. Quando a autoridade de Moisés foi desafiada por Coré e sua gente, ele resumiu sua posição desta forma: “Nisto conhecereis que o Senhor me enviou a realizar todas estas obras, que não procedem de mim mesmo” (Nm 16:28).

Nosso Senhor Jesus Cristo foi o supremo exemplo de tal autoridade espiritual transmitida. Ele não veio para fazer Sua própria vontade mas, em vez disso, submeteu-Se à vontade do Pai (Jo 14:10). Quando Jesus expulsou demônios, revelou a autoridade do Pai. Quando amaldiçoou a figueira, foi a voz do Pai que foi ouvida (Mt 21:19). Quando repreendeu o vento e as ondas, foi a autoridade do Pai que foi demonstrada (Lc 8:24).

Cada aspecto do Seu viver era a manifestação do Deus invisível. Mesmo estando qualificado para fazê-lo, Ele nunca exerceu Sua própria autoridade, mas, em vez disso, permitiu que Seu Pai fluísse através Dele.

Então, vemos que há dois tipos diferentes de autoridade presentes no mundo, hoje. Uma é terrena, do tipo humana – uma autoridade delegada – que é exercida pelo homem, acatada pelo homem e reconhecida por aqueles que vivem nesta Terra. Essa autoridade é inevitavelmente acompanhada por adereços superficiais que ajudam o ser humano a identificar essas pessoas. Posições, títulos, uniformes e muitas outras manifestações externas servem para identificar aqueles que têm autoridade delegada.

Este tipo de autoridade está sempre procurando o reconhecimento de outros homens. Na verdade, ela necessita desse reconhecimento para funcionar. É uma autoridade natural e secular, que foi planejada por Deus para atrair a natureza caída do homem. É algo que Deus instituiu, que opera de acordo com a moda deste mundo a fim de governar as pessoas do mundo.

A outra espécie de autoridade é a espiritual, do tipo transmitida. É através dessa autoridade que Deus planeja governar Seu povo. Esse tipo é manifestado em diferentes indivíduos, mas não pertence a eles. Eles, por si só, nunca se tornam a autoridade, são meramente condutores através dos quais a autoridade divina flui.

Nesse tipo de autoridade, o envolvido é simplesmente um canal através do qual a liderança de Deus flui. Ele não precisa de qualquer título, roupas especiais ou honraria para reforçar o que diz. Não está tentando impressionar os outros para que o obedeçam. Sua posição é a de alguém submisso a Deus. Consequentemente, a palavra de Deus flui dele para os outros. Deste modo, a verdadeira autoridade de Jesus é revelada à Sua Igreja.

O primeiro tipo de autoridade foi ordenado por Deus para governar o mundo. O segundo tipo, espiritual, é para governar Seu povo, Sua Igreja. Esta é uma diferença muito importante. Cada uma das autoridades é válida, mas tem sua própria esfera.

Infelizmente, os crentes, hoje, confundem com frequência esses dois tipos de autoridade. Alguns nem mesmo estão cientes de que há esta distinção. Como consequência, muitas vezes, tentam usar a autoridade humana para construir a Igreja. Usando métodos humanos, tentam trazer a ordenança divina para o Corpo de Cristo, mas isso, simplesmente, não funcionará



O DESEJO DE DEUS




Um desejo profundamente enraizado no coração de Deus é que o povo Dele corresponda com Ele, sem reservas. Ele anseia exercer o governo absoluto sobre Seu povo. Acima de tudo, Seu desejo é que cada pessoa tenha intimidade com Ele e seja capaz de seguir Sua liderança. Seu pensamento é que não exista obstáculo algum entre Ele e o Seu povo.

A respeito do povo de Israel, a intenção de Deus era que todos fossem sacerdotes (Êx 19:6). Hoje, em Sua Igreja, Seu desejo é o mesmo. Ele deseja que cada pessoa Lhe conheça de uma maneira pessoal e profunda, capacitando-lhes a corresponder com até o menor dos Seus desejos.

A realidade, porém, é que nem todos estão desfrutando dessa experiência. Para combater este problema, Deus escolhe indivíduos para transmitir a autoridade Dele, capacitando outros a entenderem Sua vontade, a se moverem na direção certa.

A princípio, Ele prepara e unge estes vasos escolhidos e, depois, usa-os como condutores da Sua autoridade. Tais homens e mulheres necessitam ser quebrados por Deus de um modo que fiquem com temor de usar sua própria autoridade. Depois, Deus começa a usá-los para transmitir Sua autoridade ao Seu povo. Eles tornam-se porta-vozes nas situações em que os outros são resistentes ou incapazes de ouvir a Deus por si mesmos.

O objetivo de Deus – refletido nos corações dos servos sendo usados – em fazer isso é trazer os outros para uma intimidade com Deus que Ele deseja. Depois de Moisés, Deus continuou a usar esse tipo de autoridade para liderar Seu povo. O próximo líder a quem Deus usou bastante foi Josué. Mais tarde, quando a necessidade surgiu, o Senhor levantou vários juízes para transmitir Sua vontade.

Há vários capítulos, no Velho Testamento, descrevendo como Deus falou por meio desses juízes e também os grandes feitos que Ele os levou a fazer. Entretanto, durante todo este tempo, o desejo Dele era que todo o povo pudesse Lhe conhecer de um modo íntimo e ser capaz de seguir Sua liderança diretamente. Ele levantou líderes, quando necessário, mas o fato de que Ele deseja que todos conheçam Sua autoridade e Seu reino por si mesmos nunca mudou.



HOMENS NATURAIS DESEJAM UM REI




Por alguma razão estranha, os filhos de Israel não estavam satisfeitos com o plano de Deus. Eles tinham um desejo diferente em seus corações. Desejavam uma autoridade humana, palpável. Ansiavam por alguém que pudessem ver, ouvir e sentir. Sentiam-se muito mais confortáveis com algo natural. Queriam alguém que pudesse operar como autoridade delegada. Sentindo-se insatisfeitos com sua autoridade espiritual, vieram a Samuel e insistiram para que ele estabelecesse um rei terreno para eles (1 Sm 8:5-20).

Talvez possamos identificar dois motivos para este desejo enigmático. Em primeiro lugar, ter um rei iria desobrigá-los da responsabilidade pessoal de buscar a Deus sozinhos. Agora, seu “líder” faria isso por eles. Além disso, ele assumiria toda a responsabilidade, cuidaria de todos os problemas, decidiria todas as direções que deveriam tomar e lutaria suas batalhas. Tudo o que precisariam fazer seria sentar e assistir de camarote.

Em segundo lugar, eles estavam querendo ser iguais às outras nações. Parece que se sentiram estranhos sem uma autoridade mundana. Sentiram-se um pouco inseguros com um líder invisível e intangível. Ansiavam por alguém que pudessem ver e ouvir com seus sentidos físicos. Para eles, a autoridade de Deus não era suficiente. Queriam ser iguais às nações ímpias ao seu redor.

Quando Samuel ouviu este pedido, ficou muito irado. Ele sabia quais eram as intenções de Deus e compreendia que Deus o estava usando para transmitir a liderança Divina ao povo. Samuel ficou aflito, porque a nação que Deus havia escolhido como Sua, iria tomar o caminho errado. Entretanto, o Senhor lembrou-o de que não era ele quem estava sendo rejeitado. O povo não estava abandonando um homem, estava recusando a soberania de Deus em suas vidas (1 Sm 8:7-8).

É uma evidência do grande amor de Deus pelos homens e de Sua graça abundante, o fato de Ele não ter desamparado os israelitas, mesmo quando O estavam abandonando. Ele os deixou seguir seu próprio caminho, mas primeiro explicou-lhes que o pedido seria ruim para eles.

A autoridade humana, terrena, iria feri-los de três maneiras: 1) Iria tirar deles seus filhos e filhas; 2) Iria requerer uma porção de suas propriedades; 3) Iria levá-los a uma escravidão da qual Deus não os libertaria (2 Sm 8:9-18). Ele permitiu que seguissem seu próprio caminho, porque percebeu que seus corações já O haviam abandonado, mas está bem claro que este não era o Seu desejo.




UMA MENSAGEM PARA OS DIAS DE HOJE




Percebamos que todos estes exemplos do Velho Testamento não são apenas histórias interessantes. Na verdade, eles foram registrados com uma intenção específica: que pudéssemos perceber neles verdades espirituais. Assim como era naquela época, hoje nós também temos escolhas a fazer no que se refere à autoridade.

Claro que, como habitantes deste mundo, devemos nos submeter às autoridades terrenas (1 Pe 2:13). Com relação à nossa interação com o mundo, está bem claro que a autoridade delegada se aplica a nós.

Com relação à nossa participação na igreja, essas duas variações de liderança também estão presentes – tanto a autoridade humana, como a autoridade espiritual. Um tipo é estabelecido pelo homem e fortalecido por todos os sustentáculos comuns, tais como títulos, posições e roupas elegantes. O outro tipo é estabelecido por Deus e é confirmado pelo Seu Espírito.

No Corpo de Cristo temos uma escolha. Por um lado, podemos aprender a reconhecer a autoridade de Deus e a nos submeter a ela, seja quando Ele nos fala pessoalmente ou quando Sua vontade está sendo transmitida através de Seus vasos. Por outro lado, podemos nos sujeitar a algum tipo de autoridade humana, delegada, que é estabelecida e reconhecida pelo homem. Temos diante de nós os dois caminhos: o terreno e o celestial.

Sem dúvida nenhuma, Jesus Cristo deseja exercer Sua devida autoridade sobre Sua Igreja. A doutrina na qual Ele é o cabeça sobre todas as coisas (Ef 1:22), onde Sua preeminência (Cl 1:18), e Seu total controle estão sobre cada aspecto da Igreja não é um ensino obscuro. O fato de que cada membro do Corpo deve desenvolver um relacionamento íntimo com Ele, capacitando-os a sentir Sua liderança cada vez mais, não é surpreendente.

Mais uma vez, entendemos que é vontade Dele que todos sejam sacerdotes (1 Pe 2:5). Mais uma vez, não é Sua vontade que qualquer outro ser humano fique entre nós e Ele. Deus anseia reinar pessoalmente sobre cada um de Seu povo, para que eles, como um só corpo, possam expressar os propósitos e a vontade Dele. Isso sempre foi, e até hoje é, um ponto essencial em Seus planos para o homem.



AUTORIDADE NA IGREJA




Há, certamente, necessidade de autoridade na Igreja. Não há dúvida de que Deus usa homens para serem líderes e exemplos para outros e para atraí-los a um relacionamento com Cristo.

No entanto, que tipo de autoridade deveria ser essa? Uma autoridade que é derivada de uma “posição” na congregação? Ela vem de uma indicação para ser ancião, pastor, diácono ou algo similar? Um título ou um “cargo” qualifica um homem para liderar o povo de Deus? Essa responsabilidade é conferida a alguém por outros homens que também possuem algum título, educação ou posição? Vem por algum tipo de voto de confiança dado pela maioria? Ou esta honra é colocada sobre alguém pela virtude de ter a personalidade mais forte do grupo?

Certamente não! Todos esses itens são apenas métodos terrenos que servem só para impedir os propósitos de Deus e levar as pessoas à escravidão. Como vimos, a genuína autoridade espiritual emana do próprio Deus. Aqueles que exercem tal autoridade são vasos preparados que transmitem os pensamentos e desejos de Deus para o Seu povo. É esse tipo de autoridade que deveríamos estar exercendo na igreja, hoje.

Precisamos, desesperadamente, de homens que falem só quando Deus fala com eles, que liderem de acordo com Sua direção e que manifestem Suas revelações. A grande necessidade atual não é daqueles que foram treinados, eleitos ou indicados para posições de autoridade, mas daqueles que são íntimos de Deus e através dos quais Ele pode transmitir livremente Sua vontade. Existe uma grande diferença entre esse tipo de autoridade e aquela que é manifesta pela carne.

Sim, a Bíblia diz que Paulo instruiu Tito a “constituir” presbíteros em cada igreja (Tt 1:5), mas o que este termo realmente significa? W. E. Vine, em sua obra chamada Expository Dictionary of New Testament Words (Dicionário Expositor de Palavras do Novo Testamento), diz o seguinte: “(...) não se trata de uma ordenação eclesiástica formal, mas sim da ‘designação’, para o reconhecimento das igrejas, daqueles que já tinham sido levantados e qualificados pelo Santo Espírito e dado evidência disso em suas vidas e em suas obras” (Edição de 1966, em inglês. Infelizmente, a edição atual deste livro não retém os pensamentos originais do autor).

Você vê que os apóstolos não estavam arbitrariamente selecionando homens que preenchessem certas qualificações, ou que talvez estivessem mais desejosos de prosseguir com a programação deles, ou que possivelmente tivessem muito dinheiro ou influência na comunidade. Pelo contrário, com olhos espirituais, eles estavam “indicando”, para benefício daqueles que não podiam ver tão claramente, aqueles que Deus já havia selecionado e preparado para usar como Seus vasos.

A autoridade espiritual genuína não vem por uma seleção para uma “posição” ou “diaconato”. Embora certos homens tenham adquirido, no Novo Testamento, rótulos como “ancião”, “diácono” ou “apóstolo”, a autoridade deles não veio por causa de uma “posição”. Na verdade, é exatamente o contrário.

Não devemos entender estes nomes como se estivessem indicando posições de autoridade dentro da igreja. Em vez disso, são meramente descrições das funções desses homens. Tais designações vieram como resultado do profundo trabalho espiritual que Deus fez no interior deles.

Era uma maneira de descrever suas funções especiais no Corpo. Em alguma área específica, Deus preparou esses homens para serem canais de Sua autoridade. Esses nomes foram usados para identificar as áreas de serviço, não para qualificá-los para elas!

Um dano incalculável tem sido causado ao povo de Deus por meio da má interpretação deste princípio. Muito frequentemente homens são indicados por outros homens para uma “posição”, porque pensam ser necessário haver algum tipo de autoridade na igreja. Perda e prejuízo tremendos têm sido experimentados pelo povo de Deus, por causa desta prática.

Quando estabelecemos na Igreja de Deus a autoridade delegada, terrena, estamos oferecendo uma substituição para a verdadeira. Quando elegemos ou indicamos homens de acordo com a razão ou a percepção humana, estabelecemos uma variedade de autoridade que é estranha ao plano de Deus e que será apenas um impedimento para Sua perfeita vontade.

A razão para isso é que, não importa o quão “fiel” às Escrituras ela pareça ser, a autoridade hierárquica nunca pode produzir resultados espirituais. Nada que se origine no nível terreno pode chegar aos desígnios de Deus. A Bíblia é bem clara: “A carne para nada aproveita” (Jo 6:63). A autoridade humana nunca pode transmitir o poder necessário para transformar vidas humanas. Ela não pode atingir o interior de uma pessoa e transformar seu coração.

O melhor que toda autoridade delegada pode produzir é um tipo de arranjo terreno que se aproxima do trabalho do Espírito. Além de não efetuar algo de valor eterno, ainda rouba dos crentes a oportunidade de experimentar a realidade de Cristo.

Por favor, não compreendam mal. Esforços humanos movidos pela autoridade natural podem ser capazes de realizar coisas notáveis no mundo religioso. Campanhas de “avivamento”, acionamento de membros, levantamento de fundos e projetos de construção podem ser executados por uma forte liderança humana.

Entretanto, lembremo-nos de que “sucesso” não é a medida para nossas realizações espirituais. Não importa quão grandiosos ou impressionantes nossos trabalhos possam parecer; se eles foram construídos com substâncias erradas – elementos terrenos em vez de sobrenaturais – serão destruídos no Dia do Julgamento.



AS CONSEQUÊNCIAS DOS REIS ATUAIS




É verdade que Deus permitiu a Seu povo seguir seu próprio caminho e indicou-lhe um rei. Embora Ele não o quisesse, continuou a trabalhar o máximo possível através deste sistema errado a fim de levar Seu povo a uma intimidade com Ele. Da mesma forma, hoje, Ele tolera nosso comportamento desobediente quando estabelecemos para nós mesmos uma autoridade terrena em Sua Igreja.

Em Sua abundante misericórdia e graça, Ele opera, mesmo em meio a nossos “sistemas de reis”, o máximo que pode, para cumprir Seus propósitos. Esta, porém, não é a Sua perfeita vontade e isso nunca poderá realizar Seus mais sublimes desejos. Pelo contrário, a Bíblia deixa bem claro que estabelecer tal autoridade é o mesmo que rejeitar a do Senhor e um grave erro.

As três consequências desse erro, que Samuel tão claramente predisse, são as seguintes:

1) Rouba das pessoas seus frutos espirituais (filhos e filhas). A autoridade humana paralisa o Corpo de Cristo por colocar suas próprias orientações e planos no lugar do Espírito Santo. Embora essa autoridade possa ser bem intencionada e ter mesmo muitos programas – tais como “metas evangelísticas” – o poder tremendo do Evangelho é diminuído quando a substituição é feita.

Um resultado desfavorável disso, é que os cristãos tendem, naturalmente, a olhar para a autoridade humana em busca de direção e aprovação, em vez de serem continuamente dirigidos pelo seu verdadeiro Cabeça. Como consequência, aqueles que estão sob esse tipo de autoridade hesitam em iniciar algo sozinhos, com receio de que isso seja visto como um desafio à posição do líder.

Com o passar do tempo, tornam-se incapazes de serem dirigidos pelo Espírito Santo. Isso rouba poder e fruto espiritual dos cristãos. Conforme a intimidade com a verdadeira Autoridade é substituída por algo humano e fraco, o fruto produzido em cada faceta da vida espiritual é diminuído.

2) A autoridade humana demanda o dinheiro das pessoas (suas posses). É inquestionável que a importância de qualquer posição terrena é julgada pela sua esfera de influência e por sua extravagância. Quanto mais pessoas um líder tem sob sua autoridade, mais importante ele é. Quanto maior o território que ele governa, maior prestígio tem. Normalmente, acompanhando esta elevação perante os olhos humanos, estão roupas extravagantes, meios de transporte mais caros e moradias mais luxuosas.

Na igreja de hoje não é diferente. Quase invariavelmente, conforme cresce a influência de um líder, cresce também o seu desejo de conseguir lugares de encontro que sejam maiores e mais impressionantes, um guarda-roupa mais condizente com sua posição e, em geral, um aumento de salário. Tudo isso, inevitavelmente, custa dinheiro; e esse dinheiro vem daqueles que se colocam sob a influência dessa autoridade terrena.

Pare um momento e compare isso com o exemplo de nosso Senhor Jesus Cristo. Ele não tinha lugar para apoiar Sua cabeça e, provavelmente, também não tinha uma muda extra de roupas. Ele nunca construiu palácios ou templos. Constantemente recusava qualquer posição de autoridade terrena. Seu pagamento era o que o Pai movia os outros a Lhe dar. Como fica o que estamos fazendo, comparado com isto? Será que somos realmente seguidores de Jesus ou estamos só usando Seu nome para nosso próprio benefício?

É verdade que as Escrituras nos exortam a dar nosso dinheiro para a obra e para os obreiros de Deus. No entanto, se usarmos nossas rendas para sustentar autoridades e projetos simplesmente humanos, não seremos recompensados. Quando o fogo de Deus descer, tudo que tiver sido construído com materiais naturais (madeira, feno e palha) será consumido e nosso dinheiro, tão dificilmente ganho, desaparecerá com eles na fumaça.

Por outro lado, se formos cuidadosos e investirmos nosso dinheiro em coisas que são verdadeiramente espirituais, nosso investimento produzirá frutos para a eternidade. Quando usamos nossas finanças para sustentar pessoas necessitadas, trabalhos e líderes verdadeiramente espirituais, jamais perderemos nossa recompensa.

3) A autoridade não espiritual leva o povo de Deus a ser escravo da vontade humana, usando seu tempo, energia e talentos para construir uma organização terrena, em vez de um corpo espiritual. A autoridade natural, com todos os seus planos e programas, necessita de pessoas para fazer o trabalho. Então, quando você se coloca sob tal autoridade, passa a permitir que o usem como um instrumento para tais empenhos.

Além disso, na mesma proporção em que se submete a ter sua vida governada por uma autoridade humana, você exclui a autoridade do Espírito. Não dá para servir a dois senhores. É inevitável que surja um conflito entre os dois. Seu Mestre celestial deseja dirigir cada aspecto de sua existência e qualquer outra autoridade só irá ser competitiva e frustrante.

Quando você escolhe a maneira terrena, como os israelitas fizeram, se torna um escravo da vontade e dos caprichos humanos, em vez de experimentar a verdadeira liberdade da submissão a Deus.

Esta é uma escravidão da qual Deus não vai nos libertar (1 Sm 8:18). Deus nunca violará nossa vontade. Quando escolhemos algo, Ele não irá nos forçar a mudar de decisão. Ele pode trabalhar de muitas maneiras diferentes para nos fazer ver nosso erro. Podemos descobrir e perceber Sua presença em nossa vida abatida. Podemos começar a achar que problemas que pareciam ser pequenos quando estávamos caminhando em intimidade com Jesus, agora parecem insuperáveis. Ele pode, até mesmo, permitir que nos tornemos miseráveis no caminho que escolhemos.

Entretanto, quando voluntariamente nos sujeitamos à autoridade humana, Deus não nos livra dela. Nossa única alternativa é reverter a escolha. Devemos exercitar nossa própria vontade e escolher nos afastar de qualquer autoridade na Igreja que seja uma substituição da autoridade do Senhor.

Isso pode ser uma surpresa para muitos, mas, apesar disso, é verdade. Quando nos submetemos à autoridade terrena, realmente nos colocamos debaixo de uma maldição. A Palavra diz: “Maldito o homem que confia no homem, faz da carne mortal o seu braço e aparta o seu coração do Senhor” (Jr 17:5-6).

Note bem como confiar no homem e afastar-se de Deus estão ligados. Quando você olha para seres humanos, não pode evitar de tirar os olhos de Deus. Um outro verso nos adverte: “Não confieis em príncipes, nem nos filhos dos homens, em quem não há salvação”. E continua: “Bem-aventurado aquele que tem o Deus de Jacó por seu auxílio, cuja esperança está no Senhor, Seu Deus” (Sl 146:3 e 5).

Pela discussão precedente, deve estar evidente que há dois tipos básicos de autoridade disponíveis para nós, hoje. Há o tipo superficial, terreno, chamado “autoridade delegada”, a qual Deus usa para exercer algum controle sobre aqueles que não O conhecem e nem O seguem.

E há a “autoridade espiritual”, transmitida, que sempre foi escolhida por Deus para governar Seu povo. Uma é para o mundo; a outra é para Sua Igreja. Uma funciona, de certa forma, independente de Deus, enquanto a outra não. Na verdade, esta não pode sequer funcionar, a menos que Deus esteja falando ou Se movendo.



TEMOS QUE ESCOLHER




Hoje, na Igreja de Cristo, esses dois tipos de autoridade estão sendo exercidos. Portanto, como membros da Igreja, cada um de nós é confrontado com uma escolha importante. Se nós nos submetemos ao tipo humano, hierárquico, esta autoridade impedirá e, eventualmente, substituirá o tipo espiritual. Se, pelo contrário, nós nos rendemos à autoridade celestial, esta irá, inevitavelmente, entrar em conflito com a terrena.

Como já vimos, essa decisão é extremamente importante. De fato, é crucial. Se escolhemos caminhar pelo caminho amplo e fácil, sem dúvida encontraremos muita companhia e poderemos, até mesmo, gozar de um bom grau de popularidade, mas os efeitos sobre os quais Deus tão claramente nos advertiu virão sobre nós.

Se, por outro lado, escolhemos o caminho mais difícil e mais estreito, sem dúvida haverá tempos em que nos encontraremos sozinhos e, querendo ou não, estaremos enredados no conflito entre esses dois tipos de autoridade.

Os primeiros apóstolos e, na verdade, o próprio Jesus, encontraram-se neste tipo de situação. Embora não a tivessem procurado, encontraram oposição contínua daqueles que ocupavam “posições” na organização religiosa estabelecida em seus dias. As autoridades tradicionais viram algo muito claramente: Se permitissem que esta manifestação da autoridade espiritual seguisse de forma descontrolada, em algum momento, ela substituiria a deles.

De algum modo, eles foram capazes de reconhecer que esta era, em essência, um tipo superior de autoridade, que estava destinada a suplantar seu tipo inferior, humano. Seus corações não estavam em sintonia com o coração de Deus e, então, eles lutaram para manter o seu “lugar”, que tanto gostavam (Jo 11:48).

No processo fizeram tudo o que podiam para suprimir a autoridade mais alta. Finalmente, quando já haviam exaurido todas as outras opções, reuniram-se para matar os representantes de Deus.

Como é fácil querer evitar aborrecimentos! Com certeza, a nossa tendência natural é simplesmente prosseguir com o “status quo” e “ser como qualquer outro” (2 Sm 8:5). Todavia, não estamos em nenhuma posição diferente de nossos antecessores ou de nosso Senhor. Se queremos verdadeiramente seguir a Jesus, Seus conflitos se tornarão os nossos.

Então, mais uma vez, teremos essas duas escolhas. Podemos preservar nossa paz e felicidade pessoal ou preparar-nos para compartilhar os sofrimentos de Cristo. Podemos nos submeter ao homem ou nos humilhar sob a mão poderosa de Deus (2 Pe 5:6).



O PROBLEMA DA INVISIBILIDADE




Um dos problemas encontrados quando falamos sobre autoridade transmitida versus autoridade posicional é que Jesus, hoje, é invisível. Não podemos vê-Lo com nossos olhos físicos. O homem natural tem confiança em coisas que são tangíveis, coisas que se podem ver, ouvir, sentir ou provar. Para ele, coisas invisíveis são difíceis de se perceber e compreender e, portanto, as considera sem valor real.

A consequência disso é que, para novos crentes e aqueles que não têm crescido espiritualmente, é muito mais fácil gravitar na direção terrena da autoridade posicional. Eles não têm facilidade para compreender as coisas espirituais. Para muitos deles, ter uma pessoa com um título e posição de autoridade que dirija suas vidas é muito mais simples e seguro do que pensar em precisar ouvir alguém invisível e segui-Lo.

Nosso relacionamento com o Jesus ressurreto e vivo é pela fé. Através de nossa fé, entendemos e percebemos aquilo que é invisível, inclusive a presença e a liderança de nosso Senhor Jesus Cristo. É impossível conhecê-Lo e segui-Lo sem fé.

Seguir, simplesmente, instruções bíblicas não será suficiente. Devemos, através da fé, entrar numa intimidade pessoal com Jesus, aprender a reconhecer Sua voz e a segui-Lo. Desta forma, Ele pode nos guiar em toda Sua vontade.



NEM SEMPRE BRANCO E PRETO




Infelizmente, na Igreja, a distinção entre a autoridade posicional terrena e a verdadeira autoridade espiritual não é claramente definida. Em vez disso, há, frequentemente, uma mistura desses dois tipos de autoridade. Alguns homens que expressam certa dose de autoridade espiritual têm permitido que outros homens os coloquem em posições terrenas.

Outros, é possível que tenham, até mesmo, buscado essas posições por conta própria. Isso, por conseguinte, coloca estes líderes em uma situação na qual podem exercer, e provavelmente exercem, ambos os tipos de autoridade.

Muitas vezes, os próprios líderes são incapazes de distinguir entre os dois tipos de autoridade. Eles não foram ensinados ou não são maduros o suficiente para compreender as implicações de exercer cada tipo. Portanto, cabe a cada indivíduo saber, de acordo com a revelação do Espírito Santo, a quais direções e liderança ele (ou ela) deverá se submeter e quais deverão ser recusadas.

Nesta decisão extremamente importante, temos que ser muito cuidadosos. Há dois modos pelos quais podemos nos enganar seriamente. Por um lado, a rebelião carnal contra a autoridade terrena não agrada a Deus. Quando nós discernimos que a autoridade natural está sendo substituída pela de Deus na igreja, se a nossa reação a isso não for caracterizada por brandura, humildade e amor, ela não é a resposta do Espírito. Quando manifestamos ódio ou ira, a obra de Deus não é realizada. Não podemos permitir que nossa carne reaja ao que vemos, mas temos que ser dirigidos em todos os aspectos pela Suprema Autoridade.

Em geral, a resposta de Jesus enquanto estava na Terra era não confrontar e condenar mas sim seguir no verdadeiro trabalho de Deus. Não fomos chamados para uma rebelião aberta contra qualquer autoridade hierárquica, mas, tão somente, para nos submeter à vontade superior.

Por outro lado, não queremos, e de fato não podemos, perder a direção sobrenatural de Deus, especialmente quando essa direção vem através de outros vasos humanos. Não podemos, simplesmente, rejeitar toda e qualquer autoridade que seja expressa através dos homens. É essencial que nós nos humilhemos nesse assunto diante de nosso Criador e que estejamos certos de que queremos obedecer à Sua voz, onde quer que ela seja ouvida. Precisamos desejar segui-Lo, no que Ele disser. Se não temos esta atitude de coração, acabaremos certamente rejeitando não apenas a autoridade humana, como também toda autoridade. Nossa condição será de rebeldes independentes que têm pouca serventia para Deus. A verdade é que, se não podemos nos submeter ao Senhor quando Ele fala através de nossos irmãos e irmãs, realmente não somos submissos a Ele.

A questão óbvia que surge de toda essa discussão é: “Como podemos saber a diferença entre a autoridade que é espiritual e aquela que é da terra?”. A resposta é muito simples, mas não é fácil. Além de uma revelação do Santo Espírito, não há outra maneira de saber. O homem natural não é capaz de diferenciar as duas. Só aqueles que têm visão espiritual poderão saber o que vem de Deus e o que não vem. É algo que precisa ser discernido.

Portanto, é essencial que cada filho de Deus cultive uma intimidade com Ele. Cada um de nós é responsável por desenvolver e manter um relacionamento espiritual com nosso Senhor. Ninguém mais irá fazer isso por nós. Não podemos crer que algum tipo de "rei" vá se encarregar das responsabilidades.

Desde os primórdios do povo de Israel, o desejo de Deus continua o mesmo. Em Seu coração, Ele anseia que nós permitamos ser levados a um profundo relacionamento com Ele. Deste modo, repousando no colo de Jesus como João (Jo 13:23), chegaremos a compreender tudo o que Ele julga necessário que saibamos.







2.



A REBELIÃO DE CORÁ






Muitos anos atrás, quando os filhos de Israel estavam acampados no deserto, levantou-se uma discussão entre eles sobre quem deveria exercer a autoridade. Moisés e seu irmão Arão vinham liderando o povo de Deus até aquela ocasião.

Moisés tinha vindo ao Egito e, junto com seu irmão Arão, falado a Palavra de Deus para os israelitas e para o faraó e, mais tarde, conduzido o povo de Deus para fora de sua escravidão em direção ao seu destino divinamente escolhido. Esse foi um tempo maravilhoso na história do povo de Deus, durante o qual o poder de Deus e Sua vitória sobre as forças do mal foram demonstradas dramaticamente.

Entretanto, com o passar do tempo, alguns dos outros homens da congregação se desiludiram com o exercício de autoridade de Moisés e de Arão. Esses outros homens (mais de 250 pessoas) também eram líderes na congregação e bem conhecidos entre as pessoas (Nm 16:2). Eles começaram a questionar o porquê de Moisés e Arão estarem “se colocando como autoridades” e “exaltando a si mesmos” acima de todos os demais (Nm 16:3).

Seu raciocínio era algo assim: “Somos todos ‘cristãos’ aqui. Deus está entre todos nós. Qualquer um na congregação é tão santo quanto qualquer outro. Aos olhos de Deus somos todos iguais. Quem esses dois pensam que são? Nossa compreensão da vontade de Deus é tão válida quanto a deles. Por que deveríamos seguí-los?”

Agora, este tipo de raciocínio é fácil de entender. É perfeitamente natural pensar desta maneira quando somos confrontados com a autoridade espiritual. No início, quando alguém surge com uma palavra do Senhor e manifesta uma unção espiritual, é fácil impressionar-se e prestar atenção no que dizem. Contudo, depois de algum tempo, quando você conhece a pessoa e percebe suas falhas humanas e fraquezas – quando a primeira “aura” de impressão espiritual se foi – este tipo de pensamento começa a surgir.

Não é difícil simpatizar com aqueles homens e com as razões pelas quais pensavam daquela maneira. Moisés tinha prometido trazê-los para uma terra onde havia bastante leite e mel, mas em volta deles só se via deserto. Ele lhes havia dito que Deus desejava abençoá-los abundantemente, mas até mesmo o Egito tinha sido mais confortável que aquilo. Eles tinham olhos no rosto; podiam ver que não estavam tomando o rumo mais rápido para seu destino.

Aquele Moisés também estava mantendo as coisas em família, indicando seus parentes para o sacerdócio. Só um tolo continuaria a ser guiado por aqueles dois sem expressar um pouco a sua própria opinião. Será que Moisés pretendia manter todos eles cegos para que ele e seu irmão pudessem permanecer nas posições de autoridade? (Nm 16:14).

Conforme vamos lendo, descobrimos que a reação de Deus a este processo de pensamento foi extremamente severa – na verdade, tão severa, que muitos ficaram chateados e iraram-se.

Aqueles que não responderam à intimação de Moisés para a tenda da congregação foram engolidos vivos pela terra. Aconteceu algo inédito e aqueles homens, com suas famílias inteiras, caíram no abismo (Nm 16:30-33).

Em seguida, desceu fogo do céu e consumiu os 250 remanescentes. Então, como se este julgamento devastador e terrível sobre o povo de Deus já não tivesse sido suficiente, uma praga irrompeu sobre aqueles que se ofenderam com o acontecido e matou mais 14.700!

Na verdade, foi só pela intervenção de Moisés e Arão que a congregação inteira não foi destruída num piscar de olhos. Que calamidade de proporções inimagináveis tinha acontecido àqueles a quem Deus havia escolhido para serem Seus.

Vamos parar por um momento e avaliar este evento cuidadosamente. Isto não é simplesmente uma sabatina de história antiga. O Novo Testamento explica claramente que estas coisas foram escritas para o nosso benefício (1 Co 10:11).

Essa é na verdade uma mensagem para a Igreja de hoje, e Deus está ansioso para que a ouçamos. É uma palavra séria e corretiva que está em Seu coração. Que Ele tenha misericórdia de nós para que sejamos capazes de recebê-la como tal.



A VERDADEIRA AUTORIDADE ESPIRITUAL




Certamente a maioria dos leitores já percebeu que a verdadeira questão naquele dia não era um argumento ligado a opiniões ou personalidades. Não era uma análise de quem tinha as melhores ideias ou conselhos. Era uma questão de autoridade espiritual, uma discussão sobre quem Deus estava ungindo e usando para liderar o povo Dele de acordo com a Sua vontade.

Como é evidente que este assunto é muito importante e que Deus foi a níveis extremos para nos mostrar sua seriedade, é bom gastarmos um pouco de tempo aqui e examinarmos a necessidade de reconhecermos a genuína autoridade espiritual e como devemos corresponder a ela.

No primeiro capítulo deste livro, descobrimos que há duas variedades de autoridade no mundo hoje. Uma é a autoridade terrena, chamada autoridade “delegada”, que Deus instituiu para manter o mal deste mundo sob controle. Essa autoridade é exercida por aqueles que detêm títulos e posições em nossas sociedades, tais como policiais, oficiais do governo, juízes, etc.

O outro tipo de autoridade é o espiritual, que chamamos de autoridade “transmitida”. Aqueles que manifestam esse tipo de autoridade são apenas canais através dos quais a autoridade de Deus flui diretamente. São vasos rendidos, escolhidos por Deus para transmitirem Sua vontade. Quando tal autoridade é exercida, há uma revelação do próprio Deus. Não é a pessoa em si falando; é uma manifestação da vontade divina.

Como vimos anteriormente, Moisés era um canal de autoridade divina. Foi um homem usado por Deus para manifestar Seus próprios planos e propósitos de uma maneira assombrosa. Pouquíssimos homens na história do mundo manifestaram tamanha liderança e poder espirituais.

Sabemos que Moisés não estava instituindo suas próprias ideias e opiniões. Não estava liderando o povo de Deus de acordo com sua própria sabedoria e direção. Ele era apenas um instrumento sendo usado por Deus para transmitir Sua vontade ao Seu povo. Era um canal através do qual Deus falava clara e diretamente.

Talvez esta compreensão ajude a explicar a severidade da reação de Deus ao desafio de Corá e de seus companheiros. Eles pensavam que estavam em desacordo com um homem. Imaginavam que estavam tratando com algum tipo de autoridade delegada, terrena. Pelo contrário, descobriram que estavam se opondo ao próprio Deus. Embora a autoridade de Deus tenha se manifestado por meio de um ser humano, isso não muda o fato de que era realmente ELE!

Moisés tentou salvá-los de seu erro e explicou-lhes a situação, dizendo: “Pelo que tu e todo o teu grupo juntos estais contra o Senhor” (Nm 16:11), mas eles se recusaram a ouvir. Consequentemente, sofreram o mais espantoso e veloz julgamento do próprio Deus. Sem imaginar, haviam desafiado diretamente a Ele e o Senhor estava pronto a responder.



O OUTRO LADO DA MOEDA




No primeiro capítulo, vimos que estabelecer autoridade delegada na igreja é um engano sério e as consequências vão longe. Agora, temos que entender que existe outro erro, igualmente sério, no outro extremo.

Alguns cristãos já têm consciência do tanto de autoridade humana que há na Igreja atual passando por “autoridade espiritual.” Esses já rejeitaram o “sistema de rei”, assim como tudo o que lhe diz respeito.

Todavia, como vimos desde o início deste livro, só rejeitar o falso não basta. Também precisamos ser capazes de reconhecer a autoridade espiritual genuína e nos submeter a ela. Todo mundo fazer o que é justo a seus próprios olhos não é bom o suficiente (Dt 12:8). Rejeitarmos a autoridade humana não é suficiente, se não nos submetermos à verdadeira. Quando agimos assim, nos colocamos exatamente na posição de Corá e de seu grupo, opondo-nos à própria autoridade de Deus manifesta através de um ser humano.

Hoje, Deus Se limita. Não está mandando cartas pelo correio para Seu povo. São raras as vezes em que fala dos céus audivelmente com todos. Mesmo que Se comunique com cada crente por meio do Seu Espírito, há tempos, Ele usa pessoas para manifestar Sua vontade. Quando Seu povo não está conseguindo ouvi-Lo diretamente, Ele usa outros indivíduos, alguns dos Seus instrumentos, para comunicar Sua Palavra.

O problema é que esses seres humanos que Deus usa não passam disso – são seres humanos. Quando Deus fala através deles, eles não criam asas, não desenvolvem auréolas, nem começam, de repente, a andar sem tocar o chão. Simplesmente permanecem como são.

No presente momento, parece que Deus tem pouquíssimos cristãos perfeitos para transmitir Sua vontade. Consequentemente, Ele é obrigado a usar alguns que são, digamos, menos que completamente santificados. Eles ainda precisam se alimentar de comida, dormir à noite e, infelizmente, de tempos em tempos, vão manifestar a parte ainda não transformada de sua natureza. Mesmo assim, quando falam segundo o Espírito de Deus, são, durante aquele período, uma manifestação de Sua autoridade. O próprio Deus fala através dos membros de Seu Corpo.



UM GRANDE ERRO




É um grande erro pensar que aqueles a quem Deus está usando para expressar Sua autoridade serão facilmente reconhecidos pelo homem natural. A maioria dos profetas não era muito impressionante para atrair vários seguidores. Mesmo um homem como Moisés, que estava acostumado a executar milagres espetaculares, continuamente tinha dificuldades com homens e mulheres que não conseguiam ver além da aparência superficial.

O próprio Senhor Jesus foi o maior exemplo de autoridade espiritual. Entretanto, muitas pessoas que O rodeavam e que não tinham visão espiritual eram incapazes de discernir Quem e O que Ele era. Sua própria família não O reconheceu. As pessoas de Sua cidade natal não puderam receber Seu ministério. Até mesmo os líderes da “Igreja” de Seu tempo, os que verdadeiramente deveriam tê-Lo abraçado, falharam em compreender a fonte de Sua autoridade (Mt 21:23). No final, os oficiais religiosos delegados se opuseram até a morte, a esta manifestação de autoridade, porque ela representava uma ameaça à sua posição e “lugar” (Jo 11:48).

Talvez nossas ideias preconcebidas, algumas vezes, nos façam errar. Talvez idealizamos demais muitas figuras bíblicas, a quem Deus usou no passado, e esperamos que nossos irmãos e irmãs sejam como imaginamos que aqueles tenham sido. Embora as Escrituras foquem principalmente os momentos em que foram ungidos pelo Espírito, não há dúvida de que essas figuras do passado tiveram momentos em que não foram perfeitas.

Conforme contemplamos estes homens e suas obras para Deus, é fácil supor que, se tivéssemos vivido naquela época, certamente os teríamos reconhecido como instrumentos do Altíssimo. Supomos que sua conduta, seu porte, ou qualquer coisa sobre eles certamente nos impressionaria e nunca teríamos rejeitado seu testemunho, como tantos o fizeram no passado. Com certeza, não estaríamos entre aqueles que “matavam os profetas”, quando traziam uma palavra difícil de ser ouvida (Mt 23:31).

Entretanto, é evidente que a maior parte do povo de Deus teve e ainda tem este problema. Nós falhamos quando não enxergamos além da humanidade dos vasos e não ouvimos a voz do Senhor.

Hoje, Deus também está falando por meio de homens. Quando o Senhor fala através deles, é a Sua voz que é ouvida, é a Sua autoridade que está sendo transmitida. Isto é uma coisa que todo crente precisa observar seriamente. É muito mais fácil ver com os olhos naturais e reagir como Corá reagiu, perdendo inteiramente a Fonte da mensagem que está sendo entregue.

Quantas vezes arrumamos uma desculpa por não darmos ouvidos a nosso irmão, só porque nossa compreensão ou visão não era como a dele? Com que frequência nos rebelamos contra Deus, porque Ele estava usando um instrumento que não reconhecíamos? A rebelião de nossa carne, hoje, não é diferente da dos exemplos do Velho Testamento. Além disso, quando nos rebelamos, sofremos as consequências.



A NECESSIDADE DE AUTORIDADE




Todos sabem que a humanidade tem sérias dificuldades em reconhecer a autoridade e submeter-se a ela. Esta deficiência é um resultado direto da queda do homem e da subversão da natureza humana. Quer gostemos de admitir ou não, uma rebelião profundamente assentada permanece no coração de cada um de nós.

A rebelião – desobediência ao mandamento de Deus – foi o que destruiu Adão e Eva. É essa mesma rebelião dentro de nossos corações que nos impede de ouvir Sua voz quando Ele fala conosco, individualmente ou por meio de outros. Recusar-se a ouvir a voz de Deus destrói muito mais do que alguns poucos cristãos em nosso mundo atual.

Um dos propósitos primários do Senhor em Sua obra dentro de nossos corações é subjugar a rebelião. Deus deseja estabelecer Seu reino, Sua autoridade em nossas vidas. Esta experiência libertadora se torna real em nós, conforme nos submetemos à autoridade divina. A expressão de Sua autoridade, a manifestação de Sua vontade para nossas vidas, vem até nós de maneiras diferentes. Contudo, não importa o modo como Sua autoridade é exibida; o importante é reconhecê-Lo como a Fonte.

Deus revela-Se a nós, em nosso espírito, não somente com palavras, mas também com inclinações sutis que indicam Seus desejos. Ele fala conosco através de Sua Palavra, quando meditamos sobre o que está escrito nela. Ele pode até mesmo usar várias circunstâncias para nos guiar, quando nos submetemos a Ele buscando entender Sua vontade manifesta nos acontecimentos ao nosso redor. Não estou dizendo que devemos ser governados apenas pelos eventos que acontecem em nossas vidas, e sim que devemos estar sensíveis ao que acontece em nosso ambiente, aprendendo a reconhecer a mão de Deus trabalhando em várias situações, para que não percamos nada que Ele queira nos mostrar.

Um outro modo importante de Deus nos mostrar Sua vontade é através de outros cristãos. Quando nascemos de novo, somos colocados por Jesus em Seu Corpo. Pelos desígnios sobrenaturais de Deus, Ele não nos fez completos e independentes.

Em vez disso, Seu padrão é que cada membro de Seu Corpo tenha determinados dons e funções específicas. Ele estabeleceu uma grande diversidade em Seu Corpo, a qual deseja que resulte em uma grande interdependência. Ninguém “tem tudo”, mas cada um deve desejar e receber a ministração de outros a fim de ser completo. Deste modo, cada um tem algo para ministrar e cada um, até certo ponto, depende dos outros naquilo que não possui.

Isto é real, especialmente quando o assunto é conhecer a vontade de Deus e ser sensível à Sua autoridade. Conforme cada indivíduo cresce na esfera de seu ministério designado, a autoridade de Deus começa a fluir através deles nesta área.

Quanto mais crescem em obediência ao Espírito, mais Deus pode usá-los para manifestar Sua vontade. Consequentemente, cada um começa a ter uma compreensão única da vontade de Deus. Assim, quando estamos abertos para ouvi-Lo falar conosco através de outros, Ele pode Se manifestar a nós de muitas maneiras extraordinárias.

Provavelmente, a maioria dos cristãos gosta de imaginar que é sensível à voz do Espírito Santo. Na prática, entretanto, a maioria de nós está longe deste ideal. Dentro do coração de quase todo crente, ainda há áreas de trevas e rebelião. Estas são as áreas não transformadas, nas quais Deus ainda está tentando trabalhar.

Como estamos frequentemente cegos para o fato de que tais áreas existem, é muito difícil para o Senhor falar diretamente conosco sobre estes problemas. Portanto, Ele, muitas vezes, tenta usar outros crentes para falar conosco. Ele dará a compreensão e a revelação necessária acerca de nossas próprias vidas – coisas que não seríamos capazes de receber sozinhos – a outros e os usará para nos ministrar.

Se, quando isso ocorre, podemos reconhecer a voz de Deus falando por meio de nossos irmãos e irmãs, seremos abençoados. Se nos recusamos a corresponder com a autoridade de Deus, deixaremos escapar aquilo que Ele havia planejado para nós.

Como vivemos e nos movemos no Corpo de Cristo, precisamos aprender a reconhecer uns aos outros e interagir espiritualmente. Para conseguirmos fazer isso, é essencial pararmos de conhecer uns aos outros “segundo a carne” (2 Co 5:16). Isso quer dizer que não devemos julgar os outros de acordo com o que percebemos pelos nossos sentidos físicos ou mentais. Nunca devemos focar seus traços peculiares de personalidade, suas falhas, forças ou fraquezas.

Pelo contrário, precisamos aprender a discernir o Espírito do Senhor nos outros e a reconhecer os dons e ministérios especiais que Ele lhes tem dado. Precisamos vê-los através dos olhos de Deus. Conforme reconhecemos os ministérios espirituais de nossos irmãos e irmãs, Deus pode começar a usá-los para Se revelar a nós. Sua autoridade irá fluir e nos tocar de uma maneira inesperada. Esta é uma experiência cristã essencial. É deste modo, através da cooperação de cada parte (Ef 4:16), que o Corpo é edificado como Jesus deseja.

É precisamente por esta razão que somos ensinados a nos submeter uns aos outros no temor de Deus (Ef 5:21). Quando nos relacionamos com outros crentes que estão seguindo o Senhor, não estamos apenas tocando seres humanos. A Bíblia afirma que a Igreja é a verdadeira morada do Espírito Santo!

Quando experimentamos relacionamentos espirituais vivos com outras pessoas, não é apenas com elas que estamos em contato. É com o próprio Deus. Este fato deveria causar um profundo impacto em nós. Esta consideração deveria nos frear um pouco e nos fazer reavaliar nossas atitudes e relacionamentos com outros cristãos. Como precisamos de uma grande dose do temor do Senhor introduzida em nossa experiência de igreja!



A EXPERIÊNCIA DO “CORPO”




Estivemos falando sobre nossas vidas individuais, mas estas mesmas verdades também se aplicam ao Corpo de Cristo como um todo. Deus não quer apenas nos guiar individualmente; Ele deseja muito que Sua Igreja se mova unida ao Seu comando. A Bíblia nos ensina que Jesus é o cabeça do Corpo, que é a Igreja (Cl 1:18). Lemos que Ele deve ter completa autoridade sobre todas as coisas. É Sua intenção controlar cada aspecto do seu movimento.

A Igreja deve comportar-se como uma mulher correspondendo com cada inclinação de Seu Cabeça celestial, assim como uma esposa corresponde com seu marido. Que coisa gloriosa quando a Igreja se move unida na direção em que Deus a está guiando! Como é lindo ver toda a Noiva de Cristo correspondendo com seu amado.

Esta é uma doutrina maravilhosa. Inspira meditação em nosso tempo particular com o Senhor. Contudo, como essa autoridade vai se manifestar? Suponho ser, na teoria, possível o Senhor mover Seu Corpo dando simultaneamente a cada membro a mesma instrução. Na prática, entretanto, parece que Deus usa líderes – homens e mulheres que Ele preparou – para receber e transmitir Sua vontade.

Essa sublime possibilidade de a Igreja mover-se como uma só, transforma em uma bênção genuína o momento em que ouvimos Sua voz através destes líderes e obedecemos. Assim, todos os Seus santos propósitos se cumprirão em nós, através de nós e ao nosso redor. A profetiza Débora teve esta visão, que a inspirou a dançar enquanto cantava: “Desde que os chefes se puseram à frente de Israel, (...) o povo se ofereceu voluntariamente, bendizei ao Senhor!” (Jz 5:2).

Aprendemos nas Escrituras que há, na Igreja, ministros que são usados por Deus especialmente para a liderança de todo o grupo. Os apóstolos, aqueles a quem Deus confiou a visão completa de Sua morada; os profetas, aqueles pelos quais Deus expressa os desejos de Seu coração para os outros; e, em geral, qualquer outro indivíduo qualificado a quem Ele possa usar a fim de manifestar Sua vontade ao Seu Corpo. Todos estes podiam ser categorizados como “líderes”. Muito frequentemente, são esses líderes que O Cabeça usa para apontar Suas direções e planos para os demais.



QUAL A NOSSA REAÇÃO?




No entanto, quando tais pessoas falam, qual é a nossa reação? (Por favor, lembre-se de que não estou me referindo, aqui, ao exercício de autoridade posicional ou humana na Igreja, mas à verdadeira autoridade espiritual transmitida). Somos capazes de discernir a voz de Deus? Ou nós, obstinadamente a recusamos? Somos submissos? Ou pensamos algo como: “Não concordo com aquilo! Não é algo de minha responsabilidade. Quem aquela pessoa pensa que é, tentando nos dizer o que fazer”? Ou até mesmo: “Eu não ouvi Deus falar nada daquilo comigo”. Na realidade, você ouviu Deus sobre “aquilo”. Ele falou com você pessoalmente – através de seu irmão.

Nem todos são chamados por Deus para serem líderes. Na verdade, a maioria não é. Consequentemente, é imprescindível que essa maioria se submeta à voz de Deus falando através de Seus líderes. Desta forma, aqueles que não têm este dom, encontrarão direção e satisfação.

Eles serão guiados na vontade do Pai simplesmente seguindo o Senhor em seus irmãos. Quando a expressão dessa autoridade é genuína, um tremendo poder e fertilidade são mostrados enquanto a Igreja se move de acordo com a direção do Cabeça. Deste modo, uma demonstração gloriosa do reino de Deus se manifestará na Terra.

Por outro lado, como Deus não está sempre falando diretamente com cada indivíduo, se nos recusamos a ouvi-Lo através de Seus instrumentos preparados, experimentamos uma grande perda de propósito e direção. Tal rebelião gera confusão. Pobreza espiritual e perda do poder sobrenatural são os resultados de quando se faz o “que é direito aos seus próprios olhos” (Dt 12:8).

A redução do fruto espiritual, seja individualmente ou no aumento de novos cristãos, se manifestará de forma rápida. Quando não estamos dispostos a ouvir aqueles através dos quais Deus está falando, perdemos Sua liderança e somos deixados apenas com nossas ideias e opiniões. Essas opiniões contrárias – aquelas que se levantam para se opor à direção de Deus – irão naturalmente competir pela aceitação dos crentes. Assim, sem a liderança divina, a igreja torna-se paralisada e dividida.

A reação adequada que deveríamos ter quando algum devoto alega ter uma palavra do Senhor para a igreja é examiná-la diante Dele humildemente e em oração. Quando o indivíduo que falou é conhecido como alguém através do qual Deus, com frequência, manifesta Sua vontade, nossa diligência deve aumentar, para termos certeza de que a nossa reação é a correta.

É bom lembrarmos aqui que, se não entendemos alguma coisa, não é motivo para rejeitá-la. Geralmente, não é fácil compreendermos a visão associada com os ministérios dos outros membros. Nossa responsabilidade é de levar essas coisas, séria e honestamente, a Deus em oração.

Se o que ouvimos não veio Dele, não precisamos – e, de fato, não devemos – obedecer. Entretanto, tal decisão deve ser tomada com a máxima humildade, temor diante de Deus e cautela, para ter certeza de que o nosso discernimento está correto. Lembre-se de que a tendência geral de nossa carne é se inclinar para o lado da rebelião.

Não há dúvida de que foi por esta razão que Paulo, o apóstolo, exortou seus leitores a terem o cuidado de reconhecer aqueles que eram trabalhadores espirituais e que estavam manifestando a real autoridade espiritual (1 Ts 5:12). Este deve ser o tema que está por trás da admoestação em 1 Coríntios 16:15,16, onde os crentes são persuadidos a reconhecer aqueles que Deus estava usando e a submeter-se a eles.

Frequentemente, no Novo Testamento, esse tema da submissão à autoridade espiritual é salientado. Por quê? Porque é tão fácil a carne esquecê-la. É a tendência natural da natureza caída, recusar a autoridade Divina manifesta através de pessoas que não têm nenhum tipo de “posição” ou título.



JULGAMENTO ESPIRITUAL




Atualmente, Deus está limitado a expressar Sua autoridade através de seres imperfeitos. Como consequência, é muito fácil a mente humana examinar a pessoa, em vez da fonte da mensagem. É perfeitamente natural, para alguns, agir como Datã e Abirão e ver os outros só com os olhos da carne.

Na ausência da visão espiritual, fazem seus julgamentos pelas aparências superficiais. Encontram alguma falha no vaso e perdem o conteúdo. Percebem alguma imperfeição real (ou imaginária) naquele através do qual Deus está liderando e, então, se liberam da obediência e da submissão.

Fazer isso é um engano trágico. Resultará em um julgamento espiritual daqueles que o cometem. Não porque se recusaram a ouvir a opinião de seus irmãos ou não levaram em conta as ideias de outra pessoa. É porque rejeitaram a voz do próprio Deus manifestando Sua vontade por meio de Seus servos.

Quando recusamos a voz de Deus falando através de outros, há um julgamento. Rebelião contra nosso Rei sempre traz consequências. No mínimo, resulta em algum nível de trevas espirituais. Também produzirá nas pessoas afetadas algum tipo de experiência de falta de direção, afastamento ou insatisfação, semelhante àquela dos que se recusaram a entrar na terra de Canaã.

Tais indivíduos tendem a não chegar a lugar algum, espiritualmente, e não executam nada para o Senhor. Não conseguem encontrar a paz do Senhor. Essas são as pessoas que estão sempre tendo problemas em se submeterem aos outros e, portanto, continuam a procurar uma direção pessoal e independente para suas vidas.

O que não conseguem imaginar é que só conseguirão se realizar quando estiverem em submissão à liderança que Deus já deu a outros. Como seus dons e funções no Corpo não são na área de liderança, será impossível encontrarem seu lugar sem permitir que a direção de Deus seja dada por meio de outros.

Deus nunca muda. Sua atitude para com a rebelião hoje é a mesma que tinha nos tempos do Velho Testamento. Embora os julgamentos que os rebeldes dos dias de Moisés experimentaram possam não ser repetidos da mesma forma, certamente servem como um exemplo terreno dos efeitos espirituais que a nossa própria rebelião produz.

Quando recusamos a opinião de Deus sobre áreas que necessitam de transformação, essas fraquezas permanecem intactas. Com o passar do tempo, os efeitos adversos destes problemas podem se tornar tão sérios que o “chão” espiritual se abrirá debaixo de nossos pés e nossos pecados nos engolirão completamente. Muitos cristãos têm tido sua caminhada com o Senhor completamente destruída pela rebelião contra a Sua autoridade. Alguns até perderam suas vidas fisicamente.




CONSIDERAÇÃO FINAL




Isso nos traz à consideração final. O que podemos fazer para evitar este sério erro? Como podemos estar certos de que estamos ouvindo a voz de Deus, quando Ele fala por meio de nossos irmãos?

A única resposta é que devemos estar verdadeiramente submissos a Deus. Em nossos corações, precisamos desejar ouvir Sua voz e obedecer.

Se realmente desejamos Sua vontade, podemos recebê-la, não importa qual instrumento Ele use para transmiti-la. Se verdadeiramente queremos obedecê-Lo e estabelecer um relacionamento de submissão a Ele, reconheceremos o Seu falar, mesmo pelo mais humilde, ou menos considerado membro do Corpo. Sua ovelha “ouvirá Sua voz” (Jo 10:27).

Isto não é algo que nos acontece num instante, mas é uma experiência que se intensifica conforme aumenta o nosso relacionamento com o Senhor. Nossa crescente submissão a Deus é a verdadeira evidência de maturidade espiritual.

Nossa disposição em ouvir Sua voz é um fator crucial. No presente momento, Jesus não está forçando ninguém a fazer a Sua vontade. Portanto, ouvir a calma voz de Deus e corresponder a ela requer um coração preparado para receber o que quer que seja que o Mestre esteja dizendo.

Nenhum acúmulo de ensino pode substituir este tipo de disposição. Pressionar os crentes rebeldes a se “submeterem” aos líderes não terá um efeito real em seus problemas. Insistir em que os insubordinados se movam em determinada direção, mesmo que seja a certa, não produz resultados espirituais.

Tudo o que isso pode gerar são hipócritas, cujos corações não estão bem com o Senhor. Não há outra alternativa para o cristão a não ser humilhar-se diante de Deus, recusando os instintos rebeldes que surgem dentro dele e submeter-se à mão poderosa de Deus (1 Pe 5:6).

A grande necessidade desta hora é permitir que Jesus estabeleça Seu reino em nossos corações. Um dia, em breve, Sua autoridade será estabelecida fisicamente no planeta. Entretanto, como uma preparação para este evento determinado, é necessário que Ele estabeleça Seu reino – Sua autoridade celestial – firmemente dentro de nós.

É essencial para aqueles que declaram amá-Lo, que também O obedeçam. Examineno-nos completamente à luz de Deus e de Sua Palavra e, então, coloquemos, sob Seu controle, todas as áreas de nossas vidas consideradas em rebelião. Vamos coroá-Lo rei de nossas vidas.







3.



A SARÇA ARDENTE






Nosso Deus é infinito e eterno. Ele conhece todo o futuro tão bem quanto o passado. Ele não compreende apenas o começo e o final de tudo, a Bíblia nos ensina que Ele “é” o princípio e o fim. A existência de Deus vai além e está acima do que chamamos de “tempo”. O tempo é somente uma parte de Sua criação. Pelo fato de nós sermos seres finitos e, portanto, limitados pelo tempo, este conceito de que há um Ser Eterno, um Ser que existe fora do tempo, não penetra em nós com facilidade. Mesmo assim, é a mais pura verdade. Deus simplesmente “é”. E Sua existência transcende ambos, o tempo e o espaço.

Como consequência disso, nada do que Deus faz é acidental. Seu trabalho não foi e nem está sendo feito por um impulso momentâneo, conforme alguma ideia súbita que surge em Sua mente. Pelo contrário, tudo o que Deus faz já foi planejado “muito tempo atrás” do ponto de vista humano. Todas as Suas atividades são voltadas para o cumprimento dos objetivos que Ele determinou desde o princípio. Nada que acontece, seja para impedir Seus propósitos ou para ajudá-los, é uma surpresa para Ele. Cada circunstância foi previamente conhecida e Deus, em Sua infinita sabedoria, planejou um modo de realizar a Sua vontade.

Com isso em mente, vamos olhar juntos para a vida de um homem de Deus muito especial. Sem dúvida, bem antes de ter nascido, Moisés foi escolhido por Deus como um instrumento para executar um grande e poderoso trabalho em Seu nome. Ele não foi selecionado precipitadamente, apenas porque aconteceu de estar no lugar certo na hora certa, mas porque ele fazia parte de um desígnio eterno e insondável. O Todo-Poderoso não apenas conheceu e escolheu Moisés previamente, como também planejou um modo de prepará-lo para sua futura missão.

Pouco depois de seu nascimento (creio que todos vocês já leram a história), Moisés foi retirado de seu esconderijo no rio e levado direto para a casa do faraó. Lá, recebeu educação e treinamento sobre os usos e costumes da corte (At 7:22). Tudo isso fazia parte dos desígnios de Deus para preparar Moisés para o trabalho que estava por vir.

Suponho que seja teoricamente possível algum pastor, que passou sua vida inteira no deserto, entrar na presença do faraó e tratar com ele da maneira como Moisés o fez. No entanto, Moisés não era apenas um pastor comum. Ele era um homem preparado por Deus para uma obra extraordinária. Em preparação para seu chamado, nosso Deus providenciou uma educação bastante incomum. Consequentemente, quando a hora chegou, ele estava qualificado para se comportar com segurança na corte de faraó e cumprir a tarefa do Altíssimo.

Moisés não foi apenas preparado por Deus, mas também foi chamado por Ele para o trabalho para o qual fora predestinado. Não sabemos, exatamente, quando Moisés começou a entender esse chamado, mas está claro que, por volta dos 40 anos, já sabia algo a respeito. É provável que ainda não suspeitasse da totalidade do plano de Deus, mas parecia compreender que tinha sido escolhido pelo Senhor para libertar Seu povo.

Em Atos 7:25 lemos: “Ora, Moisés cuidava que seus irmãos entenderiam que Deus os queria salvar por intermédio dele.” É evidente que, porque ele estava ciente desse fato, erroneamente presumiu que eles também o compreenderiam. Eles, porém, não entenderam. Ainda não era o tempo de Deus e todo o Seu trabalho de preparação ainda não havia acabado.

Já que a compreensão de Moisés do plano de Deus estava incompleta, seu comportamento refletia essa deficiência. Ele deve ter olhado a situação com olhos naturais. Ver seus próprios irmãos sendo tão maltratados e na escravidão, provavelmente incitou nele sentimentos muito fervorosos. Sua opressão contínua, severa, deve ter causado um grande impacto nele. Deve ter sido consumido pela ideia de realizar o trabalho para o qual Deus lhe tinha chamado.

A posição de poder e autoridade a que havia chegado, sua própria força e sabedoria, as habilidades natas de liderança que possuía – todas essas coisas o convenceram de que poderia e deveria começar a dar alguns passos para realizar o chamado de Deus. Assim, quando a oportunidade se apresentou, ele a aproveitou, matando o egípcio e escondendo-o na areia.

Que poderoso livramento ele executou! Um opressor morto e um israelita temporariamente liberto. Com toda a sua preparação e talentos naturais, isso era tudo o que podia fazer. Sem dúvida, o desejo de ver o povo de Deus livre ardia dentro de Moisés. Ele estava dando o melhor de si para executar o trabalho para o qual havia sido chamado.

Contudo, os resultados foram tão lastimáveis... O povo de Deus não foi liberto, eles não compreenderam o que Moisés estava tentando fazer e ele próprio teve de proteger sua vida, fugindo para o deserto. Mesmo tendo sido chamado por Deus para realizar esse trabalho, o que pôde produzir com sua própria energia foi um fracasso.

Os próximos 40 anos da vida de Moisés foram gastos tomando conta de ovelhas. Embora ele não soubesse, este também foi um período de preparação de Deus. Depois de tanto tempo, ele já havia renunciado à ideia de executar qualquer tipo de libertação. O desejo inflamado, que tinha antes, de libertar seu próprio povo era, agora, uma memória esmaecida. Moisés tornara-se mais velho e mais sábio. A força natural, que outrora emanava de seu ser, tinha se enfraquecido e os dons e talentos que adquirira no Egito não eram usados há anos.

Isso também fazia parte da obra de Deus. Foi a quebra do que era natural em Moisés – a “queda ao pó” de suas forças e habilidades humanas – para que Deus pudesse ser o Único a Se manifestar. Às vistas de Moisés, estava tudo acabado; mas aos olhos de Deus, era apenas o começo.



UM TIPO DE FOGO DIFERENTE




Quando Moisés tinha cerca de 80 anos, Deus apareceu a ele de uma maneira especial. Enquanto seguia com suas ove-lhas, notou uma sarça que estava queimando; mas havia algo estranho com o fogo daquela sarça. Embora queimasse intensamente, a sarça não se consumia. Não havia nada natural naquele fogo. Não estava usando os elementos terrestres da sarça. É totalmente possível que as folhas da sarça tenham permanecido verdes. Esse fogo era abastecido por algo sobrenatural. Era o fogo de Deus!

Ao se voltar para ver essa maravilha, uma voz falou com Moisés. A voz firmemente o informou que o fogo celestial tinha tornado aquele lugar santo e que não havia espaço para espectadores. Como reação, Moisés escondeu sua face. O temor a Deus estava sobre ele e também não era mais capaz, ou desejoso, de agir de um modo natural, humano. Moisés se tornara “(...) mui manso, mais do que todos os homens que havia sobre a terra” (Nm 12:3).

Esta foi a maneira pela qual o Altíssimo Deus finalizou Seu chamado para a vida de Moisés – pela sarça ardente. Através dela, recebeu a mais importante revelação. Na verdade, ele deveria queimar por Deus, porém não pela sua própria força. Deveria ter um grande zelo pela libertação do povo de Deus, embora fosse um zelo que não vinha dele mesmo. Iria executar uma grande libertação, mas, não era aquela que havia planejado. Deus iria usá-lo de um modo como nenhum outro ser humano havia sido usado antes; mas, com certeza, não seria com seu próprio fervor ou zelo, mas com o fogo celestial trabalhando através dele.



UM PRÉ-REQUISITO NECESSÁRIO




Aqui está uma verdade essencial sobre a autoridade espiritual genuína. Antes que alguém possa ser grandemente usado por Deus para transmitir Sua autoridade é preciso ser “quebrado”. É preciso experimentar primeiro uma obra sobrenatural em seu ser para que não seja mais “inteiro”. É preciso ser “quebrado” por Deus.

Quando esse processo termina, a pessoa não é mais capaz de usar seus talentos naturais e habilidades para servir a Deus. Ela não fica mais planejando a “libertação” de Seu povo. A sua própria capacidade de liderança falha e, então, a menos que Alguém mais poderoso Se mova, essa pessoa não vai mover absolutamente nada.

Uma vez que um filho de Deus alcança essa posição, ele está pronto para uma grande obra. É a partir deste ponto que pode ser realmente usado por Deus. Quando sua confiança em seus dons pessoais, personalidade, conhecimento e habilidades se acaba total e completamente, então, e só então, é que ele está qualificado para ser usado de uma maneira poderosa para manifestar a verdadeira autoridade espiritual.

Não foi apenas Moisés que teve de se submeter a essa experiência. Todos aqueles que têm sido usados por Deus também têm conhecido Sua mão poderosa em suas vidas. Pare por um momento e considere cuidadosamente a história de algumas outras figuras bíblicas.

Leia a história de José e veja quanto sofrimento ele teve de suportar antes de estar pronto para a grande liderança. Lembre-se de Abraão, que recebeu tremendas promessas. Como não se realizavam, ele e Sara planejaram cumprir a Palavra de Deus por conta própria. O desastre dessa decisão permanece conosco até hoje. No entanto, após muitos anos de tratamento de Deus, quando ele e sua esposa já haviam esgotado sua própria capacidade, viram a revelação do poder de Deus.

Reveja a história de Jacó, o “usurpador”, o maquinador, aquele que estava sempre planejando um modo de levar a melhor, até ele lutar com o anjo e ser tocado em sua coxa. A parte mais forte de seu corpo foi deslocada de forma sobrenatural e Jacó nunca mais foi o mesmo. Depois disso, não pôde mais caminhar como antes. Algo havia mudado permanentemente. Foi então que seu nome foi mudado de Jacó, o “usurpador”, para Israel, o “príncipe de Deus”.

Até mesmo o rei Davi não se tornou poderoso repentinamente. Foi preparado por Deus durante anos, enquanto apascentava as ovelhas e, mais tarde, durante suas experiências com Saul. Posteriormente, foi muito útil para Deus para subjugar Seus inimigos. Imaginem a tristeza e o quebrantamento que Noemi e Rute tiveram de suportar antes de verem a vitória. Estes e muitos outros tiveram de passar pela experiência da “sarça ardente”. Era necessário que fossem transformados de homens e mulheres naturais em seres espirituais a ponto de terem sua própria força subjugada por Deus.



A EXPERIÊNCIA NA NOVA ALIANÇA




Isto é real não apenas no Velho Testamento, mas também na Nova Aliança. Aliás, acredito que essa experiência pode até ser mais importante para aqueles que nasceram de novo do que para os homens de Deus no passado. Todas as coisas que foram escritas a seu respeito foram, na verdade, escritas por nossa causa, para que pudéssemos receber instrução divi-na através delas (Rm 15:4).

Talvez Paulo, o apóstolo, nos proporcione o melhor exemplo de tais tratamentos divinos no Novo Testamento. Antes de sua conversão, ele era, sem dúvida, extremamente confiante em si mesmo. Era o “fariseu dos fariseus”, um homem judeu, culto e bem-educado, “extremamente zeloso” das coisas de Deus. Em seus próprios esforços calorosos para servir a Jeová, até passou a perseguir a Igreja.

Foi então que, um dia, teve o encontro com a Luz na estrada. Aquela experiência o deixou para baixo, literalmente no chão. Logo após o ocorrido, nós encontramos Paulo nas sinagogas debatendo com os líderes religiosos e pregando as boas-novas que havia recebido. Contudo, aquilo era apenas o começo. Deus queria muito mais daquele homem do que prevalecer em alguns argumentos sobre religião. Ele tinha em mente um ministério muito maior.

Logo após sua conversão, Paulo quase desaparece dos registros das Escrituras. Após sua experiência inicial com Cristo, nada mais é ouvido a seu respeito, até que Barnabé vai a Tarso procurar por ele. Por onde andava? O que estava fazendo? Evidentemente não estava fazendo algo de grande importância, mas Deus estava fazendo algo nele.

Durante aquele período, Paulo passou alguns anos na Arábia (Gl 1:17), talvez no deserto. Não se sabe ao certo quanto tempo esteve por lá ou que experiências teve. Apenas sabemos que, quando ressurge no cenário da Igreja, não é mais o mesmo homem. Não está mais cheio do seu próprio zelo e energia; é alguém útil para a manifestação de Deus ao Seu povo. Agora Paulo diz coisas como: “(...) para que não confiemos em nós, e sim no Deus que ressuscita os mortos” (2 Co 1:9 ) e “(...) porque, quando sou fraco, então, é que sou forte” (2 Co 12:10).

O forte “Saulo” tornou-se Paulo e isso definiu o caráter de seu ministério dali em diante. Ele retrata seu posicionamento em uma congregação, dizendo: “(...) foi em fraqueza, temor e grande tremor que eu estive entre vós” (1 Co 2:3). Não que o ministério de Paulo fosse fraco, pois certamente não era, mas, ele se sentia fraco. Não confiava mais em suas próprias forças e zelo para cumprir o desejo de Deus. O vigor de sua própria vida havia sido destruído. Ele sabia que aquilo que era e o que tinha como ser humano só seria útil quando fosse movido pela força de Deus.

Assim, aquele homem, outrora autossuficiente, cuja suficiência fora substituída pela de Alguém maior, tornou-se talvez o cristão mais produtivo de todos os tempos. Tornou-se um instrumento de poder, revelação e autoridade divina. Ele não refletiu a Pessoa de Jesus apenas em seus dias; ainda hoje, seu ministério dá frutos através das páginas do Novo Testamento.



UM PROBLEMA NA IGREJA




Hoje, na Igreja cristã há um problema muito comum. Homens, mulheres e jovens nascem de novo, recebem dons, são chamados por Deus e ungidos para a obra do ministério. Seus dons são reais, seu chamado é genuíno, mas o trabalho de preparação de Deus em suas vidas não está completo.

Por razões que examinaremos em breve, irmãos tão talentosos são frequentemente colocados em posições de autoridade para as quais eles não estão preparados. Por não serem qualificados pela obra do Espírito Santo, não têm alternativa, senão agir como homens naturais.

Tal autoridade terrestre introduzida na igreja interrompe o fluir da autoridade divina – que é essencial para o funcionamento adequado do Corpo – e macula o trabalho de Deus. Ela traz um elemento natural, humano, que não pode produzir algo espiritual e se torna apenas um estorvo.

Por favor, não entendam mal. Jovens crentes podem exibir algum grau de autoridade espiritual. Enquanto operam na esfera do ministério que o Espírito Santo abre para eles, não há problema. Claro que, no início, essa esfera é pequena e cresce conforme aumentam suas habilidades e sensibilidade para com Deus. Entretanto, conforme começam a trabalhar no Corpo de Cristo, é comum chegarem a uma posição em que começam a exercer uma autoridade que vai além de sua capacidade e, consequentemente, caem no laço do diabo (1 Tm 3:7).

Este problema parece desenrolar-se de duas maneiras. O primeiro enredo é algo assim: Os novos convertidos são, comumente, muito zelosos e têm uma energia enorme para gastar nas coisas de Deus. Os outros irmãos não podem deixar de notar os dons, a unção e a habilidade de liderança operando nestas pessoas.

Como temos visto desde os capítulos anteriores, os homens naturais, frequentemente, desejam uma autoridade terrena, um “rei”. Eles gostam de ter alguém para lutar as bata-lhas, cuidar dos problemas, descobrir a direção de Deus e outras coisas mais.

Então, quando veem aqueles que estão cheios de energia, aqueles que Deus está usando e que têm dons espirituais verdadeiros, normalmente os empurram para a frente da igreja, tomando-os e fazendo deles líderes de louvor, pastores, diáconos e assim por diante. Com frequência, os elevam acima de sua capacidade espiritual e os colocam em “posições” de autoridade na igreja, sobre as quais falamos anteriormente.

Claro que estes recém-convertidos não têm sabedoria e maturidade para evitar esta cilada. Acreditam, sinceramente, que aqueles que os estão impelindo devem saber o que é certo. Já que estão famintos, como Moisés estava, para servir a Deus e fazer Sua vontade, permitem que os homens os coloquem nessas posições.

Entretanto, isto é um sério engano. É impossível estes indivíduos agirem de forma adequada, de acordo com o Espírito. Eles simplesmente não têm a preparação divina. Sua sensibilidade espiritual a Deus e sua desconfiança de sua própria capacidade ainda não foram estabelecidas por completo. Isso, então, os leva a não terem outra opção, a não ser agirem naturalmente, confiando em sua própria capacidade. É este tipo de injeção de autoridade que tão rapidamente danifica a igreja. Se tais indivíduos têm uma personalidade forte e muita energia, podem demonstrar sucesso no que estão fazendo, pelo menos por enquanto. Os outros podem aplaudir suas realizações. A influência deles pode se expandir e o “ministério” crescer muito rapidamente. Em pouco tempo, estarão liderando alguma grande organização religiosa e atraindo novos membros.

Todavia, nosso Deus entende profundamente a verdadeira substância espiritual de todas as nossas obras. Qualquer coisa que tenha sido feita por nosso próprio esforço e energia é rejeitada por Ele. Tais coisas terrenas serão queimadas no trono de Julgamento de Cristo. Madeira, feno e palha não permanecerão naquele dia (1 Co 3:12).

Também é possível que Deus tenha misericórdia destes jovens recrutas e permita que seu trabalho falhe e pereça. Ele faz isso com muito amor, para que não se tornem enredados por completo em seu erro. Ele anseia por vê-los quebrantados em Sua presença. Contudo, muitos desses indivíduos não entendem este trabalhar, nem percebem a mão de Deus em suas derrotas. Não entendem como Deus poderia “abandoná-los” quando estavam trabalhando tanto para Ele.

Consequentemente, tornam-se amargos e desiludidos. Sua fé naufraga. Para muitos desses crentes, o que eles veem outros cristãos fazendo ao seu redor é sua única direção. De acordo com sua percepção, eles não tiveram sucesso e frequentemente acreditam que Deus os abandonou. Para alguns, parece difícil mudar este conceito. Eles chegam a negar servir a Deus de vez, ou mudam e usam métodos cada vez mais humanos, a fim de conseguirem os resultados que aprenderam a esperar.

A segunda razão pela qual os jovens crentes muitas vezes chegam a posições de autoridade natural (uma razão que, em geral, opera em conjunto com a mencionada anteriormente) é que eles mesmos as procuram. Estas são pessoas normalmente fortes e, mesmo antes de sua conversão, costumavam confiar em suas próprias habilidades. Então, quando vêm para a igreja, Deus ainda não teve tempo de reverter esta situação. Como são bem-dotados, ambiciosos e, até mesmo, chamados por Deus, esses homens e mulheres naturalmente chegam ao topo em qualquer situação.

A menos que haja crentes mais velhos e maduros que tenham experimentado a mão esmagadora de Deus em suas vidas para aconselhar e guiar tais jovens, a tomada da autoridade por suas mãos é quase inevitável. Estes cristãos, pela força natural, elevam-se acima de sua esfera espiritual e tornam-se líderes. Isto não apenas se torna um sério obstáculo na igreja como também, com o passar do tempo, provocará um grave impacto negativo contra a pessoa que foi, assim, elevada.

Alguns homens gostam de exercer autoridade sobre outros. É um verdadeiro impulso egocêntrico pensar que podem controlar um grande número de pessoas. Depois que se convertem e se enchem do Espírito Santo, começam a ver Deus usá-los de muitos modos, talvez até com milagres.

De repente, torna-se muito fácil impressionar as pessoas e atrair seguidores. Seus dons espirituais só servem para “de-corar” seus talentos e habilidades humanas. A menos que este tipo de personalidade natural seja humilhada e subjugada por Deus, estas pessoas irão automaticamente agarrar o máximo de poder que puderem.

A Igreja, hoje, está cheia de tais líderes. Alguns se esforçam para ver quantas pessoas podem influenciar. Fazem alarde para quem quiser ouvir sobre quantas “igrejas” estão “debaixo” de seu ministério, sobre quantos “grupos familiares” eles têm ou quantos novos membros conseguiram recrutar.

Muitas vezes, tais indivíduos encontram um modo de tirar de suas igrejas outras pessoas que estão sendo levantadas por Deus, ou qualquer outro que pareça ser uma ameaça à sua autoridade.

Como sua autoridade tem uma base humana, ela só pode ser defendida por meios humanos. Contendas, orgulho, ciúme e muitas outras coisas são evidenciadas nestas situações. Esse tipo de “autoridade” é repugnante para todo aquele que tem olhos verdadeiramente espirituais. Esses crentes caíram no laço do diabo.

O exercício de autoridade na Igreja de Cristo é algo muito profundo. Não é uma coisa que podemos tratar de leve. Não estamos lidando, aqui, com uma organização ou negócio terrestre. Só porque alguém tem “capacidade de liderar” no mundo, isso não o qualifica, em absoluto, para fazer qualquer coisa na igreja.

Como precisamos examinar este assunto com temor de Deus! Como nós, homens, precisamos nos arrepender de substituir a autoridade de Deus pela nossa! O que supõe-se que devamos construir é algo eterno, algo de substância celestial. Precisamos tomar esta responsabilidade muito seriamente e focar o exercício de autoridade com tremor, receio de corromper a obra de Cristo. O mau uso e a má interpretação da autoridade de Deus são algumas das razões primárias pela qual a Igreja, como um todo, está em um nível de espiritualidade tão baixo e ainda não tenha cumprido sua missão para com o este mundo.



OS SERVOS NECESSITAM DE PREPARAÇÃO




Durante o ministério de Jesus, Ele ensinou muitas coisas aos seus discípulos. Um de seus métodos de ensino era dar-lhes “ilustrações”, ou exemplos. Numa certa ocasião, os doze notaram que as pessoas a quem Jesus ministrava estavam ficando famintas. O dia já estava no fim e elas não tinham nada para comer.

Jesus aproveitou essa oportunidade para lhes mostrar algo profundo. Sua resposta ao problema foi dizer aos discípulos que eles mesmos deveriam solucionar aquele problema. “Mas”, retrucaram, “temos apenas um pouco de comida (cinco pães e dois peixes). O que podemos fazer com isso?”

Jesus estava pedindo a eles para realizarem uma tarefa enorme e eles conseguiram reconhecer que, pela sua capacidade natural, aquilo seria impossível. Entretanto, Ele tomou em Suas mãos o que tinham e o partiu. “KREC, KREC” e migalhas por todo lado. Posso imaginar o assombro deles. Quando Jesus acabou, havia mais do que o suficiente para todo mundo.

É assim, então, que Deus age com os Seus seguidores. Sua instrução para nós é que O ministremos às multidões, mas o que temos, como homens naturais, não é suficiente para o trabalho. Mesmo com os nossos dons divinos, só seremos capazes de ministrar algumas poucas pessoas no começo. Nossos poucos pães e peixes nunca poderão resolver as maiores necessidades até que sejam partidos pelas mãos do Salvador.

Deus precisa realizar um trabalho de quebrantamento em nossas vidas. Para sermos poderosamente usados, instrumentos para a autoridade sobrenatural, não há outro modo. Nossa força natural deve ser destruída e nossa essência fraturada, sem possibilidade de reparo. Então, e só então, estamos qualificados para sermos usados por Deus de maneira ampla.

Inicialmente, Deus pode trabalhar para nos quebrar. Talvez, após alguns arranhões e um tratamento doloroso, sintamos que fomos quebrados e nunca mais ficaremos inteiros, de novo. Contudo, Ele não para por aí. Em seguida, se estivermos dispostos, Ele continuará a nos quebrar, até ficar tudo em pequenos pedaços, ao ponto de nunca mais serem emendados outra vez.

Então, se ainda continuarmos submissos a Ele, é provável que nosso Mestre ajuntará esses pedaços em Suas mãos de amor e os porá em Sua moenda. Ali, Ele nos moerá, transformando-nos em farinha.

Pode ser que, após o primeiro processo na moenda, a farinha ainda fique um pouco grossa. Então, Ele talvez tenha que moê-la mais uma... duas ou três vezes. Quando nossa farinha estiver totalmente fina, tão suave quanto a seda, Ele derramará azeite sobre o pó e os misturará. Somente a partir daí, estaremos prontos para sermos oferecidos como uma oferta santa sobre o altar (Lv 2:1). Os homens e mulheres que forem preparados assim poderão ser usados por Deus de uma maneira muito ampla, para expressá-Lo para o mundo.

Isso parece severo? Parece difícil? E é! Nenhum dos verdadeiros servos do Senhor teve “um tempo fácil”. Morrer nunca é agradável, mas é o único caminho. A eliminação de nossa força natural é a única possibilidade. Se não formos profundamente tocados desta maneira, mesmo quando estivermos dando o nosso melhor para fazermos a coisa certa, nossa carne se expressará. É comum estarmos completamente inconscientes quando isso acontece. Nossa imaturidade espiritual nos impede de ver a impressão que nossas atitudes causam nos outros e no mundo espiritual.

Muitas vezes, não temos noção da intensidade de nossa própria força ou da maldade que espreita dentro de nós. Como consequência, não temos a menor ideia do tanto que precisamos ser quebrados pela mão de Deus. No entanto, nosso Senhor nos conhece intimamente e vê com clareza as áreas de nossas vidas que necessitam de transformação. Por isso, a existência do “ego” precisa morrer. Enquanto permanecer vivo, sempre se manifestará e maculará a obra de Deus.

Todos aqueles que serão grandemente usados por Deus passarão por tempos obscuros, difíceis e dolorosos. Não é que Jesus esteja irado conosco, ou porque temos, de algum modo, pecado contra Ele. Não, estas experiências são para aqueles que são especialmente amados por Ele. São tempos de provações para aqueles que são escolhidos para serem instrumentos do Seu poder e autoridade.

Não há dúvida de que tais indivíduos encontrarão momentos e situações em que julgarão não poder continuar. Talvez acreditem que não serão capazes de suportar por nem mais um minuto a dificuldade e a dor que estarão experimentando. Talvez não encontrem saída.

Contudo, Deus lhes dará graça suficiente para sobreviverem. Durante cada momento de escuridão e tumulto, Ele estará lá para ajudá-los. Enquanto estiverem esperando o Senhor libertá-los de sua situação, Jesus estará libertando-os “através” da situação. Na realidade, é provável que Ele permita estas circunstâncias para levá-los a um lugar onde possa completar Sua obra transformadora neles.

Não vamos pensar, quando vierem essas ocasiões, que Deus nos abandonou. Muito pelo contrário! Essas experiências são, de fato, manifestações do amor de Deus. Ele está preparando Seus servos para que sejam infinitamente úteis para Ele. Não tem outro jeito. Se a vida natural persistir, sempre haverá impedimentos e problemas.

Paulo, o apóstolo, parece estar descrevendo um destes períodos de provação quando escreve: “Em tudo somos atribulados, porém não angustiados; perplexos, porém não desanimados; perseguidos, porém não desamparados; abatidos, porém não destruídos; levando sempre no corpo o morrer de Jesus, para que também a Sua vida se manifeste em nosso corpo. Porque nós, que vivemos, somos sempre entregues à morte por causa de Jesus, para que também a vida de Jesus se manifeste em nossa carne mortal” (2 Co 4:8-11). O fato de que ele próprio tenha experimentado tais coisas deveria ser uma fonte de grande consolo para nós.

Queridos amigos, por favor, tenham em mente que este não é um trabalho que vocês mesmos possam fazer. A quebra da força natural não é algo que o homem natural possa fazer. Só Deus pode fazer esse trabalho em uma pessoa e Ele o faz à Sua maneira e a Seu tempo. Tudo o que podemos fazer é nos render a Ele completamente, não retendo coisa alguma e dando-Lhe permissão para fazer o que Ele quiser em nossas vidas.

A experiência do quebrantamento leva tempo. Não há nada que substitua os anos de preparação nas mãos do Oleiro. Entretanto, o período não é o mesmo para todos. Com alguns, Deus pode fazer esse trabalho gradualmente, ao longo de anos e, do mesmo modo o exercício de autoridade divina também expandirá vagarosamente. Com outros, o Mestre pode trazer um período específico de experiência, no qual Ele faz um trabalho dramático de quebra.

Quando isso acontece, todos ao seu redor notarão uma tremenda e rápida mudança de caráter e de personalidade. Provavelmente, logo após isso, Deus começará a usá-lo de um modo muito mais poderoso. Contudo, embora Ele opere em nossas vidas, é Ele quem escolhe e faz. Nossa parte é simplesmente obedecer a Ele.

Estas, portanto, são as qualificações para transmitir a autoridade sobrenatural: ser chamado, ungido e preparado por Deus. Nenhum destes itens pode ser desprezado. Não há dúvida de que Deus deseja usar os dons que nos deu e, também, de alguma forma, as habilidades naturais com as quais nos equipou. Contudo, nenhuma destas coisas será muito útil até que nossas forças sejam quebradas e Ele tenha o controle completo. Enquanto ainda estamos “inteiros”, não poderemos ser tão usados por Deus.








4.



A FORMA DE UM SERVO






Neste livro, temos discutido sobre a autoridade espiritual. Juntos, examinamos os dois tipos de autoridade encontrados na Terra, isto é, a autoridade hierárquica – “delegada” – e a autoridade espiritual – “transmitida”. Investigamos a necessidade de sermos capazes de reconhecer a autoridade espiritual genuína e distinguí-la da variedade terrena. Também vimos como Deus prepara Seus servos e, então, se manifesta à Igreja por meio deles.

Com tudo isso em mente, somos levados a uma questão particularmente importante a respeito da autoridade. Quais são os motivos de uma pessoa para exercer a autoridade? Quando alguém está agindo ou falando com autoridade, inevitavelmente, ele tem um propósito por trás do que está fazendo. Além disso, esses motivos revelam, com clareza, a fonte de sua autoridade.

Por exemplo, quando os impulsos vêm de Deus, a autoridade é Dele. Ele é quem está Se revelando. Por outro lado, quando um desejo de dominar, de aparecer, de ser reconhecido, etc., surge do interior do indivíduo, com certeza, há ambições egoístas. Consequentemente, compreender as motivações ocultas na autoridade que está sendo demonstrada ou por nós mesmos, ou por outros, pode ser um instrumento valioso para entender a fonte de tal autoridade.

Lembremo-nos de que os pensamentos e as intenções do coração humano (especialmente o nosso próprio) são, frequentemente, difíceis de serem percebidos. Portanto há uma grande necessidade de abrirmos nossos corações com sinceridade para a luz do Espírito Santo e de nos humilharmos diante Dele enquanto examinamos, juntos, as Escrituras.

Já que nosso Senhor Jesus Cristo foi o exemplo supremo da verdadeira autoridade espiritual, vamos dar uma olhada em Sua vida e ensinamento. Quando Jesus andou pela Terra com Seus discípulos, Ele gastou uma grande parte do Seu tempo ensinando-os. Seus métodos de ensino eram variados e únicos. Era comum instruí-los não só por meio de palavras, mas também de ilustrações.

Foi pouco antes da culminação de Seu trabalho na Terra, enquanto estavam reunidos para o que chamamos de “a última ceia”, que Jesus escolheu fazer uma poderosa demonstração de autoridade a eles. O momento escolhido para este ato, o verdadeiro clímax de Seu ministério, é a evidência da tremenda importância que Ele atribuiu ao assunto.

Enquanto comiam juntos, Jesus levantou-se da mesa, tirou Sua roupa de cima e cingiu-se com uma toalha. Ele se vestiu como um servo. Então, prosseguiu executando a função do escravo de menor valor: lavou os pés dos discípulos. Ali estava o Deus encarnado, o Criador do Universo, Aquele que tinha o direito de exercer toda a autoridade, agindo como um escravo particular.

Sem dúvida, Ele estava tentando transmitir uma mensagem muito importante. Estava apontando, da forma mais enfática possível, a verdadeira atitude e posição daqueles que exercem autoridade espiritual e liderança. Enquanto tomava esta atitude, Ele disse: “Vós me chamais o Mestre e o Senhor e dizeis bem; porque Eu o sou. Ora, se Eu, sendo o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros. Porque Eu vos dei o exemplo, para que, como Eu vos fiz, façais vós também.” (Jo 13:13-15). Ele, então, conclui Sua mensagem dizendo: “Se sabeis estas coisas, bem aventurados sois se as praticardes” (vs 17).

Isso, portanto, nos revela a motivação, na Bíblia, da verdadeira autoridade espiritual. Aqueles que são usados por Deus para transmitir Sua autoridade devem ser servos. Sua atitude e disposição não são para estabelecê-los como “alguém”, isto é, chefes e senhores, mas para tomarem a posição mais inferior. Eles devem usar seus dons divinos para servir aos outros, em vez de elevarem-se a si mesmos. As ações de Jesus são muito mais do que apenas a base para uma nova cerimônia de lava-pés na Igreja. Aqui, nosso Instrutor Divino mostrou-nos um tremendo princípio que governa todo o exercício de autoridade espiritual entre Seu povo.

O que isso significa na prática? Significa que, quando Deus começa a usar alguém como um canal para Sua autoridade e, consequentemente, esse alguém começa a ser elevado aos olhos das outras pessoas, ele próprio não tem interesse em ser elevado, assim. Seu coração não está sintonizado em si próprio, ou em algum tipo de “posição”, reconhecimento, ou fama, mas sim inclinado a servir ao próximo.

Eles são humilhados diante de Deus e, então, tornam-se, em cada sentido da palavra, servos. A ambição de suas vidas não é mais tornar-se “alguma coisa” na Igreja, mas levantar outros para ser o que Deus quer que eles sejam. O “eu” não é mais a motivação. Pelo contrário, o bem dos outros torna-se a força dominante governando suas ações. Esta é a pessoa que realmente entendeu a mensagem de Deus e, logo tornou-se muito útil para o Seu reino. Por outro lado, se a pessoa não tem esta atitude no seu íntimo, então não está verdadeiramente qualificada para o ministério espiritual.

Aqueles que são realmente instrumentos de Deus não estão tentando “construir seu próprio ministério”. Sua motivação nunca é “construir uma igreja maior que a dos outros”, ou manter sob sua influência o maior número possível de pessoas. Não estão criando seus próprios impérios ou reinos, usando o nome de Jesus e a Palavra de Deus como um pretexto para viverem em prol de si mesmos.

Estas não são pessoas que gostam de controlar as outras e de aproveitar-se do ar de “homem ou mulher de Deus”. São, simplesmente, servos trabalhando para o bem dos outros. Essa autoridade nunca é pesada ou exigente demais, porque a pessoa que a manifesta não pretende tirar proveito pessoal dela. É uma autoridade com uma motivação completamente diferente de qualquer coisa humana. Este tipo de liderança só pode vir de outra fonte. Revela o verdadeiro caráter de Deus.



“TÍTULOS” NO NOVO TESTAMENTO




Os “títulos” que o Novo Testamento usa para descrever os servos de Deus refletem muito fortemente a verdade descrita acima. No texto original, a ideia de homens e mulheres reinando e governando sobre outros na Igreja não existe de forma alguma.

Em muitos casos, porém, as tradições e práticas atuais das igrejas ligadas à tradução deturpada de vários versículos da Bíblia transmitem um sentido errôneo. Muitas vezes, o verdadeiro significado da terminologia foi grandemente distorcido ou já se perdeu em nossa geração moderna.

Talvez o melhor exemplo deste problema seja a palavra “ministro”. Hoje, o pensamento comum é que um “ministro” é alguém que “comanda” a igreja. Esta pessoa tem um título oficial, uma posição religiosa, talvez tenha também ornamentos especiais que veste para distinguir-se dos outros e, em geral, é elevado acima dos outros. Geralmente, espera-se dos membros um maior grau de respeito, semelhante ao que alguém daria a um dignitário político.

Contudo, a revelação nas Escrituras sobre o que é ser um “ministro” é muito diferente. Na verdade, há três palavras gregas diferentes que são traduzidas como “ministro”. A primeira é DIAKONOS, que significa “servo” ou “atendente”. A segunda palavra, LEITOURGOS, refere-se a alguém que servia o público de uma maneira especial, por conta própria. A terceira palavra, HUPERTES, originalmente, significava “remador inferior”, que era uma classe mais baixa de marinheiros. Sem dúvida, nenhum desses marinheiros estaria no comando do navio. Mais tarde, passou a significar qualquer subordinado agindo sob a direção de outro.

Algumas outras palavras que se relacionam com o pensamento de serviço espiritual são: DOULOS, um escravo cativo; OIKETES, um servo doméstico; MISTHOIS, um servo contratado; e PAIS, um servo menino. (Definições do Dicionário Expositor de Palavras do Novo Testamento, de W. E. Vine).

Nada em qualquer dessas palavras sugere o conceito que comumente encontramos na Igreja, hoje. Servos não dizem o que fazer àqueles a quem estão servindo. Não são aqueles que reinam e governam sobre outros. Pelo contrário, sua função é assistir aos outros, servindo-os de maneira humilde. Nestes termos não descobrimos exaltação do “ego”, elevação aos olhos do mundo e nem posição especial de respeito social. Encontramos o verdadeiro oposto disso.

O uso destes vocábulos sugere que aquelas pessoas humilharam-se e se tornaram servas genuínas, seguindo o exemplo de nosso Senhor Jesus por toda Sua vida (Fp 2:8). Com esta breve investigação, parece que a palavra “ministro” tornou-se tão mal empregada na Igreja que, virtualmente, passou a significar o oposto do que significava no tempo de Jesus.



FUNÇÕES DE SERVIÇO




Creio que está na hora de todos nós reavaliarmos seria-mente nossos conceitos sobre o que Deus tenta nos transmitir em Sua Palavra. Quando termos como “apóstolo”, “profeta”, “pastor”, “ancião”, etc., são usados, qual é o pensamento de nosso Mestre por trás deles? Pela nossa discussão, é óbvio que não podem ser títulos ou rótulos significando posições especiais de importância na Igreja. Isso estaria em contradição direta com o claro ensino e exemplo de Jesus. Portanto, precisamos ir além, até que tenhamos, à luz de Deus, uma revelação que esteja em harmonia com toda as outras escrituras.

Em vez de serem consideradas como títulos posicionais, estas palavras como “pastor”, “apóstolo” e “ancião” poderiam ser entendidas simplesmente como descrições de certas funções de serviço no Corpo de Cristo.

Talvez isso seja melhor ilustrado pelo uso de analogias terrenas, já que não temos nenhum preconceito religioso concernente a elas. Por exemplo: Qualquer um pode pescar. No entanto, quando alguém pesca com frequência e se torna um adepto da pescaria, podemos dizer que ele é um “pescador”. Este não é seu título ou algum tipo de posição, mas uma descrição do que ele faz.

Semelhantemente, muitos podem consertar um cano, mas, quando fazem este tipo de trabalho com regularidade e tornam-se bons naquilo que fazem, são considerados “encanadores”.

Também é assim na Igreja. Deus designou, para cada um, tarefas especiais. Hoje, poderíamos chamá-las de “ministérios”. São áreas únicas de serviço, através das quais cuidamos do Corpo de Cristo. Quando alguém é regularmente usado por Deus na área de profecia e se torna conhecido pelo exercício deste dom, pode ser chamado de profeta. Quando alguém é especialmente mandado por Deus para estabelecer e manter igrejas, é conhecido como um apóstolo, que significa “enviado”.

Quando essas palavras, que hoje são consideradas como títulos ou posições na igreja, são vistas como simples descrições de funções de serviço, todo conflito com os ensinamentos de Jesus desaparece. Em vez de ser um meio de elevar certos indivíduos talentosos acima dos demais, elas são, na realidade, um meio de descrever que tipo de servos estas pessoas são. Essa ideia é fortemente justificada quando verificamos como essas palavras não são usadas no Novo Testamento. Por exemplo, as Escrituras nunca usam a frase o “Apóstolo Paulo”, designando um título. Pelo contrário, lemos: “Paulo, o apóstolo”, o servo, alguém que foi enviado por Outro para executar um serviço para a Igreja. Nunca encontramos “Ancião Pedro”, “Reverendo Tiago”, ou “Pastor João” na Bíblia. Algo completamente diferente disso está na mente de Deus.

Além destas diversas descrições ministeriais não serem usadas como títulos no Novo Testamento, Jesus também proibiu rigorosamente o uso de títulos entre os Seus seguidores. Quando Ele disse: “A ninguém sobre a Terra chameis vosso pai” (Mt 23:9), não era simplesmente a proibição do uso de uma mera palavra. Era uma instrução clara contra a elevação de certos indivíduos a uma posição proeminente pelo uso de um título. Qualquer uso de título entre o povo de Deus para indicar uma posição de autoridade, honra ou respeito é estritamente proibida por Jesus.

Ele explica, dizendo: “Vós todos sois irmãos”. Vocês são todos iguais. São todos do mesmo nível. Ninguém consegue ser maior, melhor ou mais importante que o outro. Ele reforça a verdade, insistindo: “Vós, porém, não sereis chamados mestres, (...) nem sereis chamados guias” (alguns textos gregos antigos dizem “líderes” ou “discipuladores”, em vez de “guias”) (Mt 23:7-10).

Isso indica que todo uso de palavras especiais para distinguir e elevar um crente acima de outro é contrário ao claro ensinamento da Palavra de Deus. Glória a Deus, todos os títulos são reservados para Jesus! Ele é o “Rei dos Reis” e o “Senhor dos Senhores”.



A ORDEM DIVINA




Hoje, em círculos cristãos, muitas pessoas estão ensinando sobre a ordem divina. O pensamento básico por trás deste ensinamento parece ser o de que existe um tipo de hierarquia, uma espécie de rede de comando dentro da Igreja de Deus, que, quando nós a reconhecemos, nos submetemos e “entramos em sintonia com ela”, estamos fazendo a vontade de Deus e recebemos uma bênção. Nessa “rede de comando”, os apóstolos estão no topo, depois vêm os profetas, os evangelistas, etc.

Outros grupos talvez coloquem o “pastor” como líder, os anciãos logo abaixo e depois os diáconos, professores da escola dominical e assim por diante, descendo a linha. Embora haja muitas variações sobre este tema, os fundamentos, em geral, são os mesmos: existe um tipo de pirâmide semelhante a uma empresa, ou governo terreno, dentro da Igreja. Eles insistem que é através desta estrutura que Deus lidera Seu povo.

Com isso em mente, vamos ler juntos a Palavra. “Então Jesus, chamando-os, disse: ‘Sabeis que os governadores dos povos os dominam e que os maiorais exercem autoridade sobre eles. Não é assim entre vós; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva; e quem quiser ser o primeiro entre vós, será vosso servo; tal como o Filho do homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a Sua vida em resgate por muitos’ ’’ (Mt 20:25-28).

Que declaração! Que verdade importante é essa! Aqui Jesus está proibindo absolutamente qualquer exercício de autoridade de um crente sobre outro. Isso é algo que, embora seja comum hoje, é estritamente proibido por nosso Senhor. Aliás, em Seu reino, deve ser “pelo contrário”.

No relato de Lucas, descobrimos que estes reis terrestres que exerceram liderança foram chamados de “benfeitores”. Em outras palavras, eles exerciam autoridade sobre as pessoas para o bem delas. Suas exigências eram, supostamente, para beneficiar os outros de uma forma ou de outra. Com relação à esta ideia, Jesus também disse: “(...) pelo contrário, o maior entre vós seja como o menor; e aquele que dirige seja como o que serve” (Lc 22:25-27).

A ideia de um cristão exercendo autoridade sobre outro, mesmo que seja em “benefício” deste, é estritamente proibida. Aqui, encontramos a verdadeira ordem divina. Dentro da Igreja deve ser exatamente o oposto do modo como é no mundo. O caminho de Deus é o inverso. O maior é aquele que serve aos outros discretamente, de forma humilde.

Enquanto no mundo há uma hierarquia e uma rede de comando, na Igreja de Deus não deveríamos encontrar algo semelhante. Essa conduta foi rigorosamente proibida por nosso Deus! Não importa o que os outros estejam fazendo. A prática popular ou os costumes de nossos tempos não têm sustentação nesse assunto.

Fomos chamados para obedecer a Jesus. Muitos de nós, comumente, afirmam que creem na inspiração divina da Bíblia e que as palavras ali registradas são da maior autoridade. Como, então, podemos permitir que a opinião popular e os métodos atuais controlem nosso trabalho para o Senhor?



VERDADEIRA LIDERANÇA




Portanto, este é o plano de Deus. Aqueles que estão sendo usados por Ele para transmitir Sua autoridade têm uma atitude completamente diferente daqueles que têm autoridade no mundo. Eles não têm a intenção de “exercer autoridade” sobre outro irmão ou irmã, mas estão simplesmente expressando a vontade de Deus de acordo com a Sua direção. Estes homens e mulheres nunca chegam a uma posição para serem maiores que os outros ou para estarem acima deles, mas são servos usando seus dons para edificar as pessoas.

Acerca da autoridade manifesta através dele, o próprio Paulo disse: “(...) não que tenhamos domínio sobre a vossa fé, mas porque somos cooperadores de vossa alegria” (2 Co 1:24). Ele e seus cooperadores não tinham nenhum “domínio” sobre os outros. Eles eram meros ajudadores.

Embora algumas versões da Bíblia em português traduzam 1 Tessalonicenses 5:12 como se alguém estivesse “sobre” o outro no Senhor, a palavra em grego, aqui, é PROISTEMI, que significa basicamente “andar em frente” e não “reinar sobre” ou “comandar”. Como já vimos, o conceito completo de Jesus e das Escrituras é tornar-se um servo, não um soberano. Embora alguns possam estar à frente de outros em termos de maturidade e na caminhada espiritual, isto não significa que eles devem dominar sobre o Corpo de Cristo.

É impossível estar acima de algumas pessoas e ser servo delas ao mesmo tempo. Estas duas posições, estar acima e estar abaixo, são opostas. Elas são exclusivas. Para ser um servo, você tem de parar de ser um mestre. Para estar sob alguém, você precisa parar de estar sobre. Quando permanecemos em uma posição de superioridade e autoridade, não podemos ter sucesso em sermos verdadeiros servos.

O único caminho para permanecermos como servos e ainda manifestarmos autoridade é quando a autoridade não é nossa. Quando se torna extremamente claro que não podemos obter nossa própria autoridade, mas somos meramente vasos humildes, toda contradição desaparece. Quanto mais nos recusamos a sermos elevados a uma posição de autoridade ou a darmos a falsa impressão de termos qualquer autoridade própria, Deus pode nos usar para expressar-Se, enquanto permanecemos escravos dos nossos irmãos.

Talvez seja útil, aqui, investigarmos o que o conceito de liderança requer. “Liderar”, no sentido bíblico, não significa comandar, ordenar nem, de modo algum, exercer autoridade “sobre”. Em vez disso, significa que alguém vai à frente como um exemplo. O resto, vendo este exemplo, percebe que vem de Deus e o segue.

Este é exatamente o modo como agia um verdadeiro pastor nos tempos de Jesus. Ele desenvolvia uma relação íntima com seus animais. Eles o conheciam bem e confiavam nele. Assim, quando ele deixava o aprisco, seguiam-no sabendo, por experiência, que ele os levaria para pastos mais verdes.

Aqueles pastores não dirigiam as ovelhas por trás. Não mandavam uma ordem para as ovelhas irem a um determinado lugar. Em vez disso, eles iam à frente do bando. Era o seu exemplo e a sua fidelidade que os fazia líderes. Esta é a autoridade no Novo Testamento. É um trabalho de amor, demonstrando, pelo exemplo e fidelidade, a vontade de Deus. É interessante que Deus tenha escolhido termos como “ancião” ou “pais” para descrever aqueles que eram mais maduros no Senhor. Estes termos (em oposição a “general” ou “governador”, por exemplo) foram cuidadosamente escolhidos para expressar o pensamento de Deus.

Se você pensar sobre isso, irá perceber que há um importante aspecto em um pai ou um avô, que é completamente diferente em alguém que está no comando. É simples: um pai tem em mente o bem-estar de seus filhos. Não há problema, para um pai, quando seus filhos se tornam maiores que ele. Na verdade, é seu objetivo que o superem. Se eles podem ser mais bem-educados, mais felizes, mais ricos, ter uma casa e uma vida melhor é uma grande alegria para ele. Sua meta é servi-los e ajudá-los a prosperar em todas as áreas. Os pais devem ser, no verdadeiro sentido, servos de seus filhos.

Semelhantemente, o objetivo de um verdadeiro servo de Deus é edificar seus irmãos. Seu trabalho é manifestar a realidade de Jesus a eles de modo a encorajá-los a se tornarem verdadeiros discípulos. Nossa tarefa é servir a outros, não a nós mesmos. Nosso privilégio é encorajá-los a seguir a Jesus de um modo que se tornem “maiores” do que nós.

Se eles se tornarem mais sábios, mais poderosos, mais usados por Deus ou mais reconhecidos, isso deveria ser para nós uma fonte de maior bênção. Já que somos seus servos, é somente uma alegria, para nós, quando são exaltados. Este é um cumprimento de nosso ministério: Fazer com que outros tornem-se tudo o que Deus quer que sejam.

Contrastemos isso com o que acontece no mundo, hoje. Na política, negócios, esportes, teatro e em qualquer outra atividade, as pessoas estão batalhando pelo topo. Elas querem ser as maiores e melhores, as mais ricas ou as mais famosas. Essa competição para ser grande torna-se uma manifestação horrível da natureza humana caída.

Conflitos de poder, mentiras e decepção fazem parte do processo. Não admitir fraqueza ou falha, não deixar com que saibam como você realmente é por dentro; estas são as necessidades absolutas para seguir em frente. As aparências são muito mais importantes que a realidade, porque isso é o que influencia as pessoas. Assim, a hipocrisia não tem limites. Em resumo, muitos habitantes desta Terra estão diariamente envolvidos na luta pelo poder. Eles tentam elevar-se acima de outros, ao mesmo tempo em que tentam evitar que outros cheguem na frente.



QUAL A NOSSA CONDIÇÃO?




Como, então, encontramos a situação da Igreja, em nossos dias? Com qual dos dois exemplos acima poderíamos comparar as práticas que encontramos na Casa de Deus? Infelizmente, é comum que o segundo exemplo descreva a situação da Igreja. O desejo humano de elevar-se é encontrado em muitos púlpitos. A tendência de manter os outros abaixo também está presente.

O desejo de tornar-se mais e mais poderoso, influente e famoso, não motiva apenas alguns “ministros”. A regra, hoje, é descobrir “quantas pessoas” um líder tem em “sua” igreja. Quantas igrejas ele tem afiliadas ao seu ministério? Quais são os números? Quanto sucesso? Quão grande este “servo” se tornou?

Essa prática tem ido tão longe, que tenho ouvido falar de algumas escolas bíblicas que ensinam aos futuros líderes até mesmo técnicas especiais para manter sua autoridade. Eles entendem bem que, se as pessoas virem o lado humano desses líderes, terão dificuldade em reconhecer sua autoridade.

Então, instruem a manterem-se afastados da congregação. Advertem-lhes a não tornarem-se amigos “daqueles que estão nos bancos da igreja” e a não deixarem com que saibam de seus problemas pessoais. Se assim o fizerem, as pessoas não irão respeitá-los ou acatar sua autoridade.

Isso não apenas resulta no estabelecimento de uma falsa autoridade na igreja, como também condena o líder, que fica atrelado a uma experiência cristã isolada e, portanto, incompleta. Este tipo de autoridade humana é completamente estranha à compreensão neotestamentária da Igreja.

Também é comum encontrar líderes cristãos lutando para manter sua posição na igreja. Quando outra pessoa começa a ser elevada por Deus na congregação e a ser reconhecida e respeitada pelos outros como tendo uma mensagem de Deus, o líder atual pode encontrar um meio de livrar-se dela.

Manda-a embora para fazer um seminário. Deixa que ela tenha sua própria igreja. Acusa-a de ser rebelde e a põe para fora. Qualquer método é válido, desde que preserve a posição de quem está no poder. Acusações, medos e competição, todas formam a base da luta carnal pelo poder.

Por outro lado, a verdadeira autoridade espiritual flui de Deus. Ninguém realmente usado por Deus necessita lutar para ganhar uma posição ou um ministério. Jesus é quem levanta líderes entre Seu povo. Líderes genuínos nunca se destacam pela própria capacidade de pregar, ensinar e fazer com que pensem bem deles, em geral.

O rei Davi, por exemplo, era um humilde pastor, mas o Senhor o escolheu para dirigir seu povo. Muitos dos profetas não eram nada até que Deus tocasse suas vidas e começasse a fluir através deles. Ministério não é um produto de ambição, mas um resultado de intimidade com Deus. Aqueles que são realmente usados por Deus são aqueles que servem aos outros mais do que a seus próprios egos. Estas são as obras que permanecerão no Dia do Julgamento.

Também nunca há a necessidade de defender nossa “posição” ou ministério. Um servo verdadeiro não tem posição para defender. Ele está simplesmente à disposição de Deus para ser usado ou não, conforme a vontade do Senhor.

Quando a liderança de Moisés foi desafiada, sua reação foi lançar-se sobre a sua face diante de Deus. Ele sabia que era o Senhor que o estava usando e que era o Seu poder que o estava sustentando. Força humana e raciocínio só iriam macular o testemunho do que Deus estava fazendo através dele. Deus irá defender o que é verdadeiramente Dele. Nada irá impedir que Sua vontade seja feita com o passar do tempo. Nunca há necessidade de um esforço humano para garantir a obra de Deus.

Disputas, contendas, debates, conflitos de poder, etc. são obras da carne. Humildade, bondade e brandura são uma evidência do Espírito Santo. Se estamos mordendo e devorando uns aos outros, isso certamente causará destruição na família de Deus (Gl 5:15). Se formos tocados e profundamente humilhados por Deus para sermos servos do Seu povo, nossa obra trará bênção e ministério para todos ao nosso redor.

Essa é uma grande necessidade atual. Não ouvir aqueles que estão usando as coisas de Deus para elevarem-se e edificarem seus próprios “ministérios”, mas receber daqueles humildes através dos quais Deus está se manifestando.

Um dia, enquanto os doze caminhavam com Jesus, iniciaram um debate. Estavam disputando quem seria o maior quando Jesus fosse rei. O Senhor usou esta oportunidade para tentar mostrar-lhes, de novo, algo sobre como Ele pretendia que o Seu Corpo funcionasse. Ele tomou uma pequena criança e colocou-a ao Seu lado, dizendo algo muito profundo: “(...) aquele que entre vós for o menor de todos, esse é que é grande” (Lc 9:48).

Uma outra vez, dois dos discípulos estavam fazendo uma solicitação especial para posições de autoridade. Jesus fez, de novo, um pronunciamento que é exatamente o contrário do nosso modo normal, humano, de pensar. Lê-se: “(...) quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva; e quem quiser ser o primeiro entre vós, será vosso servo; tal como o Filho do homem, que não veio para ser servido, mas para servir (...)” (Mt 20:26-27).

Essas verdades não são meramente lindas filosofias religiosas. Jesus nos ensinou essas palavras para que busquemos entrar na realidade delas. Ele quer que as coloquemos em prática. “Ora, se sabeis estas cousas, bem-aventurados sois se as praticardes” (Jo 13:17).



O PERIGO DO RECONHECIMENTO




Temos falado sobre a necessidade de humildade na obra de Deus e como um verdadeiro líder é realmente um servo. Entretanto, é inevitável que, quando Deus começa a usar um instrumento humano, algumas pessoas passam a se impressionar e, pelo menos em suas próprias mentes, o elevam a algum tipo de posição. Quando a verdadeira autoridade espiritual é expressa, resulta com frequência na obtenção de algum tipo de respeito e reconhecimento.

Isso coloca o servo de Deus em uma posição perigosa. Uma vez que homens, mesmo que somente em suas próprias mentes, colocam tal pessoa nesta situação, a tentação é constante de usar essa autoridade terrena.

Em vez de continuar a confiar em Deus, torna-se possível recorrer a táticas humanas. Quando se levantam situações adversas, torna-se fácil tomar suas próprias decisões e fazer as coisas com suas próprias mãos. O interessante é que, quanto mais a pessoa é usada por Deus, maior é o perigo.

Novamente, a história de Moisés torna-se um exemplo para nós. Ele foi um homem que se tornou um canal para a autoridade de Deus de uma maneira notável. Ele provou ser quase completamente obediente em seu ministério. No entanto, uma vez, apenas uma vez, ele perdeu seu controle e escolheu usar sua própria autoridade para satisfazer às necessidades do povo. Em vez de obedecer e falar à rocha como Jeová o tinha instruído, Moisés irou-se e bateu na rocha com seu cajado.

Deus o honrou em sua posição e derramou água da rocha (Nm 20:11). Entretanto, aquele ato custou muito a Moisés. Através daquele único uso de autoridade humana, natural, sua entrada na terra de Canaã lhe foi negada. Aquela única vez que agiu por conta própria, em vez de obedecer a Deus, trouxe sobre ele um severo julgamento. Este acontecimento mostra claramente como Deus considera importante a distinção entre os dois tipos de autoridade. Todos os servos de Deus deveriam colocar isso no coração. Quando Deus os usa e eles são elevados aos olhos do povo, devem ser cuidadosos e manifestar apenas a autoridade do Espírito Santo que flui através deles. Qualquer autoridade natural ou posicional é desqualificada, mesmo que pareça atingir os objetivos desejados.

A vontade de Deus pode ser bem clara para os líderes. Contudo, qualquer uso de autoridade natural, cargo, ou posição não produzirá resultados espirituais. Aliás, nem pode. As Escrituras dizem: “Aquilo que é torto não se pode endireitar” (Ec 1:15). Nada que começa na esfera terrena pode produzir fruto espiritual.




NINGUÉM PODE FORÇAR A OBEDIÊNCIA




Outro ponto que deve ficar bem claro para o servo de Deus é que nunca devemos tentar forçar a autoridade de Deus. Nós nunca temos que tentar fazer alguém obedecer a Jesus. Não temos permissão para empurrar, disciplinar, humilhar, pressionar ou usar de qualquer outro meio para tentar forçar qualquer pessoa a obedecer.

Podemos ter certeza, em nossa própria concepção, de que Deus falou através de nós. Pode, de fato, ter sido Sua voz. Contudo, se nosso irmão ou irmã que recebeu a palavra não deu ouvido, não é nossa responsabilidade. Não é nossa tarefa insistir que eles ouçam e obedeçam. Como a autoridade de Jesus é que está sendo manifestada, é Sua responsabilidade tratar com cada um que se rebela contra ela. Nunca é de nossa alçada tentar forçar a vontade de Deus em qualquer pessoa. Isso seria simplesmente carnal e natural.

Este é, então, o modo de Deus: o homem ou a mulher que deseja agradar a Deus deve tornar-se servo ou serva. Deve-mos nos humilhar diante do Senhor e dos nossos irmãos em Cristo, em vez de agir à maneira do mundo. Em vez de procurar a exaltação aos olhos dos homens para podermos controlá-los, e deste modo “ajudá-los” nos caminhos de Deus, devemos ser modestos. Desta forma, apenas aqueles que estão realmente querendo ouvir a voz de Deus irão ouvi-Lo falar através de nós e serão obedientes.

Este foi exatamente o modo como nosso Senhor Jesus Cristo viveu enquanto esteve na Terra. Ele não apenas tinha o direito e a autoridade para exigir obediência, como também tinha o poder para forçar as coisas a caminharem do Seu modo.

Não obstante, em vez de usar esse poder, nós lemos: “Pois Ele, subsistindo em forma de Deus não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes a Si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a Si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte, e morte de cruz” (Fl 2:6-8).

Queridos irmãos e irmãs, este é o Caminho: uma Pessoa Maravilhosa. Que possamos vivenciá-Lo completamente.







5.



O CABEÇA DE CADA HOMEM






Muitos cristãos gostam de ler a Palavra de Deus para descobrir o que Deus tem feito e ainda fará por eles. É uma busca pelas riquezas de Deus que estão disponíveis a eles através da fé. Esta é uma busca maravilhosa. O tempo gasto na presença do Senhor, meditando em Sua Palavra, nos alimenta espiritualmente, fazendo-nos crescer.

À medida que crescemos, começa a se formar em nós a percepção de que o universo não é centralizado no homem. Conforme o cristão amadurece, começa a compreender que foi feito por Deus e que Deus não existe simplesmente para beneficiá-lo.

Talvez, mais profundo do que aprender o que Deus pode fazer e fará por nós, seja, em primeiro lugar, considerar por que Ele nos criou. Talvez seja uma grande bênção entender mais sobre Suas intenções divinas concernentes à humanidade.

Por exemplo, uma revelação mais profunda dos propósitos de Deus em criar um ser como o homem, pode nos ajudar amplamente a compreender o trabalho que Ele está fazendo dentro de nós e através de nós. Saber a razão pela qual fomos feitos irá, sem dúvidas, nos ajudar a compreender a vontade de Deus para nossas vidas. Deste modo, armados com este conhecimento, podemos enfrentar, com mais facilidade, as tribulações e dificuldades usadas por Ele para atingir Suas metas. Com isso em mente, vamos examinar juntos algumas passagens bíblicas.

Quando Deus fez o homem, em Gênesis, Ele disse: “(...) tenha ele domínio (...)” (Gn 1:26). Isso revela algo. Nosso Criador nos fez à Sua imagem e semelhança para sermos soberanos, para reinarmos sobre a Terra. Parte de Sua intenção era que os seres humanos fossem mais do que servos. Eles deveriam ser governadores soberanos da criação.

Em outra passagem, o salmista Davi, sem dúvida meditando sobre esta profunda verdade, exclama: “Que é o homem, que dele te lembres? E o filho do homem, que o visites? Fizeste-o, no entanto, por um pouco, menor do que Deus, e de glória e de honra o coroaste. Deste-lhe domínio sobre as obras da tua mão (...)” (Sl 8:4-6).

Quando alguém é coroado, há realeza e soberania, autoridade e governo. E quem fez isso com o homem? Foi o próprio Deus que estabeleceu o homem nesta posição, reinando sobre Sua criação! Esta não é uma pequena consideração. O Deus Todo-Poderoso fez o homem, coroou-o com glória e honra e, então, mandou-o governar o mundo.

Este plano não é apenas revelado no Velho Testamento. No Novo Testamento também descobrimos que isso era parte essencial do plano de Deus. Vamos nos tornar, pela obra de Cristo, “reis e sacerdotes” para Deus (Ap 1:6). Vamos “reinar na Terra” (Ap 5:10). Vamos “reinar em vida” através de Jesus Cristo (Rm 5:17). Esses versículos demonstram, sem sombra de dúvida, que Deus tem essa maravilhosa intenção para o homem. Quando nosso Pai nos criou, tinha em mente este importante fato: nós iríamos reinar sobre a Sua criação.

Ora, todos nós sabemos que o Senhor é o Supremo governante do Universo. Ele ainda está assentado no trono do céu. Além disso, Ele não vai renunciar Sua posição. Então, como vamos compreender o fato de que Ele formou um outro ser, à Sua própria imagem e semelhança, e o estabeleceu como um rei?

É evidente que isso não foi feito porque o Ancião de Dias envelheceu muito, está prestes a se aposentar e, então, necessita de um substituto. Não, nosso Senhor não tem intenção de abdicar do controle do Universo. Ele não vai transferir todas as coisas para nós.



DEUS NÃO É UM “SHOW-MAN”




Parte da compreensão deste mistério deve estar no fato de que nosso Deus não é um exibicionista. Isaías declara: “Verdadeiramente, Tu és um Deus que Te ocultas” (Is 45:15 VA). Faz parte da natureza do nosso Deus não fazer as coisas de uma maneira exibicionista, mas sim permanecer escondido (Por falar nisso, como essa verdade se reflete na obra que você está fazendo em Seu nome?).

Até mesmo a presente criação é um exemplo de Seu trabalho secreto. Embora a criação O revele, somente aqueles que estão abertos para Ele podem percebê-Lo. O atual trabalho glorioso que está fazendo em Seus filhos também é algo oculto.

O Deus invisível, o Criador do Universo, escolheu permanecer ao fundo e revelar-Se através de um ser que Ele criou – o homem.

Esse mesmo Deus revelou-Se em Cristo Jesus, dois mil anos atrás. Hoje, Ele deseja Se manifestar por meio de Seus muitos filhos. Ele está Se manifestando a nós para que possa ser revelado ao mundo e até mesmo ao Universo, por meio de nós. No futuro, isso também será verdadeiro. Aqueles crentes que forem fiéis a Ele serão coroados com glória e honra e colocados para reinar sobre a criação de Deus.

Assim, vemos que o propósito de nosso Deus é (e tem sempre tem sido) permanecer oculto, escolhendo reinar através destes representantes que Ele criou. Os homens transbordantes de Deus e sob Seu controle devem manifestar Sua autoridade sobre a Terra. Essa autoridade não pertence a eles. Eles não estão escolhendo ou agindo de acordo com sua própria vontade. Na verdade, estão agindo pelo Espírito de Deus para exercer a Sua autoridade. O Senhor, estando neles, governa por meio deles. Eles serão a manifestação das duas coisas: Sua natureza e Sua autoridade.

Esta compreensão de que Deus pretende reinar e governar através do homem se harmoniza perfeitamente com o que vimos nos capítulos anteriores. O papel do homem no plano divino é ser um canal, um condutor, através do qual a autoridade de Deus flui. Um homem nunca se torna uma ou “a” autoridade. Ele é, simplesmente, um canal através do qual a autoridade sobrenatural é transmitida. Estamos, agora, num tempo de preparação e treinamento. Algum dia, em breve, os filhos de Deus se manifestarão (Rm 8:19). Louvado seja Deus pelos Seus magníficos desígnios.



SOMOS REALMENTE SUBMISSOS?




Nos capítulos anteriores, discutimos sobre como Deus usa homens como canais de Sua autoridade. Sua vontade é revelada por meio daqueles que são íntimos Dele e abertos a Ele. Esses homens e mulheres, então, são canais da autoridade divina e servem como líderes entre o rebanho. Através desses líderes, o povo de Deus pode ser dirigido pelo Altíssimo e se mover em harmonia com Ele para realizar Seus planos.

Entretanto, este plano maravilhoso só pode funcionar sob uma condição: Para recebermos a verdadeira autoridade espiritual através de alguém, todos nós precisamos ser genuinamente submissos a Deus. Ele deve tornar-Se nosso “cabeça”. Quando nossos joelhos já se inclinaram e a nossa vontade já se dobrou para que realmente estejamos desejosos de obedecer a Deus em qualquer circunstância, somos capazes de ouvir Sua voz falando por meio de outros.

Se, por outro lado, estamos, lá no fundo, resistentes à direção de Deus (especialmente se ela contradiz à nossa), ou se não estamos desejando de verdade conhecer a vontade de Deus, toda prática de autoridade espiritual será em vão. Quando as pessoas não podem, ou não querem, submeter-se a Deus e ouvi-Lo sozinhas, certamente não vão submeter-se a outros falando a elas com autoridade espiritual.

Isto é igualmente verdadeiro se somos um daqueles irmãos ou irmãs que não conseguem ouvir ninguém. Há muitos cristãos que fazem parte dessa categoria. Eles simplesmente não conseguem ser humildes o bastante para receber coisa alguma através de outro homem. É um insulto ao seu orgulho. Imaginam que Deus falará tudo, diretamente, a eles “através do Espírito”, sem precisar usar ninguém mais.

Portanto, a ideia de receber instrução ou direção de um outro parece-lhes o caminho errado e estão, constantemente, resistindo a qualquer colocação que outro irmão possa ter sobre suas vidas. Eles são irmãos rebeldes que, embora possam ter a aparência superficial de cristandade, não estão muito abertos à liderança de Deus.

Isto, meus queridos irmãos e irmãs, não é uma pequena consideração. Na verdade, é de suma importância. Por que Deus instituiu a autoridade governamental na Terra? Porque a humanidade não estava disposta a obedecê-Lo diretamente. Por que ele permitiu que Israel tivesse um rei? Porque o povo não queria segui-Lo (1 Sm 8:7). E por que temos, hoje, tanta autoridade humana e terrena dentro da Igreja de Deus?

É, pelo menos em parte, o resultado da rebeldia dos crentes que se recusaram a corresponder com a verdadeira autoridade espiritual. O uso de autoridade humana é uma alavanca frequentemente usada por aqueles que estão tentando edificar a Casa de Deus para tentar, de certa forma, subjugar outros para aquilo que eles percebem ser a vontade de Deus.

Quando recusamos o falar interior de Deus, alguns pensam que a única opção disponível é o controle externo. Se não somos suscetíveis ao Espírito Santo, imagina-se que devemos ser subjugados pelas leis e regras terrenas.

Esta é uma verdade muito importante. A menos que todos nós cheguemos ao ponto de sermos completamente submissos a Deus, não estaremos sensíveis à vontade do Senhor, nem submissos à autoridade espiritual transmitida por Ele.

Na ausência disso, só seremos dirigidos por regulamentos superficiais, “princípios do Novo Testamento”, “normas espirituais” e líderes terrenos. Deste modo, talvez até possamos produzir algo que, aparentemente, seja um grupo ou igreja metódica e disciplinada, mas faltará um ingrediente essencial: A verdadeira submissão ao Senhor. Sem esse ingrediente, o resto é simplesmente inútil.



O SENHOR DE TODOS




Quando conduzimos pessoas ao Senhor, ou quando nós mesmos aceitamos a Cristo, precisamos afirmar uma verdade, que é negligenciada com frequência. Quando recebemos a Jesus Cristo, precisamos recebê-Lo por causa de quem Ele é. E quem é Ele? Ele é o Senhor. É o “cabeça” do corpo. Ele não é apenas o Salvador, mas também o Senhor. Resumindo, Ele é a autoridade absoluta no Universo.

Portanto, se não estamos, de alguma forma, dispostos a submeter cada aspecto de nosso ser ao Seu controle, estamos apenas fazendo jogo com Deus. Somos hipócritas. Nós O honramos com nossas palavras, mas nosso coração não é realmente Dele.

Já que estamos falando sobre submissão a Jesus, queremos afirmar: Ele deve ter permissão para controlar nossas ações, nossas palavras, nossos pensamentos, nossos sentimentos, nossas opiniões, nossos desejos e qualquer outro aspecto de nossas vidas. Isso não significa que, de vez em quando, vamos fazer algumas coisinhas que a Bíblia manda e deixar de fazer algumas outras, porque são “contra as regras”. Não está em vista esse tipo de submissão tão superficial.

Todo cristão deve, mais cedo ou mais tarde, chegar a um ponto onde possa tomar a decisão de abrir cada canto de seu coração para Jesus e dar-Lhe o controle completo de si. Isso não é uma opção. É uma parte essencial do verdadeiro Cristianismo. Se não fizermos isso, não iremos a lugar algum, espiritualmente. Deus nunca fará algo dentro de nós contra a nossa vontade. Consequentemente, qualquer resistência em nós contra Sua autoridade, nos manterá distantes do progresso espiritual.

O crescimento espiritual não tem como acontecer em um crente resistente. Eu, pessoalmente, conheci alguém (não sou eu) que se converteu, mas nunca realmente abriu seu coração para o controle e inspeção de Deus. Por mais de 30 longos anos, Deus chamava e aquela pessoa resistia à ideia de abrir-se por completo ao Seu Espírito.

Então, miraculosamente, chegou o dia em que Jesus começou a conquistar aquele Seu filho. A resistência começou a desaparecer e uma nova abertura para o Senhor surgiu. Os portões se abriram e os muros caíram para render-se completamente ao Senhor Jesus Cristo.

Que mudança! Que crescimento espiritual maravilhoso e novo! Aquela total entrega a Deus trouxe um capítulo inteiramente novo para a vida daquele indivíduo. Um real progresso espiritual começou. Aleluia! Nunca é tarde demais para realmente abrir sua vida para Jesus, deixando-O assumir total controle. Este é o início do verdadeiro Cristianismo.

Por falar nisso, se você não está crescendo espiritualmente ou se está cercado, ano após ano, pelos mesmos problemas, pecados e fraquezas, essa pode ser a razão. Você ainda não abriu completamente o seu ser para Deus. Está secretamente resistindo e recusando-se a permitir-Lhe acesso a cada parte de seu coração e de sua vida. Não deseja que certos aspectos de sua natureza ou de seu passado sejam expostos e tratados.

A solução é fazer isso hoje, sinceramente, pela fé. Fazer de todo nosso ser um sacrifício vivo. Entregar-se, sem reservas, a Ele e submeter-se completamente ao Seu controle. Ele é capaz de salvar por completo aqueles que vêm até Ele (Hb 7:25).

Jesus deve ser nosso “cabeça” não somente na teoria, mas na prática, também. As Escrituras nos ensinam que temos a mente de Cristo (1 Co 2:16). Esta é uma doutrina magnífica. Infelizmente, para alguns, não passa disso. Em sua existência, no dia-a-dia, suas mentes estão cheias de seus próprios pensamentos com, talvez, uma eventual inserção da vontade de Deus no processo.

Entretanto, esse ensino maravilhoso deve ser experimentado por todos nós. Os crentes podem experimentar, de verdade, o Espírito de Deus controlando sua maneira de pensar. Seus pensamentos e opiniões podem ser os mesmos de Deus através da entrega do controle de sua mente a Ele.

O verdadeiro Cristianismo ocorre quando o próprio Jesus está no controle total de nossas vidas. Qualquer outra coisa não passa de imitação. O desejo de Deus de governar e reinar através de nós só pode ser realizado quando somos submissos à Sua autoridade. Seus planos frutificam em nós somente quando entregamos cada área de nossa vida a Ele.



COBERTURAS PARA AS CABEÇAS




Em 1 Coríntios capítulo 11, encontramos o que veio a ser um assunto controverso em círculos cristãos: a cobertura das cabeças. Aqui, Paulo está ensinando sobre o uso de véus, chapéus, ou alguma forma de “cobertura” para os cristãos durante as reuniões da igreja.

Baseados em sua própria interpretação dessa passagem, alguns creem que é essencial as mulheres usarem uma cobertura física em encontros públicos. Outros pensam que os cabelos longos das mulheres são a “cobertura” sobre a qual Paulo está falando. Outros ainda raciocinam que esta admoestação é o resultado de uma cultura antiga, que não tem lugar em nossa sociedade, hoje. Essas e outras opiniões resultaram em várias controvérsias na Igreja do Senhor.

Embora muitas pessoas tenham opiniões variadas, creio que a maioria concordará com um ponto-chave. Paulo está ensinando sobre a necessidade da mulher ter uma atitude de submissão em relação ao marido ou, na ausência de um marido, em relação ao pai, ao líder, ou a outro homem que Deus esteja usando para expressar autoridade. A cobertura física, quer a consideremos necessária ou não, é somente um símbolo de uma atitude íntima de coração.

Seguramente, todos concordam que qualquer cobertura (seja ela cabelo ou véu) que não seja acompanhada de uma atitude de submissão é simplesmente um adorno; ou pior, uma hipocrisia. Então, o foco principal do ensinamento é que a “cobertura” é a evidência externa de uma postura interna. É o sinal ou símbolo de que a mulher decidiu submeter-se a um homem e de que esse homem é o “cabeça” dela. Ela está cobrindo sua própria cabeça, seja com cabelos, véus, ou, simplesmente, com uma atitude reverente, submissa, para apontar que uma outra “cabeça” é reconhecida como superior.



DESONRANDO A CRISTO




Com isso em mente, vamos examinar juntos uma outra parte dessa passagem. Paulo ensina que é “Cristo o cabeça de todo homem” (vs. 3). Além disso, ele afirma que um homem orar ou profetizar com sua cabeça coberta desonra seu verdadeiro cabeça. Portanto, quando um homem usa “uma cobertura”, ele desonra a Jesus Cristo (vs. 4). Embora não seja comum, em nossos dias, encontrar homens usando chapéus em reuniões na igreja, há, eu creio, uma lição profunda e séria a ser entendida nesses versículos.

Concluímos que a essência do ensinamento sobre a cobertura para a cabeça é uma atitude de coração. É uma decisão interior da mulher de colocar-se em posição de submissão ao homem. Entretanto, se um homem se coloca nessa posição, está agindo como uma mulher. Quando um homem escolhe submeter a vida dele a um outro homem e confiar nesse homem para guiar sua vida, ele demonstra que reconheceu esse outro homem como seu cabeça; está escolhendo submeter-se a uma autoridade humana. Esse outro homem pode ser chamado de “discipulador”, “pastor”, “guru” ou qualquer outro título. Não importa o nome que damos este indivíduo, ele, de fato, é um outro cabeça.

Essa posição, meus caros irmãos, vai claramente contra a Palavra. De acordo com o ensino de Paulo, essa prática desonra a Cristo. É um insulto a Ele e a Sua função de cabeça de todo homem. Quando um homem coloca outro homem como seu cabeça, ele está declarando que a liderança de Jesus não é adequada. Está colocando sua confiança num líder humano. Sendo assim, mostra que não tem completa confiança em seu cabeça divino e invisível.

Que vergonha isso é para Jesus! Quando homens cujo verdadeiro e único cabeça é Cristo começam a agir como mulheres e colocam-se debaixo da autoridade de outro homem, este é o mais terrível insulto a Deus.

Se, por exemplo, uma mulher fosse mais submissa a outro homem do que a seu marido, adotando uma postura de completa rendição à sua vontade, isto seria o pior tipo de ofensa contra seu marido. É uma declaração de que o marido dela não é suficiente, não é homem o bastante, que não a satisfaz e não é digno de sua confiança.

Da mesma forma, quando homens que deveriam ser submissos a Jesus rendem seus corações e vidas a outro homem, estão declarando para todos que seu Senhor não é suficiente para eles. Isso é, verdadeiramente, uma desonra para Cristo (I Co 11:14).

Embora o uso de chapéus masculinos nas igrejas seja realmente incomum, a prática de estar em submissão a um homem ou a um grupo de homens, ou estar sob a “cobertura” de algum homem, é, na verdade, muito comum. É, de fato, algo que uma parcela significante das igrejas cristãs insiste em fazer.

Eles dizem que, se você não está “em submissão”, está fora da vontade de Deus. Se não está “sob a cobertura” de algum outro homem ou ministro, deve ser um rebelde do pior tipo. Expressões como “andar debaixo”, “estar coberto” e “recebendo direção” são extremamente populares na Igreja de hoje. A ideia de que, de algum modo, há uma certa segurança em adotar essa posição de submissão é predominante.

Tudo isso está, atualmente, bem popular e talvez tenha um ar de “estar certo”, mas vamos parar e pensar criticamente sobre o assunto, por um minuto. Se uma mulher usa uma cobertura, está afirmando, em público, que está em submissão a um homem. Portanto, se um homem afirma que está em submissão a outro homem, ele, de fato, está “usando” uma cobertura na cabeça. Está tomando uma posição de submissão a outro.

Portanto, esteja um objeto físico (véu) presente ou não, ele está assumindo uma atitude que desonra seu verdadeiro cabeça, Jesus Cristo. Com certeza, está óbvio que, no caso da mulher, o adorno não é o centro do debate, mas sim a atitude do coração. Da mesma forma, no caso do homem, o verdadeiro ponto crucial do ensinamento de Paulo não são os chapéus ou bonés, mas sim a postura interior do homem.

Aqui, a Palavra é bem clara. Se um homem ora ou profetiza (o que significa que está atuando em reuniões na igreja) com sua cabeça coberta, está insultando a Jesus. Está humilhando-se diante de outro homem – e não de Deus – e confiando na direção e supervisão dessa outra pessoa.

Esse homem está indicando que Jesus por Si só não é suficiente. Sua liderança e direção não são adequadas e, por isso, deve-se procurar um ser humano para uma “cobertura” mais adequada. Jesus pode até ser Seu cabeça de um modo “místico e distante”, mas ele está escolhendo um ser humano “real e tangível”, a quem possa se submeter e seguir. Se você fosse o Senhor do Universo e seus filhos agissem deste modo, você não estaria sendo desonrado? A Bíblia diz claramente que sim!



POR QUE ISTO É IMPORTANTE?




Há muitas razões claras do por quê isso é tão importante. A primeira é que Deus criou o homem para cumprir um plano maravilhoso. Se o homem deve ser o representante de Deus, ele deve estar em contato íntimo e em comunicação com Ele diariamente. Quando um outro cabeça ou “cobertura” é colocada entre o cristão e Jesus, isso impede o próprio fluir de autoridade.

Nenhum homem pode transmitir adequadamente o que Deus quer dizer ou fazer. Como todos os homens são finitos, nossa compreensão da vontade de Deus também é limitada. Portanto, é impossível um homem, ou um grupo de homens, chegar perto de expressar a vontade de Deus para outro de uma maneira completa. Um homem colocar-se “debaixo” da autoridade de outro homem interrompe, de forma brusca, o fluir da autoridade do Cabeça para sua vida.

Uma segunda razão para que os homens de Deus não se coloquem “debaixo” de um outro é que não podemos manter nossa atenção focada em duas direções ao mesmo tempo. Ninguém consegue servir a dois senhores. Deus projetou o homem de maneira tal que ele só pode dar sua fidelidade a um superior de cada vez. Esta é uma verdade inalterável.

Quando nos voltamos para o homem, procurando direção, automaticamente tiramos nossa atenção de Jesus. Fazendo isso, colocamo-nos debaixo de uma maldição de Deus. Ele diz: “Maldito o homem que confia no homem, faz da carne o seu braço, e aparta o seu coração do Senhor” (Jr 17:5).

Veja, confiar no homem e separar-se de Deus estão inexoravelmente ligados. Não há uma maneira de olharmos para um líder sem tirarmos os olhos de nosso Senhor. Seria esta a razão pela qual Jesus nos ensinou a não chamar homem algum de “Pai”, “Mestre” ou “Guia” (Mt 23:8-10)? Quando tentamos dividir nossa atenção, a direção mais fácil normalmente vence. Não há dúvida de que é mais fácil seguir a um líder tangível, físico, humano, do que a um Senhor invisível. A tendência natural do ser humano é querer alguém para dirigi-lo.

Essa foi exatamente a situação que Samuel encontrou entre os filhos de Israel. Eles vieram a ele querendo um rei. Consequentemente, Samuel ficou muito preocupado. Tentou, em vão, explicar-lhes o plano de Deus. O Altíssimo já era seu rei. Não necessitavam de um rei humano. Embora seu líder fosse invisível, Ele era muito real.

Entretanto, Israel rejeitou o conselho de Samuel e exigiu um líder físico para reinar sobre ele. Deus realizou seu desejo, mas esta não era a Sua vontade. Do mesmo modo, Deus, hoje, tolera nossos sistemas terrenos e, até mesmo, usa-os para alcançar um pouco de Seus propósitos, mas não é o Seu desígnio.



UM EXERCÍCIO FÚTIL




Uma terceira razão pela qual é errado colocarmo-nos “debaixo” de alguém que ajude nossa vida espiritual é que simplesmente não funciona. Ninguém, além do nosso Deus, vê claramente as profundezas de nossa alma. Os homens podem observar nossas ações externas e nossas palavras. Às vezes, até têm pequenas percepções do que há em nosso coração, mas apenas o Espírito do Senhor perscruta o que está escondido em nosso íntimo.

Portanto, na melhor das hipóteses, o discípulo de uma pessoa só terá um tratamento superficial dos seus pensamentos e das intenções de seu coração. É possível que a pessoa obedeça aos desejos de seus supervisores, mas tenha em seu coração áreas escondidas lá no fundo, nas quais esteja se rebelando fortemente contra o seu verdadeiro Dono.

Além disso, há um grande perigo de tornar-se um fariseu. Sob a liderança de um ser humano, a aparência exterior de uma pessoa talvez seja limpa ou controlada. Ao agradar seu guia, essa pessoa imagina que está tendo um progresso espiritual, ou que está crescendo no Senhor. Quando se torna muito obediente ao seu “discipulador”, pode supor que se tornou madura e que está pronta para o serviço espiritual.

Contudo, se somos submissos a um homem, podemos ser realmente mais submissos a Deus? Houve uma grande mudança em seu interior ou em seu relacionamento com o Senhor? Se não nos entregamos a Deus de verdade antes de nos submetermos a um líder, como as profundezas do nosso coração podem mudar? Devemos nos lembrar de que a meta da autoridade espiritual é fazer com que as pessoas obedeçam a Deus e não aos servos de Deus ou a um padrão superficial.

Por outro lado, quando um crente é verdadeiramente submisso a Deus, ele se submeterá, com alegria, a alguém que esteja falando por Deus. Ouvirá com facilidade a voz de seu Mestre, porque está constantemente em sua busca. Isto se aplica, em especial, àqueles que são conhecidos como canais da autoridade de Deus.

Portanto, se podemos ensinar aos cristãos uma profunda e genuína submissão ao Senhor, todos os problemas de rebelião na Igreja podem ser resolvidos. Em vez de cobrir esses problemas com um curativo feito de atitudes e ações superficiais, a ministração espiritual pode ajudar a expor e eliminar a raiz do mal. Como a Igreja de Deus precisa dessa ministração! Como necessitamos nos tornar genuinamente submissos a Deus!



OUTRO SÉRIO PROBLEMA




Com o passar de muitos anos tentando servir a Cristo, eu tenho notado um sério problema. Homens que têm se submetido a uma liderança humana por um prolongado período de tempo têm visto seu relacionamento com Cristo destruído. O tempo passa e eles realmente perdem sua capacidade de ouvir e seguir a Deus sozinhos. Foram ensinados a confiar no homem e desviaram seus corações de Cristo. Alguns chegaram ao ponto de dizer que não podem se imaginar submetendo-se diretamente a Jesus. Sua confiança em homens afastou-lhes da intimidade com Deus.

Uma razão para essa trágica perda é que eles aprenderam que, se eles recebem alguma direção ou luz do Senhor que não está de acordo com o que a “liderança” crê, serão rotulados como rebeldes. Talvez tenham visto outros sendo rejeitados, lançados fora ou “disciplinados” por tais “crimes” espirituais.

A consequência disso é que eles passam a ter medo ou a desconfiar de sua própria relação com o Senhor. Se podem tão facilmente estar errados, talvez seja melhor manterem-se a uma certa distância de Jesus e deixarem outros, mais “qualificados”, tomarem as decisões. Isto, então, leva esses crentes a distanciarem-se do Salvador e a porem sua confiança no homem.

Sim, eu me lembro dos versículos que falam sobre aqueles que estão “acima” de nós no Senhor. Que terrível tradução da palavra grega PROISTEMI, que significa “andar em frente” ou “liderar”, de acordo com o dicionário de W. E. Vine. Não tem nada a ver com dominação, controle ou estar “sobre”, no sentido comumente entendido. Através dos séculos, os cristãos têm sofrido muito por causa desta má tradução, que leva a conceitos errados.

Também sei sobre o centurião, o homem “sujeito à autoridade” (Mt 8:9). Ele reconheceu a autoridade sobrenatural de Jesus, porque ele próprio tinha autoridade terrena. Entretanto, não estava, de forma alguma, dando uma aula sobre governo eclesiástico, nem deveríamos entender desta maneira.

Claro que devemos ser respeitosos e submissos. É sobre isso que trata este livro! Entretanto, a submissão errada não nos levará a lugar algum. Apenas a verdadeira submissão a Deus funcionará. Que nós possamos buscar em oração a vontade de Deus e a Sua direção para essa importante questão.



ABDICAÇÃO DE RESPONSABILIDADE




Talvez uma razão real pela qual tantos aceitam a ideia de submeter-se a outro homem é que isso os alivia de muita responsabilidade. Essa é a mesma razão pela qual os antigos israelitas queriam um rei. Eles queriam alguém que lutasse suas batalhas, tomasse as decisões importantes e lhes desse a direção. Deste modo, ficariam livres para correr atrás de suas próprias coisas. Livres da responsabilidade espiritual, poderiam apenas relaxar e curtir.

Agora, há um certo apelo carnal nesta ideia. Confiar num líder respeitável e estar livre de qualquer responsabilidade é o que muita gente deseja. Entretanto, fazer isso é renunciar o sacerdócio e reinado para os quais Deus nos criou. Adotando um outro “cabeça”, rejeitamos o verdadeiro. Cada um de nós tem a responsabilidade diante de Deus, como reis e sacerdotes, de buscar a Sua vontade, interceder diariamente, manter um relacionamento com Ele e estar envolvido na condução de outros para o Seu reino.

Que tentação de querer deixar que outros façam o trabalho duro! Como é fácil apenas confiar nas habilidades de outra pessoa! Deus, no entanto, está pedindo mais do que isso. Cada homem precisa vestir suas vestes sacerdotais e carregar as responsabilidades reais de seu próprio lar, amigos ou irmãos no Senhor.

Irmão, é da vontade de Deus que você reine com Ele! Não troque este privilégio por um caminho mais amplo e fácil. Não deixe outros se colocarem entre você e o seu Salvador. “Conserva o que tens, para que ninguém tome a tua coroa” (Ap 3:11)!







6.



O CABEÇA DO CORPO






Jesus Cristo é o cabeça de Sua Igreja. Ele é Aquele que foi apontado pelo Pai para desempenhar essa importante função. Ele foi escolhido e ungido para ter a primazia sobre todas as atividades de Seu povo. Este é um ensinamento extremamente claro das Escrituras. Colossenses 1:18 afirma com clareza: “E Ele é a cabeça do corpo, da igreja”. Efésios 1:22 explica que Deus Pai O deu à igreja para ser o cabeça sobre todas as coisas. Paulo, o apóstolo, mais adiante, enfatiza o mesmo em Efésios 4:15, afirmando que Jesus é “(...) aquele que é o cabeça, Cristo”. Este fato tremendo é um ensinamento claro e relevante.

Entretanto, ainda que a mensagem seja incontestável, o significado dela frequentemente não é bem compreendido. Que possível aplicação prática essa verdade teria em nosso dia a dia?

Talvez a compreensão comum seja de que Jesus funcione – com a Sua habilidade para “encabeçar” as coisas – como o presidente de uma grande empresa. Provavelmente, Ele está em algum lugar nos bastidores, tomando decisões executivas de alto nível, realizando conferências, de tempos em tempos, com os grandes e importantes líderes e orquestrando o desempenho total à distância.

Não há dúvida de que o “trabalhador” comum O verá nos corredores ocasionalmente, ou mesmo num encontro de toda a congregação. Mas, em geral, Seu trabalho é feito em um nível mais alto, impactando a vida diária daqueles dos mais baixos escalões apenas indiretamente. Esta concepção baseia-se, talvez, no fato de que Jesus ascendeu ao céu. Ele está, na verdade, acima de todas as coisas (Ef 4:10).

Além da noção de que “o cabeça” seja algo, de certa forma, remoto, está o fato de que Ele é invisível. Ele não é percebido ou compreendido pelo homem natural. Estas coisas podem levar muitos à seguinte conclusão errônea: Jesus veio à Terra, morreu pelos nossos pecados e subiu para estar assentado com o Pai. Agora, nosso trabalho é seguir as instruções que Ele nos deixou na Bíblia até que decida voltar e nos recompensar por nossas obras.

Sendo assim, eles esquecem que Jesus está presente, aqui, agora. Por meio do Espírito Santo, Ele está constantemente conosco (Mt 28:20). Claro que é impossível Ele estar fisicamente presente em todo lugar ao mesmo tempo, mas, em Espírito, Ele certamente está presente, com cada um de nós, a todo momento.

O mau entendimento dessa verdade leva as pessoas a uma posição que, talvez, seja a maior deficiência na Igreja, hoje. Pouquíssimos crentes conhecem e experimentam a liderança de Cristo em suas vidas.

A maioria dos cristãos tem pouca dificuldade em pensar em um Salvador, Redentor, Ajudador ou Consolador, porque estas são as funções de Jesus Cristo, às quais o coração humano consegue responder prontamente. É provável que seja um pouco mais difícil entender o conceito de um relacionamento íntimo com um “Senhor” ou um “Rei” que demanda obediência.

É ainda mais remota a ideia de um “cabeça” que afeta diretamente não apenas nossos atos, como também nossas atitudes, pensamentos e sentimentos. Entretanto, se estamos para tomar posse de tudo o que Deus tem para as nossas vidas e nos tornar agradáveis aos Seus olhos, esse relacionamento íntimo de liderança com Ele é essencial.

Talvez a melhor maneira de compreender o verdadeiro significado deste relacionamento seja olhar para o que significa ser o Seu corpo. Nós, povo de Deus, somos o “Corpo de Cristo” (Ef 1:23). A Igreja, como um todo, é “o corpo” e Jesus é “a cabeça”. Os indivíduos, então, são vistos como “membros” ou “partes” desse corpo (Ef 5:30). Deus escolheu explicar-nos as coisas deste jeito, porque é uma analogia perfeita.

Em um corpo humano, todas as partes são controladas pelo cérebro. Nenhum músculo ou órgão funciona por si só, de acordo com sua própria vontade. Nem a cabeça pede opiniões ou ideias às outras partes. O todo trabalha harmoniosamente, enquanto cada parte está em comunhão íntima com o cérebro e em obediência a ele. Desta maneira, o corpo serve para expressar o desejo da cabeça. Os vários músculos e partes do corpo, incluindo a boca e os olhos, respondem à direção do cérebro e formam a expressão daquilo que a cabeça está pensando.

Isso é exatamente o que a Bíblia quer dizer quando afirma que somos Seu corpo e que Ele é a cabeça. Cada um de nós é um membro deste corpo com algum tipo de função para executar. Quando fazemos isso de acordo com os impulsos momentâneos do Cabeça, somos uma expressão Dele.

O Corpo de Cristo não é um autômato, simplesmente seguindo instruções escritas. É um organismo vivo, manifestando a vida dentro dele. É um erro extremamente sério supor que podemos realizar a nossa parte sozinhos. Como podemos expressar a vida de Jesus agindo de forma independente ou apenas tentando seguir uma lista de instruções? É impossível. Nossa parte é permitir que Jesus controle todo o nosso ser de maneira que, quando agimos, ou mesmo quando reagimos, a Sua vida e natureza é que sejam manifestas.

Essa verdade espiritual de sermos o Corpo de Cristo só pode ser experimentada se mantivermos uma intimidade com o Cabeça. Embora seja verdade que todos os cristãos sejam membros do Corpo de Cristo, essa verdade não nos fará bem algum, a menos que experimentemos, dia a dia, sua realidade.

Em um ser humano, quando a cabeça perde o controle sobre seus próprios membros e eles começam a agir independentemente, identificamos o corpo como espasmódico. Ele começa a comportar-se de modo desgovernado, descoordenado, o que é assustador e mesmo horrendo. Quando o corpo de uma pessoa responde às ordens da cabeça com imperfeição, a pessoa é chamada de aleijada. Quão frequentemente o Corpo de Cristo parece estar deste modo?

Vamos imaginar alguém que esteja condenado a um aparelho respiratório ou que esteja completamente paralisado. Os tecidos e órgãos compreendem o que é chamado de “corpo” da pessoa. Entretanto, ele cessou de responder à direção de sua cabeça e, portanto, não é mais uma expressão de si mesmo.

Será possível que o Corpo de Cristo, embora seja Dele, por causa do derramar de Seu próprio sangue, não esteja verdadeiramente respondendo à Sua direção e, portanto, não está demonstrando Sua vida e natureza para o mundo?

Queridos irmãos e irmãs, há sérias considerações a serem feitas. Talvez tenhamos suposto que podemos agir por Deus e isso basta. Contudo, Deus não nos quer agindo no lugar Dele; pelo contrário, Ele deseja grandemente agir por meio de nós. Seu desejo é que nos submetamos a Ele de tal maneira que Ele tenha o controle sobre todo nosso ser e possa nos usar como canais para manifestar-Se. Somente assim, poderemos experimentar o que realmente significa ser Seu corpo.

O que está em debate, aqui, não é “quem é o Corpo de Cristo”. Todos os cristãos fazem, com certeza, parte deste grupo. O “x” da questão é “quem” está movendo este corpo. Quem está no controle? Que vida e natureza estão emanando de cada membro? Talvez nós, como cristãos, nos confortemos com o fato de que nos tornamos membros do Corpo de Cristo. Estamos seguros em nossa “membresia” e acreditamos que isso seja o suficiente. Entretanto, agora vemos que este fato não é suficiente para cumprirmos a vontade de Deus e satisfazermos Seus desejos.

Não há dúvida de que Jesus quer que Seu corpo seja uma expressão de Si mesmo. Devemos ser Suas testemunhas não apenas falando a Seu respeito, mas também refletindo-O, de verdade. Deus nos chamou e nos redimiu para juntos sermos a manifestação de tudo o que Ele é. Sua vida e natureza, que foram, tão clara e poderosamente retratados quando Jesus andou pela Terra, devem agora ser mostradas através daqueles a quem chama de corpo.

O desejo de Deus é manifestar-Se para o mundo. Ele deseja ardentemente que todos os homens possam vê-Lo e conhecê-Lo. Esta responsabilidade foi colocada sobre aqueles que compõem Seu corpo. No entanto, isso nunca pode acontecer por nossos próprios esforços. Não podemos tentar imitar a Deus e supor que isso será o suficiente para convencer o mundo do pecado.

Também não basta simplesmente seguir uma série de regras ou princípios bíblicos. A única saída é submetermos à Sua liderança de modo a sermos inundados pela Sua vida e movidos pela Sua direção.

Quando Ele vive por meio de nós, somos uma exibição de Quem Ele é. Quando estamos meramente tentando viver por Ele, inevitavelmente só podemos expressar nosso próprio conceito de como Ele é. Verdadeira justiça, paz, alegria, vitória sobre o pecado e todas as coisas que compreendem uma real manifestação da natureza de Deus só são possíveis quando Ele é, de fato, o nosso cabeça.

Como precisamos desta experiência hoje! É essencial que a liderança de Cristo seja muito mais do que uma bela dou-trina para nós. Precisamos experimentar a realidade dessa liderança para sermos agradáveis a Deus. Nosso Pai Celestial é, em alguns aspectos, uma pessoa muito minuciosa. Há apenas uma coisa no Universo que verdadeiramente O agrada: Seu Filho. Quando Ele vê Seu Filho manifestado por meio de nós, Ele se agrada muito.

Nada além disso irá satisfazê-Lo. Se dizemos que somos Dele e que queremos fazer Sua vontade, esse é o caminho: Permitir que Seu Filho Jesus Cristo domine nossa personalidade e seja nosso cabeça. Quando Ele é Aquele que inicia nossas palavras, atitudes e atividades, então – somente então – agradaremos ao Pai.

A Bíblia diz que temos “a mente de Cristo” (1 Co 2:16). Infelizmente, para muitos, isso não passa de um ensino agradável que não causa um impacto real nem influencia suas vidas. Não faz parte de sua experiência diária. Possivelmente, suas mentes são, pelo contrário, dominadas por suas próprias ideias, pensamentos e opiniões.

Há também, nas Escrituras algo chamado de “renovação da mente” (Rm 12:2). Aqui, lemos que podemos ser transformados por este processo e que o resultado será “a boa, agradável e perfeita vontade de Deus”. Que empolgante! Aqui está o caminho para sermos transformados e para agradarmos a Deus.

E como isso acontece? Simplesmente permitindo que o Espírito Santo de Deus domine nosso processo cerebral. Se rendermos nossa mente totalmente a Ele, podemos ter Jesus como nosso Cabeça. É isso o que as Escrituras dizem: “vos renoveis no espírito do vosso entendimento” (Ef 4:23). Isso fala do Espírito Santo preenchendo, transformando e, então, usando nossas mentes para expressá-Lo em toda Sua plenitude. Esta é, verdadeiramente, uma salvação maravilhosa.

Como você pode ver, ter Jesus como nosso cabeça é muito mais do que obedecer às Suas direções ocasionais ou a algum mandamento da Bíblia. É submeter todo nosso ser ao Seu controle. Quando Jesus domina nossa mente, Ele nos controla inteiramente. Através desse processo de transformação, nós, individual e corporativamente, nos tornaremos uma expressão viva Dele – Seu corpo.



CABEÇA DO CORPO




Jesus não pretende ser apenas o cabeça de cada indivíduo. Ele também é o cabeça da Igreja como um todo. Então, o que isso significa? Significa que, quando nos reunimos em Seu nome, não estamos livres para fazer nossas próprias coisas. O Senhor não está ansioso para ficar sentado no último banco, assistindo aos nossos rituais religiosos, sendo entretido. Sua intenção é ser o líder de tudo o que fazemos. Para que a Igreja, Seu corpo, seja uma expressão Dele, Ele deve estar no comando de nossas reuniões.

Pense nisso por um momento. Se não seguimos a lide-rança do Santo Espírito a cada momento de nossas reuniões, não estamos expressando Jesus Cristo. Se, apenas ocasionalmente, abrimos-Lhe espaço para mover-Se como deseja, estamos manifestando-O de uma maneira muito limitada.

Isso, então, nos leva de volta à nossa analogia de um deficiente, espasmódico ou paralítico. Embora sejamos a Igreja do Senhor em um sentido posicional, nossa vivência nesse aspecto, frequentemente, deixa a desejar. Embora nunca deixemos de ser Seu corpo, a verdadeira Igreja que Jesus está procurando nunca poderá ser real, enquanto Ele tiver somente uma pequena influência sobre ela.

O próprio Jesus explicou essa verdade à mulher samaritana que encontrou no poço de Jacó. Ela estava curiosa a respeito do lugar apropriado para adoração. Naturalmente, queria resolver o velho dilema sobre qual seria o local correto ou a fórmula certa para agradar a Deus. Por diversas vezes, nós também nos preocupamos com qual formato é o mais adequado às Escrituras, que método é o melhor ou que dia foi o escolhido pelo Senhor para que possamos nos reunir.

Com certeza absoluta, podemos ver como tudo que é terreno, humano ou superficial não tem importância alguma para cumprirmos a vontade do Pai. Jesus respondeu a ela, dizendo que a verdadeira adoração só pode ocorrer no Espírito.

Isso significa que, apenas quando o Espírito de Deus está fluindo e dirigindo nosso louvor e todos os nossos cultos, o Pai está satisfeito. Como precisamos experimentar essa adoração, hoje! Como nosso Pai Celestial quer que cumpramos a Sua vontade!

Como, então, devemos nos reunir? Esta é uma questão que deve ser decidida ouvindo a direção do Espírito Santo. “Como”, “quando” e “onde” são questões que Ele responde, se estivermos preparados para ouvi-Lo. Entretanto, primeiro precisamos esvaziar-nos de nossas próprias ideias e opiniões. Precisamos libertar-nos de tradições e práticas religiosas. Apenas copiar o que outros têm feito por séculos, não nos capacita a chegar ao melhor de Deus. Na verdade, fazer isso garantirá que não chegaremos.

Por que confiamos tão pouco em Deus para nos liderar e nos guiar nessas coisas tão simples e práticas? Como Aquele que mantém o Universo unido pelo Seu poder pode ser incapaz de dirigir Seu povo em suas reuniões? Precisamos nos humilhar diante de Deus e abrir nossos corações a Ele. Precisamos nos arrepender de fazermos nossa própria vontade, achando que isso irá satisfazê-Lo. Ele pode edificar Sua Igreja e, vai fazê-lo, se apenas O deixarmos ser o cabeça de tudo.

Sem dúvida, o Senhor nos guiará, falando através daqueles que são íntimos Dele. Se verdadeiramente tivermos ouvidos para ouvir Sua voz, Ele nos guiará a cada passo na prática. Ele pode nos guiar na procura do melhor local para os cultos. O tamanho do espaço físico é uma das considerações. Será que Ele nos levou a arrumar algo especial para as crianças? Será que Ele mesmo instituiu um coral? E a arrumação das cadeiras? Será que ouvimos Dele?

Talvez você pense que essas coisas são insignificantes demais para buscar Sua atenção. De jeito nenhum! A Bíblia diz que, em todas as coisas, Ele deve ter a primazia (Cl 1:18). Além disso, devemos sempre estar prontos, como estavam os Filhos de Israel no deserto, para mudar qualquer coisa a qualquer hora. Conforme o corpo cresce ou outras considerações surgem, Jesus pode e irá nos dirigir diariamente nestes detalhes. Deste modo, começamos a providenciar para Ele um lugar onde Ele possa fazer Sua obra.



ENCONTROS DIRIGIDOS PELO ESPÍRITO




Uma vez que ouvimos de Deus a respeito de questões práticas sobre como e onde devemos nos encontrar, podemos pensar no que acontecerá durante a reunião. Isso também deve ser aberto à direção do Espírito Santo. Na Bíblia, lemos que, quando nos reunimos, deve haver canções, hinos, revelações, línguas ou interpretação (1 Co 14:26). Também lemos que todos podem profetizar de acordo com a direção do Espírito (1 Co 14:31).

Quando estamos reunidos, o próprio Jesus está em nosso meio. Ele vem não como um espectador, mas como um líder. Ele pode motivar (e assim o faz) cada membro do corpo a contribuir com sua porção Dele de uma maneira ordenada e coerente. Já que cada membro esteve em comunhão íntima com Jesus durante a semana, muitos deles terão algo recente para compartilhar como resultado disso.

Toda essa atividade é guiada pelo Espírito Santo e supervisionada por aqueles que são canais de autoridade espiritual por causa de sua intimidade com Deus. Obviamente, todos têm que ter liberdade de compartilhar, ministrar, etc. No entanto, este não é um tipo de liberdade fora de controle, e sim uma demonstração do Corpo de Cristo sendo orquestrado pelo Espírito Santo. Desta forma, Cristo pode Se manifestar em Seu corpo. Deste modo, “cada junta” suprirá os outros com sua porção Dele (Ef 4:16). Assim, todos crescerão juntos, como Deus quer que cresçam.

O ensino, a pregação e a exortação, com certeza, têm lugar em um encontro dirigido pelo Espírito. Aliás, Deus pode nos levar a agendar encontros especiais apenas com estes propósitos. Tempo para oração, ministração especial aos novos convertidos, sessões de ensino intensivo, campanhas evangelísticas – todas essas coisas podem ser organizadas pelo nosso Cabeça se estivermos atentos e abertos para Ele.

Deus é capaz de guiar Seu povo. Ele é capaz de edificar Sua Igreja. Precisamos apenas esvaziar nossas mãos de nossos próprios planos e programas e nos humilharmos diante Dele. Jesus pode nos dar a experiência de sermos a Igreja Dele verdadeiramente.

Entretanto, temos colocado nossas próprias ideias, intenções e desejos no lugar da verdadeira liderança com tanta frequência! Por exemplo, suponhamos que haja uma necessidade entre os jovens. Geralmente, nosso primeiro impulso é encontrar algum tipo de programa para eles e, então, escolher alguém para tomar conta. Este método, entretanto, nunca alcançará uma verdadeira meta espiritual.

O que aconteceria se, em vez disso, nós passássemos algum tempo em oração, abrindo-nos para Deus e buscando a Sua solução? Talvez Ele levantasse alguém com um dom especial e unção para ministrar a esses jovens. Então, em vez de um programa, teríamos uma ministração espiritual operando na igreja. Teríamos alguém com a verdadeira unção e responsabilidade para ocupar este ministério.

Isto é o que realmente necessitamos. Não precisamos mais de entretenimento, programas e grupos de apoio na congregação. Precisamos da presença do Santo Espírito! Precisamos do próprio Deus! Se O procurarmos de todo o nosso coração, encontraremos uma experiência de igreja nova e viva que satisfará profundamente não apenas as nossas expectativas, mas também as de Deus.



RESERVADA PARA O CABEÇA




Conforme você pode, sem dúvida, perceber pela presente discussão, toda autoridade na Igreja está reservada para o Cabeça. Não há lugar para nenhum outro. Qualquer outra autoridade irá simplesmente substituir ou estancar o fluir da autoridade de Jesus. A menos que a “liderança” na igreja seja somente uma manifestação da própria autoridade de Deus, ela impedirá o processo, em vez de ajudar.

Queridos amigos, esta é uma consideração muito séria. O corpo de Jesus é Dele! Nós não somos livres para criar algum tipo de imitação. Não podemos estabelecer nenhum outro tipo de autoridade em nossos encontros, além daquela que o Pai já instituiu. Precisamos permitir que Jesus seja o nosso Cabeça. Somente assim, poderemos experimentar a realidade da Igreja e satisfazer os requisitos de Deus. Somente deste modo, o corpo poderá crescer e ministrar a si mesmo, conforme os desígnios de Deus.

Talvez, agora, o leitor possa mais facilmente compreender a grande necessidade da autoridade espiritual genuína na Igreja de hoje. Também torna-se mais claro que a autoridade meramente humana nunca poderá atingir os objetivos de Deus. Somente quando o cabeça está estimulando Seu corpo, que Sua vida e Sua natureza se manifestam. Quando um outro alguém está no controle, não importa o quão bem intencionado ele esteja, o resultado nunca será uma manifestação de Deus.

Portanto, este é o princípio inalterável da liderança. No Corpo de Cristo não pode haver nenhuma outra autoridade, nenhum outro cabeça. Quando colocamos outro nesta posição, contaminamos a expressão de Jesus, introduzindo um elemento humano e estranho na Igreja de Deus.



O QUE QUER DIZER “ANTICRISTO”




Talvez agora seja um bom momento para discutir o significado da palavra “anticristo”. É interessante notar que um dos principais significados do prefixo “anti”, no grego, é “em vez de” ou “em lugar de”. Isto então nos leva a uma nova compreensão da palavra “anticristo”. Pode ser que estejamos acostumados a pensar que um anticristo é alguém contra Cristo ou oposto a Ele. Aqui, entretanto, vemos que simplesmente tomar Seu lugar como verdadeira autoridade e Cabeça também significa ser “anticristo”. Qualquer um que esteja tomando o lugar de Jesus na congregação está cumprindo o papel de anticristo.

Portanto, nas reuniões da igreja, o lugar dos líderes poderia ser melhor compreendido como um tipo de supervisor. Aqueles que são maduros e íntimos de Deus supervisionam os procedimentos. A propósito, a Bíblia usa a palavra “supervisores” para indicar essa função. Aqueles que são menos maduros são livres para exercer seus dons e habilidades porque há membros mais maduros que podem gentilmente corrigir qualquer problema.

A verdadeira liderança espiritual pode ser exercida de um modo muito discreto. Uma simples palavra ou oração na hora apropriada, falada pela direção do Espírito Santo, pode trazer a reunião de volta de algum desvio que possa ter ocorrido. Aqueles que desejavam dominar a reunião com suas ideias e opiniões podem ser, cuidadosamente, admoestados.

Os líderes estão presentes não para controlar ou usar as reuniões como um tribunal para seus próprios ministérios, mas para servir ao corpo, cuidando para que tudo seja feito de acordo com a direção do Cabeça.

Naturalmente, nenhuma reunião será perfeita. Haverá sempre alguém orando ou testificando de seu próprio coração. Um líder que tenha sido verdadeiramente quebrantado pelo Espírito Santo saberá de Deus quando é necessário dizer ou fazer alguma coisa ou quando o Senhor vai simplesmente permitir que uma imperfeição não seja corrigida.

Todos nós temos imperfeições em nossas vidas e somente Deus sabe a hora e o lugar para que estas deficiências sejam tratadas. Verdadeira sabedoria é resultado da experiência e maturidade. Talvez seja por isso que as Escrituras usem a palavra “anciãos” para descrever tais supervisores.

Notem que Paulo exorta para que nenhum novato exerça essa função (1 Tm 3:6). Há uma grande necessidade de paciência, clemência e amor forjando o caráter de alguém que é canal para a autoridade divina. Se o caráter de Deus não é refletido naqueles que estão liderando, a manifestação de Deus será contaminada por personalidades naturais.

Tal “supervisão” na igreja é uma responsabilidade terrível. Não é algo que alguém deva tentar tomar sobre si. Há uma grande tentação para os homens jovens, possuidores de dons, imaginar que estejam qualificados para liderar a igreja. Eles ouvem a Deus. São dotados e ungidos por Ele e, portanto, supõem que estejam aptos a serem líderes!

Entretanto, nada pode substituir o quebrantamento e os anos de experiência sob a mão de Deus. Aqueles que são “líderes” serão julgados por Deus pelo seu trabalho, como qualquer um de nós será. Se tomamos sobre nós mesmos o manto de autoridade e dirigimos a Igreja de Deus de acordo com a iniciativa de nosso próprio coração, seremos mostrados como tolos na frente de todos e vistos como irresponsáveis perante o Juiz de todas as coisas.

Uma outra consideração importante é que aqueles que são canais da autoridade de Deus e funcionam como supervisores devem ter um relacionamento íntimo com os outros. Eles devem ser unidos por Deus no Espírito. Isso requer um desejo de abrir seus corações uns para os outros, para ter-se uma transparência divina. Eles devem ter a unidade que a Bíblia descreve como “um o coração e a alma” (At 4:32).

Sendo assim, eles podem agir juntos como se fossem um, ao exercer a autoridade divina. Se houver qualquer desunião ou desacordo entre os “líderes”, será um desastre para o rebanho. Se os que estão na liderança não podem, ou não querem, agir em harmonia um com o outro no Senhor, resultará num fracasso e o testemunho de Jesus será perdido. É impossível preservar a autoridade do Espírito Santo quando há desconfiança, desarmonia e discussão entre os líderes.



UM PONTO DE PARTIDA




Este é um ponto de partida essencial para quando se começa a pensar nas reuniões. No mínimo dois ou três homens que o Senhor preparou e escolheu devem vir juntos com algum tipo de concordância nesses princípios. Essa espécie de unidade estabelecida entre os “supervisores” é absolutamente imperativa como ponto de partida.

Se isso não estiver bem definido, o resultado será pura confusão. Outras pessoas vão tentar entrar e assumir o controle. “Autoridade” de todas as direções se manifestarão, exceto a autoridade de Deus. E a “supervisão” fraca e dividida, não será capaz de lidar com isso de acordo com a direção do Senhor.

Estes primeiros poucos irmãos não devem somente concordar uns com os outros em sua visão acerca do que Deus quer; eles devem permitir que Ele os “costure juntos” em amor. Devem ter gasto alguns anos juntos permitindo que o Espírito Santo os traga para dentro da Sua unidade.

Quando vivemos na presença de Deus, mais cedo ou mais tarde nossos pecados, falhas e fraquezas vão aparecer. Aqueles com quem temos comunhão vão notar essas coisas. Todos nós devemos, conforme vemos os defeitos dos outros, aprender a lidar com essas coisas em amor. Devemos perdoar. Devemos nos suportar. Devemos reagir com paciência, doçura, gentileza e todas as outras qualidades da natureza de Jesus.

Quando aqueles que são mais maduros veem as falhas dos outros e aprendem a lidar com elas no amor de Cristo, formam uma espécie de alicerce, ou base, para uma igreja local. Quando o diabo não tiver mais munição para acusá-los, ou levá-los a acusar uns aos outros e, finalmente, dividi-los, algo sólido e eterno fora estabelecido. Estes cristãos, agora, estão prontos para que Deus acrescente muito mais. Sua experiência de unidade resistirá a qualquer coisa que o futuro possa trazer.

É relativamente fácil supor que, como Jesus não deseja qualquer liderança posicional “oficial”, não exista lugar para nenhum tipo de liderança. Alguns crentes imaturos, quando começam a entender um pouco dessas verdades espirituais, começam a rejeitar toda e qualquer forma de autoridade, mesmo que ela proceda do Espírito Santo. Este é um sério erro.

Ao longo dos anos, tenho visto muitos grupos, principalmente pequenos grupos caseiros, nesta condição. Eles escorregam para dentro e para fora da vontade de Deus. A cada semana há uma aposta se o encontro vai estar cheio da presença do Senhor ou não. O que precisamos desesperadamente hoje não é da “ausência de liderança”, mas sim da verdadeira liderança de Jesus.

Isso seria supervisionado por aqueles que são preparados por Deus. Somente a “liderança plural” (mais do que uma pessoa), unida e espiritual resultará em um encontro cristão com a manifestação do próprio Deus.

Por que o Cristianismo parece ser tão fraco? Por que a vida de tantos crentes ainda está cheia de escravidão e pecado? Por que temos tão pouco efeito sobre o mundo à nossa volta? A igreja primitiva, em 30 ou 40 anos, “virou o mundo de cabeça para baixo” (At 17:6). Em nossos dias, no entanto, com todo o dinheiro e material à nossa disposição, em comparação ao passado pouco está sendo feito.

Ora, não estou dizendo que não há muita atividade. Certamente há. Entretanto, o impacto dessas atividades parece estranhamente menor que o de dois mil anos atrás. Deus mudou? Claro que não! Sejamos honestos e admitamos que algo parece estar diferente. Talvez seja válido pararmos e considerarmos se há alguma parte do plano de Deus que perdemos, o qual poderia estar impedindo Seu poder e Sua vontade.



UM TEMPLO VIVO




A Bíblia nos ensina que somos, tanto individual como corporativamente, o Templo de Deus. Somos ensinados que o próprio Senhor mora ali. O que poderia ser mais poderoso ou eficaz que a presença do Todo-Poderoso? O que poderia transformar vidas mais do que um encontro face a face com o próprio Jesus?

Por um momento, sejamos completamente honestos. Deus realmente mora entre nós? É a palpável presença do próprio Senhor a principal característica de nossas reuniões? A temível majestade e glória de Deus são as principais atrações para nós e para os outros? Ele reside permanentemente entre nós ou é um simples visitante ocasional? Essa “doutrina do templo” é nossa experiência diária, ou apenas mais um destes agradáveis ensinamentos bíblicos que parecem belos, mas têm muito pouco espaço em nossos cultos e em nosso dia a dia?

Creio que a grande necessidade de nossos dias é que o Cabeça, Jesus Cristo, seja restabelecido em Seu legítimo lugar em Seu corpo. Por um tempo longo demais, protestantes e católicos têm substituído a verdadeira liderança do Santo Espírito por fórmulas e formas, ritos e cerimônias. Temos colocado simples homens no lugar de Deus, supondo que isso possa produzir os resultados que Ele busca e que nós necessitamos tão desesperadamente.

Como precisamos de um grande arrependimento! Como precisamos nos converter de nossos próprios caminhos e nos humilhar! Como precisamos admitir que temos barrado os desejos de Deus e ainda O culpamos pela falta de resultados que almejamos para nossa própria glória e prazer!

Vamos ser aqueles que anunciam o Rei. Estejamos entre os primeiros a submeterem-se a Ele como nosso verdadeiro cabeça e a permitir-Lhe manifestar-Se entre nós. Como precisamos satisfazer Sua vontade para que Ele possa ser tudo em todos! Jesus é o Cabeça. Ele é Aquele que pode guiar e preencher Seu corpo se Lhe dermos a oportunidade.

Nossa experiência de igreja – a qual, se formos honestos, tem sido fraca até agora e, na melhor das hipóteses, apenas parcialmente eficaz – pode ser transformada em uma poderosa manifestação da presença de Deus. Tudo o que precisamos fazer é nos submetermos a Ele. Temos apenas que nos esvaziar daquilo que tem substituído Sua liderança e permitir que Ele nos guie em todas as coisas. Deste modo, o próprio Deus estará conosco. Sua presença impregnará nossas reuniões e nossas vidas diárias. Sua glória encherá Seu templo.

Está claro que Deus não habitará em um templo feito por mãos humanas (At 7:48). Se o que temos feito é um produto de nosso próprio esforço, Deus nunca habitará nele nem o abençoará. Por outro lado, quando, humildemente, cooperamos com Ele na edificação de Sua Igreja, Ele a encherá com Sua presença, Seu poder, Sua glória e majestade. Isso pode e deve ser nossa experiência diária!